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Lourdes RamalhoLourdes Ramalho*

 

 

O MUNDO E O MONSTRO

 

Este mundo é um mundo louco

e eu monstro nele – aonde vou?

 

Por toda parte a desordem,

angústia, anseio, loucura,

a justiça escarnecida,

o direito alienado,

(o que é justiça ou direito?),

um brincar com as coisas sérias,

um desprezar o que é autêntico,

um enxovalhar o que é puro,

um confundir de valores

– e eu dentro dele – o que sou?

 

O que sou dentro do mundo?

O que é você – o que somos?

 

Você – que se diz honesto,

íntegro, justo, impoluto

(sabe lá o que é isso…).

Acusa os fracos de espírito,

critica os desavisados,

dita normas a terceiros

mas uso delas não faz!

– Lobo com pele de ovelha;

– Monstro com pinta de santo,

dentro negro; fora branco.

– Palhaço! E nada mais…

Eu e você – o que somos?

Que fazemos – aonde iremos?

Neste mundo transtornado

quais foram os passos que demos?

 

O que foi que construímos?

Que perguntas formulamos?

Que respostas encontramos

para insolvíveis problemas?

 

Que temos sido até hoje?

– Coléricos ou incolores,

apáticos ou sanguinários,

amorfos ou apaixonados,

mas – o equilíbrio, o que pesa

no encontro do eu e o outro,

você vilmente despreza

– servo da fraude e do engodo!

 

É de você que eu falo

– que se ama, acima de tudo,

que mata a cada segundo

por traição ou omissão!

Que, escravo de vis instintos,

num desenfreio sem peias,

corrompe a mulher do próximo,

cobiça as coisas alheias!

 

Pergunta-se quem é o culpado

desta loucura indizível?

– Somos eu, você

– monstros de egoísmo incrível!

Sem dar ao outro se sonha

com adesões impossíveis,

sem pensar que oferta é volta

– dar é ter – monstro – humanize-se!

Quanto mais livres – mais presos,

Quanto mais presos – mais livres!

 

 

 

*Sobre a autora

Nascida na década de 20 na fronteira do Rio Grande do Norte com a Paraíba, a dramaturga Lourdes Ramalho fixou residência em 1958 na cidade de Campina Grande, Paraíba. Na década de 70, peças como Fogo-fátuo, As velhas, A feira e Os mal-amados, começaram a despontar pelo cenário teatral do país. A partir dos anos 90, Lourdes Ramalho passou a dar mais ênfase a uma dramaturgia escrita em cordel. Suas obras atravessaram fronteiras, conquistando espaços privilegiados junto às universidades, centros de cultura e pesquisas na Europa. No ano de 1992, a Embaixada da Espanha escolheu a peça Romance do Conquistador para representar o Brasil nos festejos em comemoração aos 500 anos da chegada dos espanhóis à América. Em 1998, recebeu convite da Embaixada da Espanha para discursar sobre a obra de Federico García Lorca no Brasília Capital do Debate – Centenário García Lorca. Lourdes Ramalho também produziu vários textos dedicados ao público infantil. Dom Ratinho e Dom Gatão, Anjos de Caramelada, Maria Roupa de Palha e o Diabo Religioso, por exemplo, são alguns desses textos, que contêm reminiscências da infância da autora e também de seus filhos. No ano de 2005, em homenagem à teatróloga, foi reinaugurado o Centro Cultural de Campina Grande, pela Prefeitura Municipal, com o nome Centro Cultural Lourdes Ramalho. Em 2011, foi a homenageada da 2ª Jornada de Estudo Internacional sobre Poéticas da Oralidade: Lourdes Ramalho e o Teatro Popular, organizada pela Universidade Estadual da Paraíba – UEPB. Autora de mais de cem textos teatrais (alguns ainda inéditos), o alcance que tiveram os textos e espetáculos de Lourdes Ramalho lhe rendeu muitas homenagens, indicações e premiações.

 

 

[Principais Obras]

  • A Bela e o Monstro
  • A Cabra Cabriola
  • A Feira
  • A Mulher da Viração
  • Aconteceu no Nordeste
  • Anáguas
  • Anjos de Caramelada
  • A Velha sem Gogó
  • As Velhas
  • Auto de Natal
  • Chã dos Esquecidos
  • Charivari
  • Dom Ratinho e Dom Gatão
  • Elas por Elas
  • Escola Solidária
  • Eva e Adão
  • Festa do Rosário
  • Festejos de Natal
  • Festejos Juninos Profanos
  • Fiel Espelho Meu
  • Fogo-fátuo
  • Folguedos Natalinos
  • Frei Molambo
  • Fulano e Fulana
  • Fuxicada no Céu
  • Guiomar sem rir sem chorar
  • Guiomar, filha da mãe
  • Herói a Muque
  • História de Zabelê
  • Jesus com paixão
  • Malasartes Buenas Artes
  • Maria Roupa de Palha
  • Novas Aventuras de João Grilo
  • O Arco-íris
  • O Cangaceiro
  • O Caso de Ruth
  • O Diabo Religioso
  • Os Mal-amados
  • O Novo Prometeu
  • O Padre, a Beata e o Demônio
  • O Pássaro Real (Corrupio e Tangará)
  • O Príncipe Valente
  • O Psicanalista
  • O Reino do Preste João
  • O Trovador Encantado
  • O Velho Judeu
  • Peleja de Dom Quixote com a Besta-Fera
  • Porque a Noiva botou o Noivo na justiça
  • Presépio Mambembe
  • Romance do Conquistador
  • Um Homem e uma Mulher
  • Uma Mulher Dama
  • Uma Visão de Mulher
  • Viagem no Pau-de-Arara

 

[Títulos Publicados]

Dramaturgia

ANDRADE, V.; MACIEL, D. (Org.).  Teatro [quase completo] de Lourdes Ramalho. Mulheres. Organização, fixação dos textos, estudo introdutório e notas de Valéria Andrade, Diógenes Maciel. Maceió: EDUFAL, 2011.

ANDRADE, V.; MACIEL, D. (Org.). Teatro [quase completo] de Lourdes Ramalho. Teatro em Cordel. Maceió: EDUFAL, 2011.

LEMAIRE, R. (Org.). A feira e O trovador encantado. Campina Grande: EDUEPB: 2011.

ANDRADE, V.; LÚCIO, A.C.M. (Org.). Maria Roupa de Palha e outros textos para crianças. Campina Grande: Bagagem, 2008.

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. Teatro infantil: coletânea de textos infantojuvenis. Campina Grande: RG, 2004.

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. Charivari: texto teatral em cordel. Campina Grande: RG, 2002.

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. O novo Prometeu e Presépio Mambembe: dois textos teatrais. Campina Grande: RG, 2001.

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. O trovador encantado. Campina Grande: RG, 1999.

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. Teatro nordestino: cinco textos para montar ou simplesmente ler. Campina Grande: [s.n.], 1980.

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. Os mal-amados. In: CORRÊA NETO, Alarico et. al. Teatro Paraibano, hoje. João Pessoa: A UNIÃO, 1980. P. 81-150.

Genealogia

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. Raízes ibéricas, mouras e judaicas do Nordeste. João Pessoa: Editora Universitária, 2002.

Poesia

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. Flor de cacto: viagem ao ignoto. 2ed. Campina Grande: Latus, 2012.

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes. O menino e a gota (e outros poemas). Campina Grande: Bagagem, 2007.

 

[Prêmios]

  • As Velhas

Primeiro lugar no III Festival de Teatro Amador do Paraná. 1975.

Segundo lugar na I Mostra de Teatro Amador e Universitário da Paraíba. 1975.

Premiada pelo Serviço Nacional do Teatro. 1976.

Revelação do Projeto Mambembão. 1989.

Prêmio de Melhor Espetáculo no XII FITEI (Festival de Teatro de Expressão  Ibérica). Portugal, 1990.

  • A Eleição

Premiada pelo Serviço Nacional do Teatro. 1978.

  • A Feira

Prêmio de Melhor Texto pelo Serviço Nacional do Teatro. 1976.

Prêmio de Melhor Texto no Festival Regional de Feira de Santana. – BA. 1976.

  • Anáguas

Premiada pelo júri popular como “Melhor Espetáculo” do XIX Festival de Teatro de Guaramiranga – CE. 2012.

  • Charivari

Primeiro lugar no Concurso de Textos do Ministério da Cultura – Oficina do Autor. Brasília, 1999.

  • Fogo-fátuo

Primeiro lugar no I Festival Nacional de Arte de Campina Grande – PB. 1974.

  • Frei Molambo

Prêmio de Melhor Texto e Ator no 6º Festival do Teatro da Amazônia – AM. 2009.

 

  • Guiomar sem rir sem chorar

Prêmio de Melhor Espetáculo Adulto na I Mostra de Teatro de Caruaru. 1987.

  • Guiomar, filha da mãe

Prêmio de Dramaturgia no III Festival de Teatro de Guarabira – PB. 2004.

Prêmio de Dramaturgia na XI Mostra Estadual de Teatro e Dança da Paraíba. 2004.

  • Os Mal-amados

Primeiro lugar no I Concurso Paraibano de Peças Teatrais, promovido pela Secretaria de Educação e Cultura e Serviço Nacional de Teatro. 1976.

  • Uma Mulher Dama

Melhor Texto e Interpretação no Festival de Inverno de Campina Grande – PB. 1979.

  • Presépio Mambembe

Prêmio de Melhor Espetáculo, Direção, Ator, Atriz, Cenário, Dramaturgia e Figurino na XIII Mostra Estadual de Teatro e Dança da Paraíba. 2006.

 

 * * *

* Este poema foi escrito em 1973 e teve pouca divulgação, o que vem a dar a ele ainda atualmente um caráter quase inédito. Agradecemos à Fabiana Araújo, que hoje representa, em pessoa, a maior fonte de divulgação da obra de Lourdes Ramalho, e que nos cedeu o poema e o histórico da escritora para publicá-los na Revista Philipeia. 

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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