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ALGUMAS REFLEXÕES FÍLMICAS/VISUAIS SOBRE VÍCIOS E VIRTUDES EM TÉCNICA, ESTÉTICA, POÉTICA E POLÍTICA
Beano Regenhaux*

 

I. A confusão de técnica  com tecnicismo:  subordinar o olhar do autor ao poder econômico, em particular, a da colonização mercadológica que engendrou uma fruição/ cognição HD”  microscópica ou reducionismo tecnicista:

Domínio técnico é apropriar-se da técnica para expressar o que quer dizer e não ficar preso numa certa configuração vaidosa obsessiva por definição da imagem, o que é totalmente diferente das estratégias roteirísticas de decupagem como composição/angulação/arranjo dos diálogos (e isso o cinema brasileiro antigo, com imagens, sem muita definição, dá um show com maestria. É o mesmo que exigir aos quadros expressionistas ou impressionistas um aplainamento fotográfico onde se quer revelar uma veia do retratado, pegar Cézanne e submeter a Caravaggio). É um preciosismo tecnicista guiado pelas configurações do mercado e não por autoralidade, estilo, poética ou política. Arrematando com Ismail Xavier, em  O Desafio do Cinema sobre a técnica e a estética brasileiras:

”’…atualidade era a realidade brasileira, vida era o engajamento ideológico, criação era buscar uma linguagem adequada às condições precárias e capaz de exprimir uma visão desalienadora, crítica da experiência social. Tal busca se traduziu na ‘estética da fome’, onde a escassez de recursos técnicos se transformou em força expressiva e o cineasta encontrou a linguagem em sintonia com seus temas” (1)

II. Subordinação da estética à ideologia militante como caricatura do social em prol de ”boas intenções”:

Quando há um desleixo proposital em busca de boa intenção ou nivelamento (totalitarismo estético, desculpa de alguns acadêmicos das humanidades, fazer filme mal feito embasado em sua empáfia de ”conhecer a realidade e a teoria”). Sabe aqueles documentários ou ficções com excesso de didatismo, parecendo aula do telecurso 2000?  Se conseguirem fazer um panfleto, um manifesto sem parecer excessivamente didático ou caricato,  com expressão da técnica e autoralidade (exemplo: Soy Cuba).

É necessário combater aquilo que Vilém Flusser chama de textolatria, ou seja, um correspondente textual da idolatria pelas imagens mágicas, onde há uma obsessão pelo conceito imanente, que consideram imagens meras ilustrações. Segundo o filósofo, as imagens técnicas (fotografia) foram criadas para contrabalancear o predomínio dos textos, assim como o texto escrito fora inventado para a hegemonia das imagens. A solução para uma filosofia da fotografia, uma vez que imagens técnicas são aplicações de textos científicos sobre leis físicas, é reconhecer as mediações homem-mundo na imagem e homem-imagem nos textos, assim como as ideias nas imagens e conceitos nos textos aplicados na fotografia, principalmente aquilo que o autor chama de programas que regem aparelhos (industriais, publicitários, econômicos, políticos, administrativos) (2)

truffaut-cameraDominar a técnica é fundamental: não falo de técnica, a partir dessa visão de mercado, de domínio econômico da tecnologia mais avançada, do poder econômico (tecnicismo). Repito: técnica é dominar os aparatos, os meios para poder se expressar. Tecnicismo é ficar refém de certas configurações (do mercado, do acesso a certos elementos tecnológicos), onde o critério de qualidade se reduz à presença ou ausência destas (e não ao modo de composição da obra, do estilo autoral, do cuidado em organizar uma mise en scène).

O didatismo pode até ser viável, desde que o filme não descambe para uma reportagem seca ou panfleto descuidado: a meu ver, essa obsessão neurótica e histérica do politicamente correto (acompanhada de perto pela obsessão neurótica do conservadorismo) degrada o senso crítico e estético das pessoas e todas ficam à mercê das ”boas intenções’’; o dito ”o inferno está repleto de boas intenções” nunca esteve tão apropriado, como para o momento atual ou esse tipo de contexto. Compartilho das formulações de François Truffaut sobre cinema e determinismo político:

”Sou contra o cinema onde a mensagem é preexistente à realização. Os realizadores que me agradam são aqueles que veem um filme como uma coisa em movimento. É muito difícil fazer um filme político porque, se ele é predeterminado, é estático. […].  O cinema político poderia funcionar se o filme pudesse assemelhar-se a uma discussão com o espectador, mas nunca é esse o caso. Evidentemente, um filme nunca será uma discussão, um filme será sempre um discurso, e um discurso é uma coisa que, a priori, não é democrática, porque as pessoas não podem responder. Vale mais fazer um discurso artístico ou um discurso que atinja a sensibilidade e suscite interrogações.” (3)

Um exemplo são essas críticas de esquerda militante que acusam no filme ”Que Horas ela Volta?” como uma obra inofensiva demais, de dizer que ”não esperava nada além disso de um globo filmes” ”não tem revolução” que refletem uma vontade de projetar/exigir suas expectativas para a realidade na obra de arte, que não tem obrigação nenhuma de lhe agradar ou imitar a realidade que você gostaria. Arte cria experiências, não imita experiências.  Até porque Que horas ela volta não é um filme moldado pela Globo Filmes, que apenas coproduziu, pois trata-se de uma parceria de Gullane Produções com a África Filmes) e tem uma linguagem bem diferente dos filmes comerciais: é bem mais lento, é quase um Som ao Redor, sem os rebuscamentos e a alinearidade.

Houve até comentários do tipo: ”falta ódio de classes no filme”. Estão exigindo uma verossimilhança que não existe nem na realidade imediata hegemônica: se na década de 60 exigiam que o povo pegasse em armas quando nem comida tinha, hoje exigem o mesmo para uma classe recém colocada no mundo de consumo e que tem fome para ostentação e mercadoria, tal situação, inserida na conformação do programa lulopetista de governo. E quer mais ódio de classes – bem construído, não ”mastigadinho, verborrágico, gritado, sangrento (assim como qualquer espectador de blockbuster de ação e como quer a esquerda paternalista) – do que a sequência da chegada da filha da empregada onde alerta que ”tive uma educação precária, mas com crítica social promovida pelo meu professor” e a reação da patroa, ”ai tadinha”, na tensão do ambiente que oscilou entre a surpresa e o desdém?

A força do filme no sentido de popularidade está na escolha de Regina Casé como chamariz para o tema e na atuação extremamente expressiva e bem construída dos atores e das situações. É um filme cativante porque consegue transferir o clima de tensão vivido, com diálogos certeiros, sem a verborragia e o andamento rápido que o público está acostumado, que tem momentos sim para uma coisa mais lírica e contemplativa, porém sem esquecer da tensão política envolvente.

Exigir uma ”revolução social”, no sentido macropolítico, é a mesma coisa do público condicionado por blockbuster a esperar sempre um mesmo tipo de linguagem, ritmo, andamento, e tipo de trama dos filmes em geral. É a mesma coisa de um pensamento herdado da esquerda paternalista do CPC da UNE que nos anos 60 exigia ”filmes didáticos revolucionários para o povão faminto assistir e pegar em armas” para os filmes de Glauber Rocha e do Cinema Novo. Quem sabe se contentariam com um Rambo da Esquerda ou queriam ser uma voz over explicando e usando as personagens da filha e da mãe como cobaias para ver a patroa sendo executada com uma metralhadora…

III. Etnocentrismo, poesia e a objetividade das coisas

A poesia é uma propriedade que emana das coisas. Mais exatamente do não acabamento essencial das formas de percebê-las, das possibilidades de combinações e articulações expressivas que se encontram randomicamente no real; daquela noção deleuziana de pré-subjetividades e hecceidades singulares, das metáforas que inventam formas de sentir.

As coisas não deixam de ser reveladas e se destacar perante o resto  do mundo pela forma como sujeitos e culturas distintas as reconhecem. Pelo contrário: é mediante a forma como acham que deve ser as coisas, na fricção de modos de ver distintos confrontados, é que se tornam patentes. Daí surge o embate entre idealismo e materialismo que é a tensão fundadora do pensamento nas ciências humanas. Ou seja, se minha cultura julga tal significado ou uso de uma coisa por uma cultura outra como algo bom ou ruim, se é apropriado para minha ideologia, isso não interesse para a ontologia das coisas e da poesia, que reside nessa possibilidade de reconhecer uma moldura que deriva de um enquadramento único para as coisas banais, nesse reconhecimento de eventualidades únicas.

IV. Reducionismo ideológico

Agrada-me esse pensamento da vertente da performance art que visa desagradar, tirar as pessoas da zona de conforto como propósito, mas isso não quer dizer que seja entusiasta da forma como essas performances transgressoras são sempre executadas apenas pela ideia de transgressão ou incômodo do status quo, há muita performance lixo que é feita pra chocar ou que é oportunista por contextos políticos e que acham que estão fazendo um favor por ser baseada nesse contexto de crítica política; não adianta: intenção é o que menos interessa na obra de arte, mas sim como os autores a constroem e fazem algo singular. Agrada-me a ideia de concepção da performance art  como subversão dos sentidos, mas não pela forma egocêntrica e politicômana que é conduzida pelos artistas, em geral, que realmente acaba sendo isso que o leigo pensa ”qualquer um faz arte hoje”, ”ora , se isso é arte, botar uma bosta dentro de um aquário pra fazer referência à decadência e o afundamento da civilização ocidental, então eu também posso ser artista”.

Há um oportunismo em prol da intenção, basta a palavra de um curador, de um crítico, para gerar culto e incensamento. Seria interessante deslocar essa prioridade para o viés político/subversivo como essência da arte contemporânea pois isso é subterfúgio para culto de personalidade de sujeitos oportunistas que se acreditam salvadores da humanidade. Performance arte, nesse contexto, é realmente algo absolutamente previsível que desconsidera técnica, sensibilidade, intuição e atmosfera (criação de uma experiência singular, sensível) que são propriedades da arte em si.

 A única transgressão, provocação ou incômodo próprio da arte é o deslocamento dos sentidos causado que repousa no estético, cuja base se desdobra da reflexividade na arte. Se tudo se reduzir ao plano da ideia, em puros enunciados verbais ou conceitos, então bastaria o espectador contemplar um enunciado escrito, um slogan numa folha de papel, o trabalho artístico anulado ipso facto. Então, eu sustento que o ideal é a ideia de desagradar o público, o senso comum, mas não de modo desleixado ”basta essa ideia e pronto”, mas sim pela forma como a obra é concebida. A arte não tem compromisso com resgate, alivio do real, salvar a humanidade ou reproduzir o contexto cotidiano vivido pelo público, mas sim gerar uma experiência nova em si mesma (um olhar sobre as mesmas coisas, uma nova perspectiva sobre o real, ou mais abstratamente, uma combinação de formas únicas sem equivalente). Ortega Y Gasset, em ”Umas Gotas de fenomenologia” (4), assinala que, nessas situações, as pessoas coisificam as ideias, exigem uma ilustração delas, a realidade vivida fica compreendida como um pano de fundo de instrução de uma ideia Logo, há uma algaravia de ideias e vozes querendo dizer como é a forma mais apropriada. Não há distanciamento e catarse. Ou seja, perceber a forma dramática de uma tragédia, uma forma de encenar um sentimento da realidade vivida, mas exigem uma participação no sentimento em si, na ideia em si, ”basta ser filme que fale de amor, que concorda com a minha ideologia política que eu gosto e me afeto”.

* Beano Regenhaux | Doutorando em Antropologia pela UFPE.

 

Imagem: Truffaut em set de filmagens. (Anônimo; Domínio público).

(1) Ismail Xavier e Jean-Claude Bernadet. O desafio do Autor.Jorge Zahar, 1985

(2) Vilém Flusser. Filosofia da Caixa Preta. Annablume. 2011.

(3) Entrevista em: O cinema, arte e indústria. Salvat, 1979

(4) Ortega y Gasset. A desumanização da arte. Cortez, 1999. Disponível em:

https://www.dropbox.com/s/sjw5ltaslhszzdr/O.%20y%20G.%20-%20Umas%20Gotas%20de%20Fenomenologia.pdf?dl=0

 

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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