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CARACTERÍSTICAS E FUNDAMENTOS DO PROJETO ROLIÚDE NORDESTINA (Parte I)

Roliúde Nordestina

Willys Leal*

A idealização e a implantação do Projeto “Roliúde Nordestina” são consequências diretas de um “mundo” real existente na pequena e histórica cidade de Cabaceiras, no Cariri paraibano. Nada foi proposto ou executado de modo irresponsável ou arbitrário, seja em relação ao aproveitamento de seus aspectos naturais ou a seus traços culturais. Desde os primeiros passos na formulação dos fundamentos, na definição dos focos principais, sempre houve total preocupação no sentido de se respeitar e valorizar os elementos históricos, as realidades social, econômica, religiosa e cultural da cidade. Tudo foi elaborado com responsabilidade e muita paixão.

A principal característica do Projeto “Roliúde Nordestina” é ser uma busca, uma tentativa bem planejada, visando a encontrar com a utilização de uma estrutura formal e recursos bem criativos, soluções para que a cidade de Cabaceiras se torne, de fato, um polo de produções áudio visuais, deixando de lado as tradicionais soluções empíricas, informais, que ali vinham sendo praticadas.

Ao longo de décadas, esforços individuais permitiram que a cidade se transformasse em cenário de mais de 30 obras, com produções longas, médias e curtas metragens. Historicamente, essa autêntica saga tem sido ali realizada envolvendo diretamente centenas de habitantes e provocando radical mudança na rotina de seus dias calmos e cheios de esperança.

O cinema produzido em Cabaceiras fez com que a cidade passasse a viver novo tempo, tomasse conhecimento de novas tecnologias, de novos processos civilizatórios. A implantação do criativo Projeto, muito mais que qualquer outro, antes ali operacionalizado (como o hoje famoso festival “Bode Rei”, por exemplo) teve um grande impacto na idade, e no plano nacional despertou muito interesse da grande mídia, por sua originalidade e pela ousadia da sua denominação.

A implantação do Projeto “Roliúde Nordestina”, em realidade, é resultado direto dos seguintes fatores:

  1. A existência de uma prática cinematográfica, no lugar, há mais de 80 anos;
  2. A realização, ali, de quase uma dezena de cineastas famosos interessados em filmar naquele município;
  3. Ser considerável o número de cineastas famosos interessados em filmar naquele município;
  4. A oferta de excepcionais cenários naturais e culturais e espaços de rara beleza;
  5. Sua permanente luminosidade, possuidora de um “tom cinematográfico”;
  6. Ter um povo criativo, artístico e altamente receptivo;
  7. Contar com uma valiosa mão-de-obra barata e permanentemente disponível.

Hoje, cidade relativamente turística, Cabaceiras é vista, num primeiro momento, pelos que ali chegam, como autêntico cenário cinematográfico. Seu casario central, típico de início do século XX, tem cores vivas; as praças, expressando temática loca, são muito bem arborizadas e ajardinadas e estão sempre limpas. Tudo é muito verde, exibindo uma grande variedade de réplicas de seus animal-símbolo (bode) e elementos curiosos marcantes da chamada “cultura bodística”. Numa cidade apontada com oo lugar onde menos chove no Brasil, seus habitantes, muito falantes, estão sempre de permanente bom humor. Até mesmo quando a seca fica mais agressiva se veem eles obrigados a ser cada vez mais “fortes”, a fim de ultrapassar momentâneas adversidades.

O somatório dessa realidade foi fundamental para que se procedesse à fusão dos elementos de ordem turística surgidos na cidade, uma década antes, quando foi implantado o Projeto Bode Rei, com o mundo da arte cinematográfica. As experiências exitosas do “Bode Rei” serviram para orientar os rumos básicos do “Roliúde Nordestina”, notadamente em relação aos seus aspectos operacionais. Houve preocupação de atender aos valores e capacidades locais e jamais se mirou em experiências de outras regiões, principalmente porque quase todas fracassaram. Mesmo já se sabendo da existência de novas políticas oficiais para o setor do audiovisual brasileiro, propondo a implantação do “Film Commsissions” – bem parecido com os “Convention Bureau” – que foram montados para o setor turístico -, optamos por uma solução antagônica, isto é, encarar o segmento numa linha cultural e não eminentemente comercial, como são essas organizações criadas com apoio dos Ministérios da Cultura e das Relações Exteriores. Enquanto esses organismos buscam a captação de produções numa linha que segue declaradamente as normas do mercado capitalista, o Projeto “Roliúde Nordestina” trilha outros caminhos, persege sobretudo as ideias que permitem a concretização permanente de produções nos países do Terceiro Mundo. Atualmente, esses organismos instalados no Brasil criaram nove minipolos de produção, com destaque para o de Paulínia, no interior de São Paulo, montado nos milhões da Petrobrás, que tem subsidiároas instalada na cidade. Sua denomina~~ao popular é assim grafada: Paulnywood. Cada dessas Comissões, em nível estadual, conta com valiosas condições reais para captar realizações audiovisiuas, oferecendo consideráveis apoios financeiros e leva em conta a difusão de sua imagem turística.

Ainda não há elementos concretos que comprovem o acerto da criação dessas Comissões, já que tem sido os Editais – tanto governamentais, com o da iniciativa privada -, que continuam dando as condições objetivas para as produções nacionais, em maior número as de curtas-metragens.

Normalmente, as tentativas mais agressivas destas instituições em busca de rentabilidade, curiosamente utilizam na composição de sua denominação, explícitas alusões a Hollywood. Para fazer frente ao monopólio norte-americano, países emergentes, subdesenvolvidos, como o Brasil, pegam carona na denominação-símbolo da indústria cinematográfica e criam a “sua” “Meca do Cinema”. Todos, seguindo uma política cultural subserviente, globalizante, denominaram seus estúdios – ou cidades cinematográficas – utilizando parte do nome de Hollywood e observando rigorosamente a grafia da língua inglesa. Assim, na Índia, existe a Bollywood; Na Nigéria, a Nollywood; na Venezuela – terra do antiamericano Hugo Chaves – Bolivarywood; e em Israel, Israellywood.

A criação do Projeto “Roliúde Nordestina” tem como fundamento central pontuar suas ações em total discordância com as políticas que desenvolvem as iniciativas elencadas, tanto no plano nacional, como no internacional. Sem jamais perder de vista que é fundamental não se bater de frente com regras de mercado e ignorar práticas operacionalizadas há décadas, criou mecanismos criativos para que possa trilhar caminhos próprios, sempre valorizando os traços culturais locais. Foi, portanto, através da criatividade, que se conceberam instrumentos diferenciados, altamente positivos e capazes de promover o enfrentamento real dos fortes concorrentes, e, assim, superar suas limitações econômico-financeiras em relação à grande maioria dos organismos voltados para a produção cinematográfica existente no Brasil.

*Willys Leal: Presidente da Academia Paraibana de Cinema.

 

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