Home

luar_imagem_01

NAQUELE BAITA SOL

Valdélia Barros*

 

E ainda há quem diga que fome não provoca miragem. Não provoca uma ova! Eu que o diga. Ciente dessa história que vi e dou testemunho. E não foi só pirão de cuscuz. Vimos também carne-de-charque gorda misturada com farofa, costela de bode com arroz-da-terra, rapadura batida e muita água fresca do pote, esborrando na caneca.

E cada dia, acrescentavam-se mais olhos àquele grupo que esmorecia pelas manhãs em retirada na beira das estradas. Fome tem mesmo é cara de herege. E praga maior eu desconheço, que essa de jogar a desditosa na cara do inimigo. Esses pensados de tempos tão distantes, não se afastaram nem um tiquinho de mim. Porque esquecer o que é bom, isso nem carece falar. Mas apagar do juízo, é mil vezes pior do que cagada de urubu, quem será capaz?

No começo foi aquele vexame de se ver estorricando as espigas de milho ainda embonecadas. Depois o feijão macáçar que se amontanhava até as ripas da casa, foi baixando, baixando. Chuva, nem sinal. Quanto mais roçado enramado de jerimum caboclo. E o converseiro de noite debaixo do alpendre, embalava a rede daqueles meus sonhos agitados.

Quando a bezerra de Ambrozinho caiu morta, ele trincou os dentes. Era de fazer dó ver o menino naquela zonzeira, perguntado por Pretinha, sem atinar pras aperturas do viver, estruindo o papa da farinha, feita por mãe com tanto gosto.

Nesse tempo, a água do açude não cobria nem piaba. Melhor mesmo era ficar de vadiagem pelo oitão, porque se arredasse dalí era somente pra rachar os pés e atiçar a sede canina.

Era aquele clarão de vento parado e vô Rufino com a palma da mão fazendo sombra nos olhos a olhar o descampado. E ria tanto, tanto. Que não foi difícil desconfiar que o velho estava pra ficar aluado.

Um dia, a fazenda alvoroçou-se e um ajuntamento de gente cresceu na sala. Meninota, no meio do povo, senti tremura nas pernas, quando dei de ver aquela inundação no rosto de mãe. Entre os cochichados eu ouvia bem a história de Tibiu morador. Agora, não era só o fim da plantação e dos bichos. Parecia que o diabo andava solto e a morte calava os homens, numa reixa sem futuro, onde tudo já estava arrasado.

O velório de Tibiu morador, veio aumentar o ar de tristeza que se alastrava naquelas léguas de terra.

Pai capiongo, mãe pelos cantos da casa, as folhas minguadas do umbuzeiro, marcavam em meus olhos, o que só de lembrar causa uma tranca.

Meses depois, deixamos tudo entre às baratas. Porta escancarada. Sem traves. Que não havia mesmo precisão de se trancar coisa ruim.

Caminhada de retirante é uma só. Sem destino. Sem ninguém a espera. Esfomeados, nesse fadigamento de começar sem findar todo dia, foi que se deu a miragem dessa história.

Primeiro, foi o dedo indicador de Ambrozinho. Depois os olhos brilhantes de pai. E por fim o andar decidido de mãe que puxava nos cóis os filhos um atrás do outro.

Silêncio. Os olhos grelados de todos, ali, ao redor do pirão de cuscuz fechado num círculo. Patético silêncio e ninguém ousava pegar primeiro, como se tudo dependesse de uma ordem suprema.

Cuscuz de milho, era coisa que nunca mais se tinha avistado por aquelas bandas. Um pirão de cuscuz ou cagaião pedrado?

Tudo isso, meu Deus naquele baita sol!

* Escritora, natural de Campina Grande – Paraíba. Publicou “Janelas de frente” (1983 – romance), “Um anjo atravessa o asfalto (1985 – contos), “Luísa, a menina que virou pipoca (1986 – infantil) e Festa no circo (1989 – teatro).

REVISTA PHILIPEIA – ISSN: 2318-3101

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s