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NO DIA QUE SAÍ À RUA

 

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Políbio Alves*

Tia Corina é estranha. Não que é que me pediu para ficar calado, senão nunca mais aqueles arrepios no corpo que somente ela sabe me fazer. Sou lá bobo, sou não. Nem mesmo para minha mãe, vou dizer, apesar de tomar conta de mim. Ela mesmo vive dizendo que nem quer imaginar minha vida se não houvesse pessoas assim como a Tia Corina. Até mamãe pensa que sou doido. Hoje a surpreendi com minha ideia. Mamãe riu. Um riso mole de quem duvida de mim. É bom carregar pedras, o suor borbulhando na testa, as mãos sangrando, nem precisavam mais arrancas as rachaduras dos braços e da testa. O sangue escorrendo entre os dedos umedece as pedras, tonando-as menos ásperas. E por isso, para eu os meninos me aceitem em suas brincadeiras, formei essa montanha de pedras soltas. Depois, se eu me cansar ou sentir alguma agitação, mamãe me leva na Tia Corina. Então, é aguentar todas essas horas, todos esses dias. Esperar as portas se abrirem ao primeiro sinal do amanhecer. Do meu esconderijo, fico policiando meu bairro, já sitiado dentro dos meus olhos. Minha mãe me alertou: veja lá o que vai aprontar. Ela deve saber o que me diz. Por isso me falou ainda essas coisas, que esperasse a rua se encher de gente, o cheiro de café torrado se espalhar no ar e começasse a agir. Os meninos da Ilha do Bispo são de média estatura e pele amarela. Me parece que nunca vão a praia. Minha mãe também é pequena e magra, rosto enrugado. Os meninos, os daqui tem os dentes estragados, barriga grande e malhada. O médico do Posto de Saúde fala que é verminose. Minha mãe trabalha com ele, diz que é lombriga. Faz tempo, vi saindo da boca de um menino muitas lombrigas. Me aproximei. Fui catando uma por uma. Comi todas. Mamãe me descobriu ainda com a boca cheia, puxou minhas orelhas. Disse que eu ia morrer. Fiquei com um medo danado de morrer agora. Queria morrer depois do aniversário de Tia Corina. Ela faz rezas sobre a minha cabeça. No seu aniversário, a ilha do Bispo é uma festa. Aí, eu posso fazer o que quero. Sair à rua. Correr diante dos carros na avenida. Não pretendo outra coisa, não. Inventaram que sou perigoso, que cortei a barriga de um menino, nosso vizinho, só para ver se realmente havia lombrigas. Não tenho certeza disso. Não me lembro. São as mães dos meninos que ficam inventando essas estórias só para mãe me bater e Tia Corina me fazer descobrir novas fontes de alegria dentro do meu corpo. Ela me quer bem. Sei pelo modo dela segurar minhas mãos, olhar nos meus olhos. Por isso, quando estou sem querer dormir é que sinto fome de cócegas. Mamãe me leva para o Terreiro, me dá um banho com ervas. Sinto cócegas quando passa as mãos no meu corpo úmido. Me faz beber um chá amargoso, quando acordo já é noite. Tia Corina ainda continua com as mãos sobre mim. Vai tropeçando em palavras, diz gostar, me quer bem. As cócegas começam aumentando. Me perco em gritos, tanto, que noutro dia estou rouco de não poder pronunciar uma só palavra. Existe uma alegria em mim, de ficar olhando minhas mãos queimadas de cigarros, meu pescoço, meus lábios marcados de hematomas. Às vezes, também arranho o rosto com as unhas até sangrar, os braços. Dou cabeçadas nas paredes do meu quarto, esmurro os móveis e o sangue entre meus dedos, forma figuras que não conheço. Aí, tenho vontade de rever Tia Corina. Não, não é somente isso. Bom mesmo são os passeios que faço depois que tomo aquele chá amargo. São lugares que nunca vi. Sei apenas que encontro sempre minha casa e os meninos da Ilha do Bispo, de pele desenhada com serpentes e lacraias. Me fascina as luzes incandescentes que transbordam de seus olhos, os sons metálicos que emanam de suas bocas em longas gargalhadas.

Ninguém é meu amigo, somente Tia Corina, mas isso é coisa que não posso revelar para ninguém. Sinto falta doutras companhias. Estou cansado de não ter ninguém para brincar comigo. Aqui estou protegido das pessoas, posso até nunca mais sair desse esconderijo. Ele é quente e me protege do triste olhar de mamãe. Acredito que somente Tia Corina sabe não ser eu doido, o restante dessa gente da avenida, ri de mim. Agora estou a disfarçar a fome. Me alimento dos grãos soltos que desprendem das pedras. E nenhuma porta se abriu. Melhor é fechar os olhos para ter uma surpresa.

Frente ao meu esconderijo, os meninos da Ilha do Bispo, disputam uma peleja. Retiro uma pedra, outra. Pulo o muro, vou para o meio do jogo. Param de bater na bola. Começam a rir. Cercam meu esconderijo, vão atirando pedras sobre mim. Vou saltando de um lado para o outro, rio também. Acredito que eles me aceitaram em suas brincadeiras. Me fazem caretas, alguns. Xingam minha mãe. Outros ficam me cercando numa barulheira sem fim. Cobriram meus olhos com um pedaço de minha camisa. O cadarço do meu sapato, serviu para amarrarem meus braços. Se não fosse mamãe, talvez agora, eu tivesse ido parar junto ao meu Pai, que há trinta anos, continua dormindo, num acordar-nunca-mais.

 

Imagem: “Meninos”, por Tiago Santana.

Políbio Alves: Contista e poeta paraibano. Livros publicados: “O que resta dos mortos” (1983), Varadouro (1988), Exército lúdico (1991).

 

 

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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