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 A GRAVURA SEM NOME

Josafá de Orós*

Gelson Radaelli gravura

Um pouco de verniz num pote, as cerdas duras do pincel, a boneca de algodão toda amarrotada com supostas digitais, as unhas amarelecidas e uns veios cor de terra siena escurecendo as duras cutículas, um copo de vodca vazio. Lascas de limão com formigas meio atônitas desenhavam o beiral do copo, antes de se enfileirarem em direção ao sanitário. Os óculos aos pedaços no chão, pequenos fragmentos com grau acentuado sobre o libreto aberto d’A paixão Segundo São Matheus, uma edição portuguesa de Cartas a um jovem poeta, com pequena fissura na capa, comprimido sob a coxa direita. Dentro do livro, quase em seu meio, grosseiramente, um canivete carmim marcava uma folha em branco. Dois marcadores surrados sobre o tapete. Nos marcadores, sob uma caligrafia nervosa e pesada, três anotações curiosas. Grafite de mistério, força e gênio incomum que não se apaga fácil.

Acima da escrivaninha, sacrificada a prego como Cristo, na parede, aquela litografia anônima, não numerada, era a lembrança mais viva. Ali na sala, além da gravura mostrando uma apavorante cena com animais bizarros em sanguinário conflito, mais duas pinturas tristes e uma pena de pavão albino apontando para o teto manchado. Uma bela escultura de Dom Quixote com a lança quebrada, fazia reluzir em seu escudo símbolos arcaicos desconhecidos. Um pote de latão, em formato de hídria antiga, trazia esbeltas figuras egípcias em negro e exibia, sob uma moldura de irretocável silêncio, duas margaridas murchas, despetalando-se. A hídria sobre os papéis era peso que resguardava o bilhete do vento irrequieto que chegava pela fresta entre o parapeito e a janela. A porta com os dois ferrolhos tortos, banhada de um azul cerúleo meio craquelado, donde gritava fosco branco de zinco, ainda estava fechada. Na verdade, vedada, e bem vedada, inclusive com a escura e aromática cera de abelha tapando estreitas frestas e minúsculos furos. O relógio sobre a bandeira da janela, relógio antigo e do mais lindo móvel, carregava a poeira indelével do tempo. Havia estacionado o peso das horas sob as suas costas. Um relógio com cara de ancião exausto, dominado pelo próprio tempo, deixou o ponteiro grande deslizando sobre o pequeno há dias. Sísifo encalacrado! Caixinha de dolorosa música. Mãe de um ruído leve e intermitente, de insuportável repetição, maçante. Massacrava ao seu modo meus tímpanos de uma maneira tal que, passados longos dias, minha cama repete de maneira sistemática um estalar estridente e silente, contraditoriamente. É como se quisesse armar uma conversa com os mestres do tempo.

Um clima espantoso se desenhava desde o momento em que vi aquele sujeito inerte no chão. Não era algo pavoroso, mas havia um  quê  de medo em todo canto. Dependurado nas linhas da casa, feito morcegos de feltro, lançando suas sombras nas paredes, um medo entrava pelos poros, se entranhava em minhas vísceras. Era como se o mundo e o meu mundo tivessem alicerces de vento e fossem ruir a qualquer momento e despencar para um mundo sem chão, infindo abismo no meio de um belo sonho. Mundo enevoado, terno em seu silêncio, sem fantasmas.

Parecendo-se com algo triste quando bate a nossa porta ou invade de surpresa nosso coração. Se demorasse muito olhando pra maquinaria inerte daquele medidor do tempo veria, sei, anões lá dentro armando o estapafúrdio contra mim. As ferramentas largadas ao lado. Anões com seus barretes maquinando, ignóbeis desocupados. Aquilo para mim era uma coisa insana e mexia com os meus nervos. Provocava-me um suor estranho. Uma tremedeira nos lábios e nas pálpebras.

Nessa estranheza sem par, de repente algo me assaltava os sentidos e eu ficava, por segundos, inteiramente entregue a um inferno escuro, onde anuns de fraque me olhavam e me desejavam. Mas meu corpo tremia sob intransigentes e coloridas sinapses. Epiléticas pinceladas de azuis.  Serpentinas vorazes em torno de mim. Gritos descalços de certo Van Gogh em meio ao trigal maduro. Corvos negros ponteando todo o céu. Espocares distante de estrelas. Nascença descontrolada de mundos. Meus céus!

Com os olhos fechados, os meus cegos de guia. Os meus Borges entre livros. Os olhos brancos de Homero. Um tocador de marimba de pau esmola o seu armorial lamuriento. Mendigos de feira. Caolhos batem a janela! Camões nas nuvens sobre o Tejo. Pensava eu que aquelas imagens e o pulsar feroz das minhas veias me vinham porque apareciam como as únicas saídas. Pontinhos de luz eram sinapses e silêncios querendo beber palavras. Palavras nuas. Palavras pulsando em suas placentas de vidro. Alegravam-me e os meus olhos novamente ofuscados.

A sensação plena de que ali se desenhavam novas fronhas, alforjes para levar palavras sem armaduras. Palavras para martelarem suas entradas novamente e de volta e a noite. Navegantes sem rumos nos interstícios da minha cabeça, nas gavetas, nas cisternas desconhecidas. Sonhos, sonhos. Era ali, cria eu, que encontraria os manuscritos perfeitos, mundos sobre os quais eram esboçados os caminhos que me salvariam. Certamente me salvariam! Mas, me salvariam de quê? Não sei!!

Sempre que involuntariamente fechava os olhos em cochilos e sonhos, sentia que algo me fazia provar a sensação do eterno, ainda que em momentâneos estalos. Ciclopes musculosos, de cabelos encaracolados, do nada apareciam e me salvavam a lance com confortáveis puçás quase transparentes feitos de gaze, costurados com lisa e fina linha de seda, apanhavam-me no ar, apanhava-me na minha particular brevidade. Um pulsar!

A inglória luta ‘sisífica’, ao que parecia, queria novamente se apresentar como o dedo de Estamira, sem deixar minha cabeça vaga por um minuto. Nem um segundo sequer! Desde que deitei meus olhos sobre a mancha do vidro da janela, meu olhar ficou preso entre a cortina e a parede. Fora, certamente, tecida iniludível trama, mandinga botada naquela mesinha, ali, enquanto os anões tomavam café e comiam a mancheias pequenos biscoitos  de coco.

Não havia nada mais a dizer sobre o caso do poeta. O que imagino que toda vila supunha confirmava-se a cada fragmento encontrado. Um silêncio estranho dominava cada casa e o quiosque da esquina. Pela vidraça tinha isso como pintura!

Os meses que havia passado fora, aspirando energias daquele verão, tinha-o, na prática, transformado no mais importante escultor hiper-realista depois do gênio de Ron Mueck. A figura humana perfeita e nua que sob a coxa direita prendia o livro de Rilke não passava de mais uma obra do gênio inominado. Havia transferido sua alma pura e gravemente inconformada àquela bela figura e fugira sem destino Quase atordoado como um cidadão comum, levou consigo apenas a roupa do corpo e a misteriosa sanguínea que habitava por trás daquela gravura sem nome.

Fazia menção dela, deixando anotado num retraço de papel, no quarto, ao lado do livro, manuscritos, dos contos A Predição de Sebastian e o Ocaso de Arthur. Textos, aliás, jamais publicados e que havia mencionado em seu testamento.

A página que parecia em branco trazia escrita em leite, herança mordaz de Vladimir Ilitch, que só poderia ser lida sob a luz de lamparina ou candeeiro. Trazia o nome da tal gravura e o nome do seu autor bem como o dia e o local no qual morreriam os dois personagens dos sonhos que subjaziam à gravura. Haviam também se envolvido nos contos, mas neles não se aprisionaram.

*

Imagem por Gelson Radaelli.

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Josafá de Orós  é escritor, poeta e xilógrafo.

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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