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ANCESTRAIS

Aderaldo Luciano*

André Rebouças

Olhou a vastidão do oceano e viu a imensidão do seu desespero. Passou a limpo suas dores, exilado, sem dinheiro e só. Fora o grande construtor do Brasil. Desenvolvera o Rio de Janeiro fundando-lhe as docas e resolvendo o problema de abastecimento d’água. Levara o trem para o Nordeste e projetara os mais importantes portos do país. Olhou novamente o mar de Portugal. Estava na Ilha da Madeira, no Funchal. Escrevia para o The Times, de Londres. Nunca um afro-descendente privara da amizade do Imperador: amigo, confidente e realizador. Mas agora suas entranhas rugiam. A lágrima formou-se tímida, mas tomou gosto e nublou-lhe o olho. Antes que ela descesse pelo rosto, resolveu acompanhar seu movimento e atirou-se do penhasco rumo às correntes marítimas. Era 9 de maio de 1898. Seu corpo navegaria no último barco de Caronte. Não se despediu, André Rebouças, o engenheiro do segundo império brasileiro.

Corisco

Quem terá sido esse Cristino Gomes da Silva Cleto? Foi um desertor do exército brasileiro que resolveu embrenhar-se com Virgulino pelos sertões. De beleza apolínea, como é sempre descrito, cabelos longos e destemor, afamou-se com o nome de Corisco, o Diabo Louro. De personalidade marcante, entrou em conflito com o chefe Lampião e resolveu formar seu próprio grupo de cangaceiros. Em 1938, ao saber da morte e decapitação do ex-companheiro, resolveu vingar-se e seguiu seu plano até ser emboscado. Mesmo com a anistia concedida aos cangaceiros que se rendessem, oferecida por Vargas em 1940, o Diabo Louro foi baleado pela volante do Coronel Rufino, vindo a falecer. Protagonizou com Dadá, sua companheira, uma das mais belas histórias de amor do sertão nordestino.

Gonzaga

O olhar do homem furou o ventre das coisas, escaneou suas vísceras, revirou seus mistérios, escrutinou suas entranhas. A mão do homem deslizou pelas teclas sensíveis da concertina, seus dedos pressionaram os pinos, procurando os sons baixos e harmônicos. Os pés do homem organizavam o primeiro passo, sentindo o caminho, testando o equilíbrio. A cabeça erguida, o queixo pra frente, a barriga desforrada e o pulmão vertendo cem mil libras de oxigênio, vibrando as cordas vocais: era Lua nascendo.

Tagore

Adolescente, vagando pela biblioteca municipal encontrei aquele volume da coleção de Prêmio Nobel dedicado a Rabindranath Tagore. Eu estava influenciado pela chegada na cidade de um casal indiano que viera lecionar no Campus III da UFPB, a Escola de Agronomia. Aquelas presenças me fizeram buscar a literatura indiana. Acabei, de certa forma, ficando amigo da família, convivendo com seus filhos e, claro, conhecendo seus livros e sua música. Tagore foi o autor que me falou mais profundamente. O Jardineiro, Lua Crescente, Gitanjali, Morada da Paz, O Coração de Deus foram devorados naqueles tempos. De vez em quando vejo pelos sebos um ou outro exemplar e as lembranças voam de volta para o meu primeiro encontro.

Kayyam

Há 30 anos o destino insistiu-me no encontro com Omar Kháyyám. O Rubáyát, seu livro misterioso, abriu-se em pétalas vermelhas e cada um de seus espinhos fecundava-me a alma juvenil. Eu estava possuído de sonhos. A poesia milenar criou-me uma saudade infundada da Pérsia, onde nascera o poeta. Visitei, lunático, cada mesquita. Entoei as orações, ajoelhei-me em mosaicos antigos, passeei os dedos por tapetes macios, quis entregar-me ao vinho das paixões e esperei pacientemente que me aparecesse a virgem que me seduziria. Hoje, por volta das 3 da tarde, reencontrei Kháyyám no Largo da Carioca, com aqueles olhos vermelhos enfeitiçando os meus. Estou até agora ouvindo suas palavras, ébrio e sensível como a retina de todos os olhos do mundo.

Bule-Bule

Bule-Bule é um mar revolto, mas calmo. Traz a ancestralidade do vate caminhante, carregando a contemporaneidade do poeta engajado. Sua figura parece saída do lago profundo da Alquimia, reluzente no ouro de seus poemas tão atuais. Metade de sua produção foi sonhada, a outra metade é a realidade escorreita. Canta, toca, escreve. É beneditino e franciscano, mas seu lado jesuístico é inflamante. Canta cocos baianos e samba de praia, adorna aboios e motes com a moldura cristalina do som da viola e o preciosismo de versos incandescentes. Enfrente-o se for capaz!

Bila

A sanfona é um instrumento infernal. Bila é uma sanfoneira escondida na primeira metade da Rua da Palha, em Areia, e ofereceu-me bons momentos de fole roncando e teclas soando plásticas e baixos profundos formando um chão sonoro para a melodia deitar e abanar o rabo. Com artes do capeta, a concertina tentava escapulir, se esticava, formava parábolas, queria soltar vento. Mas as mãos fortes e o colo quente de Bila mostravam a ela quem era que mandava no pedaço.

Zweig

O escritor austríaco fugiu da Europa atormentado pela ascensão do nazismo e terminou por encontrar em nosso país o recanto, a terra, que tanto procurara. Veio morar em Petrópolis com sua companheira Charlotte. Desde 1940 que visitava o país, fazia anotações sobre nosso modo de vida e estava entusiasmado com o que o futuro nos reservava enquanto nação. Essas anotações foram reunidas em livro e o título desse livro está tatuado em todos de nossa geração que o leram ou não. A maioria de nós, escritores, imprensa, políticos, pensadores, perpetuou o livro intitulado: Brasil, País do Futuro. Pois é, foi um escritor austríaco, fugido de Hitler, exilado em Petrópolis, quem inventou o epíteto de nosso solapado rincão. Stefan Zweig foi, talvez, o escritor mais lido no mundo entre os anos 20 e 30 do século passado. Em 23 de fevereiro de 1942, atormentado com a possível consolidação do nazismo na Europa e no mundo, Zweig pôs fim à vida, junto com sua mulher, em sua casa na serra fluminense. Viva nóis que ainda suportamos a ascensão de tanta coisa deprimente.

Evaldo Braga

Foi Evaldo Braga, o Ídolo Negro. Desde criança que o admiro pois meu irmão possuía seus dois LPs, lançados no início da década de 70 do século passado. A voz potente rasgando o espaço, Evaldo foi o criador de uma escola na música popular brasileira. O maestro Waltel Branco criou uma batida de contrabaixo inconfundível em suas gravações. Foi tanto sucesso e tantas apresentações em todo o Brasil, comparado aos maiores nomes da época, como Roberto Carlos e Paulo Sérgio. Tantas e tantas vezes o Chacrinha levou-o aos palcos de seu programa. Segundo a lenda, Evaldo foi encontrado no lixo, embora tenham aparecidos irmãos. Foi criado no SAM, uma espécie de FEBEM carioca, tendo como parceiro de agruras o jogador Dadá Maravilha. Recentemente um comercial de TV relembrava seu sucesso Sorria, Sorria (Sorria, meu bem. Sorria! Da infelicidade que você procurou.). Mas foi sua morte prematura, aos 27 anos, que mobilizou os fãs. Evaldo Braga, o Ídolo Negro, morreu em um acidente de carro na estrada Rio-Juiz de Fora. Foi de engraxate e lavador de carros ao autor da música mais tocada. Como sempre acontece aos bons, a morte não é o fim. Há uma coorte de seguidores e uma corte de admiradores.

Sivuca

É! No meu tempo os meses eram conhecidos pelas alcunhas: janeiro: Mês de Reis. Fevereiro: mês do Carnaval. Março: mês de São José. Abril: mês da Paixão. Maio: mês das Mães. Junho: mês de São João. Julho: mês de Santana. Agosto: mês do Desgosto. Setembro: mês da Pátria. Outubro: mês de Aparecida. Novembro: mês da República. Dezembro: mês de Festas. Da mesma forma, as ruas de minha cidade também eram conhecidas pelos apelidos: Rua do Bode, Rua do Sertão, Rua da Palha, Rua do Grude, Rua da Baixinha, Chã do Galo, Rua da Jussara, Rua do Pirunga, Rua de Detrás, Rua do Teatro, Beco do Mijo, Beco do Banco, Rua do Cemitério, Rua da Jaqueira, Beco da Facada, Rua do Taquarí, Rua do Fogo e a Rua Grande. Lembro ainda que todo mundo tinha apelido. Dificilmente se conhecia alguém pelo seu nome verdadeiro, alguns apelidos eram pronunciados só na ausência do referido. Era assim. Esse tal de Sivuca era mesmo um danado.

* Aderaldo Luciano: Escritor e doutor em Literatura.

Imagem: Autoria desconhecida.

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

 

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