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AINDA SEI DE UM PIADO FUNDO COLADO A MEUS DEDOS

Edson Costa Duarte*

Gelson Radaelli

            Quando eu tinha uns quinze anos, lembrei isto agora, aconteceu uma coisa que eu nunca me esqueço. Era tempo das minhas férias de fim de ano. Sempre, neste período, ia viajar para o campo, no Paraná, para o sítio de meus avós maternos. Nesta época os meus avós já tinham vindo morar em Campinas, e um dos filhos deles é que era dono do sítio.

            Foi minha primeira viagem sozinho e logo de cara parecia que ia dar algo errado. Primeiro meus dois dentes da frente começaram a doer e a gengiva inflamou. Estes dentes eu quebrei aos dez anos. Jogando “queimada” na rua, escorreguei num bagaço de laranja e pum, bati a boca no asfalto, resultado: puro sangue, não o cavalo. Agora, com a gengiva inflamada, fui ao dentista, que queria fazer tratamento de canal, mas a viagem era já naquela noite. Ele me receitou um antibiótico e pronto.

            A dor que eu sentia me fazia lembrar aquela outra dor, quando do acidente, que me fez quebrar os dois dentes e ficar horrível, a imagem no espelho, o sangue escorrendo, a dor, o pânico, os dentes quebrados, o medo e a vergonha de que os outros me vissem assim.

            O antibiótico fez efeito, mas era preciso tomá-lo acho que de oito em oito horas. A viagem era longa (umas 18 horas ou mais), e teve uma hora que eu dormi. Não é que algum tempo depois, de repente, me cai bem na cabeça uma destas garrafas enormes que as pessoas usam para colocar água ou suco, sei lá?  A dor foi lancinante, fisgou lá bem fundo.

            As pessoas, é claro, riam e riam, sem ao menos saber da dor que eu sentia. A mulher, a dona da garrafa, se desculpou, mas acho que nem dei bola. Tomei logo um comprimido, mas a dor demorou a passar. Sei que a viagem toda eu não consegui dormir mais, com medo de que alguma outra tragédia acontecesse. Imagina se  aquela garrafa enorme caísse de novo na minha cabeça?

            No mais, cheguei à última cidadezinha antes do sítio, depois o caminho ficava pior e a maior parte do trajeto era de estrada de terra. A chuva começou, foi ficando cada vez mais forte. Tomei o ônibus, desci onde tinha que descer e andei os cerca de 4 a 5 quilômetros até meu destino, em baixo de chuva e em cima de barro.

            O tempo que passei no sítio foi bom e fiz o que sempre costumava fazer desde a minha infância, brinquei como uma criança na água, caminhei pelas plantações, comi pêssego e melancia, vi os vaga-lumes à noite, a barulhada dos bichos, dos sapos coaxando etc.

            É triste recordar um período assim tão livre, e mais triste eu vou ficando quando eu me lembro do dia.

            Meus tios e primos não estavam em casa, voltei depois de uma visita a outro tio meu que morava perto. Não me lembrei de nada, só fui abrindo a porta da cozinha que não estava trancada, é claro. No sítio, as pessoas não costumam trancar as portas, pelo menos não costumavam, acho.

            Só fui abrindo a porta da cozinha, e nisto saíram os três pintinhos. Por descuido, por um susto repentino, acabei pisando num deles. Ele ficou estirado no chão, o coitadinho, as vísceras para fora, que dor, meu deus!

            Comecei a chorar desesperadamente, não sabia o que fazer. Ele piava doído, depois abafado, depois mais alto. Que dor, meu deus! Num primeiro momento, pensei que podia salvá-lo, enrolei-o num pano, mas não conseguia nem olhar direito para ele. Quanto enfim olhei, vi que o destino dele era a morte.

            Mas que morte seria? Eu ia conseguir matá-lo? Pisaria nele até que morresse? Daria uma paulada nele? O tempo passava, e eu não conseguia fazer nada. O piado diminuía, quase acabava, aumentava de novo forte, longo. Os outros irmãos dele continuavam correndo de lá para cá como se nada tivesse acontecido, como se eles não ouvissem aqueles gemidos.

            Neste dia, sem saber, compreendi o que é a agonia. Esta luta entre a vida e a morte. Não aguentando mais a situação, corri para longe da casa, fui até uma bica que ficava em frente, logo depois um terreno alagadiço, com taboais, entrei nele e fui andando e enfiando meu pé na lama.

            E como o piado ia diminuindo, resolvi, em vez de enterrá-lo na lama, que seria tarefa difícil para carrasco aprendiz, resolvi jogá-lo no ar como se ele voasse o último voo da morte. Voltei, lavei meus pés, minha cara, as mãos, o corpo todo na água da bica. Água que corre pura e que nos limpa.

            Depois busquei saber onde estavam os outros pintinhos e prendi-os. Sentei enfim, fora da casa, fora de mim e chorei grosso, fundo, interminável. Solucei bem alto. Mas mesmo assim, ao longe, ainda escutava alguns piados baixos que uma hora se acabaram.

            Dei graças a deus. E agora penso: que destino o dos seres da Terra. Estes pintinhos foram salvos da morte pela minha prima Tânia, pois eles ficaram sem mãe, e ela, muito da maternal, começou a cuidar deles.

            Ainda havia outro problema: como contar a Tânia que eu tinha matado um dos seus queridos pintinhos? Contei logo depois que ela chegou e notou a falta de um deles; eu poderia inventar uma mentira, mas não tinha cabeça para isto. Ela se entristeceu, ralhou comigo, e de certo viu em mim um inimigo mais perigoso que uma raposa. É claro que eu tinha culpa.

            Acabo de contar esta estória porque fui para a casa de meus pais neste final de semana, de licença concedida pelos médicos. Minha prima, que hoje mora em Mato Grosso, estava lá. Não é que ela veio me dizer do pintinho, afirmando que eu nem devia mais me lembrar dele? Há certas coisas, Tânia, que mesmo que a gente queira, ficam grudadas na nossa lembrança e são mais reais do que muitas outras do nosso presente.

            Da minha primeira viagem sozinho ficou muito pouca coisa. Certa vontade de ganhar o mundo, pois afinal de contas me sentia grande, responsável, confiante.

            Ainda sei o gosto de um pêssego apanhado no pé, da amora, da água fria daqueles córregos, da bica. Água minando da mina e tomando tudo.

            Ainda sei o som do porco, da vaca, das galinhas d’angola e das maritacas. Os grilos, os sapos, o vaga-lume no escuro.

            Ainda sei, mais que tudo, antes de tudo, um piado fundo, sem volta, colado aos meus dedos.

*

Imagem por Gelson Radaelli

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* Mestre em literatura pela UNICAMP, doutor em literatura pela UFSC e pós-doutor em literatura pela UNICAMP. É escritor e poeta. Mora em Dublin, Irlanda.

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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