Home

Josafá de Orós*

|CRÔNICA E XILOGRAVURAS|

A feira de Campina Grande

Cópia (2) de feira-serrote 

abacaxis

 

A feira de Campina Grande é um dos mais importantes patrimônios culturais do município. Desde quando, no século XVII, no entorno de uma região denominada Riacho das Piabas, nasceram os rudimentos do que seria a povoação originária da cidade, que despontam embrionárias relações comerciais que, ao longo dos anos, dariam forma e conteúdo a Feira Central de Campina Grande. Daqueles tempos aos dias atuais, a Feira não apenas se manteve nas tradições que consolidou, mas também, dadas as tantas mudanças sócio-culturais-tecnológicas ocorridas, acabou por se re-significar, para sobreviver, principalmente no que concerne às relações no âmbito mercadológico. O Mercado Central de Campina, como assim também o denominamos, ao modo de tantos outros mercados, como o da Cantareira em São Paulo, o Ver-o-Peso em Belém do Pará, o Mercado São José em Recife, dentre outros, funciona como termômetro onde se expressam, com certa notoriedade, os temas tradicionais e os elementos de subsistência, que atuam como frente resistente de uma sociedade fortemente assediada por novidades que provocam importantes impactos negativos, principalmente sobre as relações tradicionais, em nomes de certas modernidades impostas quase sempre pela pragmática dos mercados.

a vendedora de feijo verde

Quando menino, muitas vezes fui ´fazer feira´ com minha mãe no Mercado Central. O encantamento com aquelas imagens (coloridas e em frenética movimentação) nunca se aquietou em minha memória. Senhores de chapéu de palha ou de massa assoprando papos de galinhas (amarelos como ouro) para mostrar criação gorda e barata. Outros dependurando bacorinhos pelo mocotó para melhor mostrá-los aos passantes. Meninos com os pés sujos em dias de neblina, com mãos e braços lotados de redinhas com pimentão, batatinha, maracujá, oferecendo a um e a outro. Um chapeado – com seu pesado balaio – gritando: Olha o sangue! Olha o sangue! Uma carroça de mão, uma banquinha com rapé, fardos de cigarro de palha, grande rolo negro de fumo. Uma urupema lotada de bruxinhas de pano, um balaio de maxixe, grandes bacias de alumínio cheias de feijão verde, farinha vendida a litro, as bancas de doce e de queijo, a crueza rude da faúla, enfim, tudo e todas, a um só tempo foram e são imagens de um mundo rico e diverso, cheio de formas, de cheiros, de cores e de sons que de alguma maneira haveria de aparecer influindo sobre o meu trabalho enquanto artista plástico atuante na região desde os anos 1980.

Este lugar que foi desde o início, âncora para pioneiros, ainda hoje continua reunindo agentes responsáveis por importantes dinâmicas econômicas, sociais e culturais no município. A Feira já foi lócus privilegiado da contemplação de muitos e variados olhares: fotógrafos, antropólogos, sociólogos, poetas, cordelistas e artistas visuais e tantos mais tiveram na Feira não apenas inspiração para produção artística mas a reteve como valor e conhecimento de base identitária que de alguma maneira influíram sobre suas obras e suas próprias vidas. Quantos, longe do torrão, guardam imagem de Campina a partir das lembranças da Feira?

Feira-caçuá no pé

feira-caçuá

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Imagens: Gravura I: Homem com galo; Gravura II: Feira de Campina Grande; Gravura III: Abacaxis; Gravura IV: A vendedora de feijão verde; Gravura V: Cenas da feira; Gravura VI: Menino com caçuás.

* Sociólogo, poeta e xilógrafo.

REVISTA PHILIPEIA – ISSN: 2318-3101

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s