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PELA DESCONSTRUÇÃO DO CAPITALISMO SENTIMENTAL

Beano Regenhaux*

Catrin Welz-Stein

Catrin Welz-Stein

 

O capitalismo sentimental é uma reverberação dos procedimentos de manipulação dos desejos, do consumo e aquisição de bens no âmbito das relações amorosas.  É um estágio de desenvolvimento das emoções que se nutre da imaturidade do sujeito, ou seja, de sua incapacidade de mediar, controlar e processar com um código interno, com a linguagem, seus sentimentos, transferindo para objetos, produtos, o outro exterior, a capacidade de fazê-lo. Encara o amor, a afetividade, como uma emanação do outro, e NÃO como consequência de sua capacidade de amar. Trata-se de uma territorialização, no sentido deleuziano, de uma implantação de ponto fixo, de uma fonte específica dos desejos e como causa deles. O sujeito é isolado do contexto social, do coletivo, das relações anteriores e familiares, da sua vida passada e, PRINCIPALMENTE, de sua vida interior, ou seja, de toda e qualquer capacidade de articulação e combinação do vivido para encarar toda significância e relevância atribuída ao real e ao status amoroso, como proveniente de um produto, sujeito estabelecido como meta (in) alcançável.

O capitalismo sentimental, fruto do estacionamento e encorajamento da imaturidade psíquica é como o fetichismo da mercadoria marxiano: obscuresce, turva todas as operações circundantes que geraram o produto como consequência de um trabalho anterior, encarando o produto como aparição mágica, razão em si mesma e origem da situação vivenciada no cotidiano. O processamento do capitalismo sentimental irradia-se mediante a incorporação de ânsias e invenções de necessidades de controle, de obter garantias sobre a PRESENÇA ESTABILIZADORA/ESTABLIZADA DO OUTRO. Ao invés de se basear numa organização pessoal dos fatos da vida, mantém-se pelo desespero em encará-los, tornando imperativa a construção de uma zona de conforto que preconiza a presença física do produto/ser/objeto/pessoa como a razão do próprio ser. Trata-se do amor, do desejo imaturo, que é no máximo, APEGO: desenvolve-se como resultado da frustração, medo, da insegurança, do desespero. Medo de perder o outro, compensação por sofrimento de outras relações, busca de algo que lhe complete,  sentimento de vazio existencial. O capitalismo sentimental nutre-se dessas aflições não ponderadas para gerar e organizar a experiência amorosa, apropriando-se da capacidade do próprio sujeito administrar e organizar seus sentimentos. É uma mediação pela incapacidade do sujeito reconhecer sua própria capacidade de amar, de encarar o amor como agente que proporciona um canal sensível, que é uma implicação da vontade de ser/reproduzir-se/continuar existindo-vivendo. O amor não pode ser uma fuga existencial, um resgate de si numa zona de conforto, um fortim contra o real. O incômodo ao ataque ou à formulação da expressão Zona de conforto advém da preocupação central do capitalismo sentimental: manter a zona de conforto a qualquer custo. Por isso que o procedimento maior de atração do capitalismo sentimental é a oferta de seguridade privada.

O amor à singularidade do outro ocorre, exatamente, pelo reconhecimento do contraste dele com os outros, com o vivido anteriormente, sem a anulação do que existe ao redor. Atraio-me pelo outro pelo que ele estimula em mim, pelo que ele me proporciona e não pela garantia eterna de sua existência, de sua presença física. Querendo ou não, é o que você se apropria do outro conforme sua individualidade que faz todo o sentido de qualquer relação e não um suposto controle sobre todo o tempo-espaço da existência do sujeito amado. Calculismo egoísta não é a apropriação, assimilação, digestão do vivido com o outro na relação que acabou ou que é efêmera, mas sim a vivência frustrada e mal resolvida de querer controlar o outro como presença física ESTÁVEL/ESTABILIZADORA do seu próprio eu: o sentimento pelo outro, como posse, propriedade privada que é reflexo da insegurança do sujeito em reconhecer o vivido com o outro, de reconhecer uma articulação própria de sua vida interior e da singularidade da relação. Essa incapacidade de amar/conhecer (a si, o outro) e articular a vivência única de si com o outro, demanda um controle da presença fastidiosa da matéria e do tempo do outro. O que você vive, absorve e apodera da relação com o outro e de sua expressividade não pertence à presença imperativa do outro, mas sim do que este lhe oferece e desperta em você mesmo. Amor, como a felicidade rousseauniana é um estado permanente de encarar a realidade e canalizar as emoções, nunca pode ser consequência de um território, um ponto fixo. Amo o outro, pois já possuía essa organização, essa predisposição ao afecto. Considerar o outro como a origem da capacidade de afecto é apego, não amor.

Se há sofrimento no vivido, não pode ser por imaturidade ou apenas motivado pelo outro, mas sim por consequência das incompatibilidades surgidas mediante os golpes do acaso, aparição de novas circunstâncias, a partir do ritmo e do tempo das relações. E que sempre irá trazer benefícios, memórias, transformações contínuas do ser. Sofrimento é constatação da dor, do ser que pulsa. O sofrimento imaturo é sofrimento inarticulado, fruto do desespero e da angústia (a impossibilidade de articular isso no vivido anteriormente e no agora, vide Kierkegaard). Amor é um canal sensível da vontade de ser junto com o outro NO MUNDO, NA VIDA REAL ARTICULADA. Nunca pode ser um apego a uma zona de conforto ou ponto de fuga ou resgate do real. Eu preciso do mundo para reconhecer a singularidade do outro, e não fixar sua presença particular para poder enfrentar o mundo.

 O enfrentamento é conjunto, eu e o outro, o outro não pode resumir o mundo ou ter incumbência de me salvar de mim mesmo ou do mundo. Sentimento de posse da presença é uma reivindicação de regressão uterina da imaturidade. Um apego egóico que absolutiza a garantia material, de territorializar e colocar rédeas no acaso. É ser quixotesco contra a inconstância do ser com o outro NO MUNDO.  Tranquilidade nunca pode ser a  garantia de uma zona de conforto ou a presença material do outro,  ou ainda querer controlar a experiência do outro, mas sim capacidade de organizar internamente a experiência com o outro/ sem o outro, aproveitar o vivido com o outro/ sem o outro. Por amor ser uma potência para o mundo, eu sou capaz de me atrair por um sujeito em particular. Qualquer vivência com qualquer pessoa é única, a sua vivência com um alguém não é mais única, é apenas mais significativa perante as outras para você. O real é como uma peneira, onde os furos são formas de vida distintas, cada uma tão verdade sobre a realidade quanto à outra. Todas as vivências são intransferíveis. Eleger uma como satisfatória é ter consciência que formas de vida possuem contornos definidos. Imaturidade é achar que uma forma de vida engloba todo o real. Se a relação é intransferível é por contingência, não é porque é a causa da existência do sujeito e do real, mas sim porque toda vivência é uma combinação única de eventos, é um ângulo, uma forma de vida.

 

* Doutorando em Antropologia pela UFRN.

 

REVISTA PHILIPEIA – ISSN: 2318-3101

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