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DO AMOR QUE (AINDA) HÁ, QUANDO NÃO HÁ AMOR

Patativa Moog*

William Mortensen 1 (1)

Ninguém escapa do amour de soi (amor a si mesmo)1, mesmo quando pensa, de modo negativo, contra as afecções dos sentidos, não haver mais amor nenhum; ou, de modo positivo, quando supõe o altruísmo absoluto, em favor do outro – contra o si-mesmo, como a combater o egoísmo, o amor exagerado aos próprios interesses a despeito dos de outrem.

amour de soi aparece principalmente no sentimento de “amor romântico”, seu melhor e mais mundano disfarce. Está no ágape cristão, no discurso sobre o transcendente, perdido em conceitos metafísicos e delírios teológicos – vide Teresa de Lisieux, sua breve vida, sua dramática paixão. Seja como for, o “celestial” do amor, nesses discursos, seculares ou religiosos, não costumam ir além de uma liberdade poética. De modo resumido, em uma sentença lógica:

(Amour de soi → (Eros ∧ ágape)) ↔ (Vontade)

No fim, em tudo, por tudo, sobre tudo, a Vontade.

Para subordiná-la à nossa conveniência psicológico-cultural, arranjamos novos conceitos, nada lógicos, nada fundamentados. Se o amor romântico “é um cão dos diabos!”, máxima-mínima que Bukowski usa como título de um livro seu2, é que ele supõe os efeitos da doença3. O contágio, coisa químico-biológica, aparece inicialmente na sugestão – que pode aparecer nas horas mais inesperadas; inclusive enquanto dormimos.

Aquela garota a quem você não dava a menor atenção aparece em seus sonhos, assim, do nada, fantasiada de estrelas, mar e mistérios, paraíso oferecido… aureolada de idílicas delícias secretas que pedem por descobrimentos, desdobramentos consentes. Desperto e sem sequer perceber, você ainda está sonhando com ela, dizendo o seu nome baixinho, no pensamento, sussurrando-o entre os lábios. As imagens, oníricas, agora são flash-backs atordoantes, estranhamente bons. Você nem nota, está sorrindo, sozinho e se sentindo estranhamente sozinho. Você que não estava “nem aí” para ela, sente saudades do que não teve, que não viveu: a moça ou o moço que veio morar em seus sonhos, em sua fantasia romântica, seu desejo, sua vontade. Você deseja vê-la/vê-lo… Você deseja e desejo, Sócrates dizia, repetindo Diotima, “é falta, e falta é sofrimento”4 – a palavra latina, aportuguesada, para passio, “paixão”. Desgraça! Você está apaixonado! E de onde foi que essa loucura nasceu? De uma simples sugestão, suggesta.

Os Padres gregos, com fina observação psicológica, tratam sobre o nascimento das paixões, convencidos de que a malícia não é própria da verdadeira natureza humana, mas lhes chega “de fora”, dos maus pensamentos (logismós). Conforme Orígenes de Alexandria (c. 185-254): “A fonte e o princípio de todo pecado são os maus pensamentos.5” Primeiro vem a sugestão (prosbolé), a imagem do objeto; depois o syndiasmós, que é uma “conversação” com a prosbolé, sem decisão; em seguida vem a synkatáthesis, o consentimento à prosbolé, que, seguida da palé (a luta interior), é o último esforço moral para resistir à vontade, à vontade maliciosa – segundo o santo doutor. Santo Agostinho (354-430) fala sobre três graus que seguem a sugestão, ela sendo o primeiro: suggestiodelectatioconsensus. “Três coisas constituem o pecado: a sugestão, o deleite e o consentimento. A sugestão vem pela memória ou pelos sentidos do corpo; pelo que vemos, ouvimos, sentimos, degustamos ou tocamos. A sugestão nos traz deleite a ser experimentado. Caso esse deleite seja ilícito, deve ser reprimido. […] a sugestão vem tal uma serpente, isso é, insinua-se lasciva e rápida, semelhante às imagens que se formam dentro de nós. Elas têm sempre como princípios, objetos exteriores.”6

A suggesta, embora seja o nível mais baixo da tentação, pode ser o começo da queda. No artigo On being morally responsible in a dream (1999), Ishtiyaque Hagi, com base no Livro X das Confessiones, entre outros textos, faz um estudo detalhado sobre o caminho que começa na suggestio (como no caso dos sonhos), coisa que pode induzir o cristão, através de um falso delectatio, ao consensus.7

E é assim que, na tradição da Igreja, Eros vai sendo combatido, em função do Ágape… Mas Eros age de modos vários e misteriosos – porque o homem, mesmo o cristão, ainda é somente homem –, e quase sempre de modo irônico, inesperado.

O (seu) Amor pode estar, mais que na tranquilidade da planície e no cício suave dos ventos que acariciam trigais, na fúria das ondas que despedaçam a penha, e nos espasmos dos trovões que estremecem o mundo, ou na violência dos raios que iluminam o breu das noites… quando na presença físico-material do seu alvo. Sim, demônio que é, e sem corpo, precisa de um corpo em que possa habitar. Nem os deuses estão a salvo. “Eros [é] o mais belo dos deuses imortais, que afrouxa os membros, e vindo ao coração de todo ser, homem ou deus, domina a razão e o discreto conselho”, Hesíodo afirma8. Mas, aí daqueles que amam, permitindo-se ao Amor. É que Eros, realizando-se, abandona a casa à sua própria sorte, parte em busca de novas habitações – é o discurso contundente de Diotima, repetido por Sócrates, n’O banquete.9

E é assim que a garota dos seus sonhos pode ser, também – se você não estiver vacinado com a parábola do Pequeno Príncipe e sua Rosa –, a garota dos seus pesadelos. Como não? Um exemplo literário, que estampa o cotidiano dos casais românticos. Marjorie, outrora tão linda e desejada, é a mulher de Walter10. Ela, antes tão tudo, é, agora, objeto das suas mais tristes tristezas.

– Não vais voltar tarde? – Havia ansiedade na voz de Marjorie Carling, qualquer coisa que parecia uma súplica.

– Não, eu não voltarei tarde – respondeu Walter, com a certeza infeliz e criminosa de que não estava dizendo a verdade. A voz dela o aborrecia. Era um pouco arrastada, tinha um refinamento excessivo, mesmo na dor.

– Não passes da meia-noite.

Marjorie podia ter-lhe lembrado o tempo em que nunca saía à noite sem ela. Podia ter feito isso; mas não queria; era contra os seus princípios; não pretendia forçar de nenhum modo o amor de Walter.11

Pobre Walter! Pobre Marjorie!

Amor realizado é amor perdido, amordaçado; e a mordaça mata o sentido daquilo que, em sua antropomorfia, é dotado de grandes asas – leia o livrinho A Menina e o Pássaro Encantado, de Rubem Alves12. Noutro livro, de Rosa Montero, Paixões, a autora fala sobre Wilde, Oscar Wilde: “Segundo todos os testemunhos, no começo de seu casamento [com Constance Lloyd], Wilde [então com 29 anos] estava muito apaixonado. Devia sentir-se feliz ao se imaginar curado de sua homossexualidade: a vida era muito mais confortável na ortodoxia. Em seguida teve dois filhos com Constance; Wilde os adorava e escreveu lidos contos de fadas para eles. Mas a mulher-mãe se transformou para ele num objeto sexual impossível de suportar: ‘Quando casei, minha esposa era moça bonita, branca e esbelta como um lírio. (…) Depois de um ano, havia se transformado em uma coisa pesada, informe e disforme (…) com seu espantoso corpo inchado e doente por culpa de nosso ato de amor.’ De alguma forma, conseguiu que Constance aceitasse pôr fim às relações sexuais […]. No entanto, sempre se tratavam bem; continuaram morando juntos e gostavam um do outro. Pouco depois, Robert Ross, um garoto de 17 anos e já experiente nesses assuntos, seduziu o cândido Wilde, e o levou para a cama.”13

O resto da história amorosa de Wilde com Robert, como é do conhecimento dos seus leitores, é desastre sobre desastre; e a única vítima é o próprio Wilde: enganado, traído, usado, preso, doente, esquecido e… apaixonado.

A realização de um grande amor é a melhor de todas as coisas, e a pior. Lembremo-nos de Shaw: “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.14” Quando o sonho vira realidade, deixa de ser sonho, é coisa concreta, longe da fantasia… que é o alimento dos sonhos, da vontade do objeto que falta, e do amor romântico-ideal.  Sim, Eros se alimenta de sonhos, e das vontades que o sonho traz; e aí daquele que tem sonhos muito altos… como Ícaro, o enlouquecido Ícaro com as suas asas de penas grudadas em cera. Pode haver coisa mais certa? Pode haver coisa mais triste?

Lição de Diotima a Sócrates: o amor é vontade de amar, e somente há enquanto é falta. Mas o amor romântico, ideal, sonha com a eternidade do seu prazer15. É, também, desejo, e fé, e falta. Não há amores, embora os níveis distintos; o que há são as maneiras de descrever essa mesmíssima falta: sua expectativa ou sua realização, e a nossa frustração, por um ou outro viés.

Não há saída contra o Amor, contra a Vontade. É a primeira constatação de Buda, tratando sobre a condição humana, e ensinando a primeira das suas quatro Verdades Santas: “Eis, ó monges, a Verdade Santa acerca da dor: o nascimento é dor, a velhice é dor, a doença é dor, a morte é dor, a união com aquilo de que não gostamos é dor, não lograr um desejo é dor…16” Evitar a dor, é impossível. Evitar o Amor, muito mais. Não há saída.

1 Aqui, correspondendo ao grego stergein, “amor próprio”, que, em francês, é amour-prope (amor próprio), simplesmente. Conceitos que, à doctrina christiana, representam vícios da vontade, contra ágape, o amor perfeito.

2  BUKOWSKI, Charles. O amor é um cão dos diabos. Porto Alegre: L&PM, 2007.

3 É Ovídio (43 a.C.-c.17/8 d.C.) que, depois de Erixímaco (cf. Ban., 186 d), fala do amor como sendo uma “doença”, e fazendo propagando da sua “cura”, no livro que é uma espécie de “germe nobre” da autoajuda: Os remédios para o amor. “O Amor, ao ler o título e o nome deste pequenino livro, disse: ‘É a guerra, estou vendo a guerra que estão preparando contra mim’. Pare, Cupido, de condenar seu poeta como um criminoso, eu que, tantas vezes, sob o seu comando, carreguei o estandarte que você me confiou.” Diz no prefácio, e completa: “Venham às minhas aulas, jovens enganados, que no amor só encontraram decepções. A mesma mão lhes trará a ferida e o remédio.” (OVÍDEO. Os remédios para o amor. In: A arte de amar. Porto Alegre: L&PM, 2001. [Col. L&PM Pocket, 248]). Como em Erixímaco, o amor, para Ovídeo, é uma doença.

4 Ban., 200 e.

5 ORÍGENES, Comm. in Mt., 21: GCS 40, 58.

6 De serm. Dom., I, 12,34.

7 O “erro moral”, no caso, correspondendo ao “pecado”. Cf. HAGI, Ishtiyaque. On being morally responsible in a dream. In: MATTHEWS, Gareth B. (Ed.). The augustinian tradition. Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press, 1999. p. 166-82.

8 HESÍODO, Teogonia 116 ss. HESÍODOTeogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991. p. 111. (Col. Biblioteca Pólen).

9 “Muita tolice seria não considerar uma só e a mesma beleza em todos os corpos; e depois de entender isso, deve ele fazer-se amante de todos os belos corpos e largar esse amor violento de um só, após desprezá-lo e considerá-lo mesquinho…” (Ban., 210 b). Tommaso Campanella, em sua A Cidade do Sol, de 1602, inspirado na obra de Platão, procura excluir da sua cidade ideal a “ideia de família”, e do sentimento de pertence – do marido à sua mulher, ou aos seus filhos –, julgando que tal sentimento, mesquinho, é um desserviço ao progresso e à felicidade dos solares, da cidade perfeita. Tudo é de todos (incluindo as mulheres), e todos são por todos – subscrevendo o que, aí, através de Sócrates, Diotima diz em respeito à geração dos mais belos (de melhor saúde) à geração dos mais belos, etc. O amor realizado, isto é: gerado o filho, parte do seu objeto em direção a outro (conforme certos regulamentos que Campanella anota em sua descrição das relações sexuais entre os solares), se o apego a um indivíduo, por amor ao todo. O sacrifício do desapego é dom da virtude, do homem virtuoso, da mulher virtuosa. Cf. CAMPANELLA, Tommaso. A Cidade do Sol. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).

10 Personagens de Point counter point (1928), de Aldous Huxley (1894-1963).

11 HUXLEY, Aldous. Contraponto. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 7. (Col. Grandes Sucessos). A novela Contraponto é “uma descrição crua da vida de vários casais que se amam, mas não conseguem demonstrar o seu amor; que se detestam, mas não têm coragem de exprimir seu ódio; que não se suportam, mas não ousam abandonar o comodismo e a rotina da existência que levam ao lado daquele – ou daquela – que um dia escolheram.” (Da contracapa).

12 ALVES, Rubem. A Menina e o Pássaro Encantado. 16. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999. Ou então veja o vídeo. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=YV3M9YvmwNc&gt;. Acesso em 14 jan. 2016. Há versões on-line do conto. Disponível em: <https://contadoresdestorias.wordpress.com/2008/01/07/a-menina-e-o-passaro-encantado-ruben-alves/&gt;. Acesso em: 14 jan. 2016.

13 MONTERO, Rosa. Oscar Wilde e Lorde Alfred Douglas: dançando descalço no sangue. In: _____. Paixões: amores e desamores que mudaram a história. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009. p. 57-58.

14 George Bernard Shaw (1856-1950), citado em: COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 36.

15Pois quer todo o prazer – eternidade!” (NIETZSCHE, Friedrich. O canto ébrio. In: _____. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 324 [§ 11]).

16 BUDA, citado em: ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 41-1. (Col. Saber).

Imagem por William Mortensen  (1897-1965)

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* Patativa Moog é escritor. Doutor em Teologia pela PUC-RS e doutorando em filosofia pela UFPB.

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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Um pensamento em “Ensaio {amor}

  1. LIndo texto Patativa Moog, você consegue falar de um assunto complexo de uma maneira clara, sucinta e gostosa de ler. Parabéns. Que venham outros textos teus para eu ler. Grande abraço. Edson Costa Duarte.

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