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CARACTERÍSTICAS E FUNDAMENTOS DO PROJETO ROLIÚDE NORDESTINA

(Parte II)

Willys Leal*

roilude nordestina

Alguns critérios nortearam a formulação e os fundamentos básicos do projeto. Entre outros, tiveram destaque: ousadia, originalidade, ser diferente, “descolonizador” e, principalmente, exaltador da nordestinidade. Deve-se observar, ainda, que o modelo a ser perseguido é o enfoque anti-roliudiano, isto é, de negação a seus postulados ideológicos, ao estrelismo. Pretende-se é produzir um Cinema com a cara da Caatinga, do Semi-árido, com as cores e valores do Nordeste. Ou seja, utilizar a Hollywood real apenas como mero símbolo, jamais buscando imitar os conteúdos de seus filmes, suas políticas de produção, e muito menos, sua ideologia.

Enfrentando-se considerável conjunto de problemas, e, mais de perto, a total falta de recursos materiais (desde financeiros, até mesmo os de ordem política), identificou-se que a chance de o projeto ter visibilidade, de não ser apenas mais uma boa ideia, estaria na corporificação de condicionantes originais, pois assim se criariam elementos impactantes positivos, como se verificou quando da implantação do Projeto Bode Rei. Deveria, portanto, exibir claramente as raízes do cariri, os valores nordestinos, mas com uma visão regionalista de uma região real, que não quer mais ser vassala, “permanentemente ocupada” pela Cultura Monopolista norte-americana, em boa parte transmitida por seus filmes que dominam os mercados mundiais.

Optou-se, portanto, quando de sua formulação, por utilizar unicamente o que Hollywood teria de bom e oferecer, com produto econômico. Exemplo: constituir-se um símbolo com excepcional valor midiático agregado, e, portanto, ideal para ser “traduzido”, “vertido”, observando=se nossas características, utilizando-se mecanismos gráfico-linguísticos altamente simbólicos. O quadro que foi flagrado, “topografado”, lembrava que, em seus aspectos históricos, em suas linhas gerais, essa mesma atitude “cultural e artística” foi colocada em prática, aqui no Brasil, com o uso de nosso jeitinho, nos anos de 1950-1960 do século passado, quando se fez um Cinema de grande êxito, no Rio de Janeiro, “copiando-se” satiricamente os filmes de Hollywood. Essas produções (perto de 50), seguiam a linha da paródia, do sarcasmo, das piadas, anedotas, comicidades, valorizando-se a desenfreada e bem brasileira gozação. Naqueles tempos, o Cinema Brasileiro foi pródigo não só em imitar, mas em “refazer” sucessos de Hollywood, na base da galhofa, da brincadeira, do burlesco, do “escrachado cafuciano”. Todos esses filmes tornaram-se grandes sucessos e projetaram nomes como Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, além de dançarinas, vindas do teatro, e cantoras e cantores que viraram símbolos da época de outro do Rádio Brasileiro. Foi o período áureo da chanchada, então malvista pelos intelectuais, pelo nascente movimento “cinemanovista”, mas hoje alvo de elogios e servindo de material para teses de doutorado. Nas chanchadas, nomes de diretores, produtores, e artistas de destaques em Hollywood apareciam grafados com nomes aportuguesados. Imitavam-se os grandes momentos de seus musicais, e por várias vezes destacaram a brasileira (atuando então com muito êxito em Hollywood) Carmen Miranda, tuno na base dos ritmos carnavalescos. Por outro lado, filmes norte-americanos excepcionais, não escaparam dessa apropriação na linha da paródia. “Matar ou Morrer”, um dos grandes clássicos do cinema, aqui virou “Matar ou Correr”; “Sanção e Dalila” tornou-se “Nem Sansão nem Dalila”. Foram as lembranças dessa fase bem irreverente, a aplicação dos postulados teóricos, anteriormente mencionados, e a certeza a que as metáforas empregadas pela chanchada tinham mais uma vez todas as chances de alcançar sucesso, que fundamentaram nosso posicionamento na consolidação do Projeto “Roliúde Nordestina”, quando encarado numa visão mais ampla. Vislumbramos seu futuro, deixando de lado as circunstâncias negativas, sempre apontadas como inibidoras da praticidade de boas ideias. Advogou-se a necessidade de negar as práticas das culturas colonizadoras, propondo o uso do “desroliudiar-se”, “desnudar” a própria Hollywood, seu incontestável poder. Eliminou-se, por outro lado, com essa provocação gráfica, linguística, a ditadura da língua inglesa, que normalmente substitui a portuguesa, nas denominações que se arvoram de modernas, avançadas, quando, na verdade, são mesmo é lesa-pátria, lesa-cultura brasileira. A utilização de metáforas, de jocosidade, de paródia, numa codificação singular bem emblemática, a partir de um jogo, de um trocadilho de letras, permitiu a formação de algo bem espetacular, midiaticamente fantástico. A união da marca símbolo do cinema – “a grife Hollywood” – deu margem à criação de uma forma comunicativa metafórica, com forte influência dos valores regionais, um grafismo que expressa a nossa terra, a nossa, gente, nossas miserabilidades também.

A denominação “Roliúde Nordestina” é, em todos os sentidos, um posicionamento crítico, provocativo, “parodiável”, da marca Hollywood, agora visualizada, grafada, ao invés de com dois “oo” e “y”, com um “ú” acentuado, e o “H” sendo substituído por um “R”. Para a denominação “fabricada nordestinamente”, o “d” mudo do nome original foi trocado por um “de”, na grafia da língua portuguesa. É uma atitude de valorização do nosso idioma e que permite várias leituras, como até mesmo as que foram feitas, apressadamente, por alguns poucos que criticaram a denominação, com o falso argumento de que expressava clara demonstração de apoio, de total concordância ao modelo de cinema norte-americano. Ledo engano, como diria sempre lembrado menestrel Virgínus da Gama e Melo.

O posicionamento do “Roliúde Nordestina” é bem explícito: não se busca fazer Cinema que seja “só comércio”, como é o ponto básico das Comissões de Filmes, instaladas em várias regiões do Brasil. Pretende-se produzir obras que reflitam o Nordeste, em suas mais diversificadas faces, mas com corretas práticas de total sustentabilidade. Contado com sólidos fundamentos, o Projeto tem todas as condições teóricas e práticas para assim caminhar.

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Willys Leal é escritor, pesquisador de cinema e presidente da Academia Paraibana de Cinema.

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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