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Lula e Chico

CHICO BUARQUE E LULA EM DOIS TONS

Jomar Ricardo Silva*

Chico Buarque na canção “Com açúcar, com afeto”, uma música feita a pedido para Nara Leão, revela as relações amorosas configuradas em duas personagens, um operário e sua mulher, em que as queixas são expressas na voz da narradora feminina.

Seria de bom alvitre dizer que um texto, uma música estão abertos às interpretações múltiplas. Os sentidos que lhes são atribuídos obedecem ao conjunto de experiências que o leitor/ouvinte adquire através de vivências em formas de dores, alegrias e sofrimentos. Podemos conhecer as motivações que levaram a construção de um poema, mas elas pertencem apenas ao autor, enquanto o direito do leitor reside no fato de sugerir outros significados, a partir de inesperadas impressões.

O autor da música fala de um lugar social que não é o seu próprio, pois pertence a um grupo de estratificação de classe média, porém expressa os valores de setores subalternos. Em sua sensibilidade consegue estabelecer uma empatia com setores marginalizados a tal ponto de revelar as condições de vida do povo, concebendo os dilemas cotidianos com lirismo. Essa incursão artística possibilita uma percepção do modo de vida daqueles que constitui a maior parcela dos brasileiros, os trabalhadores, no aspecto que viria a ser, a partir da década de 1980, a temática a reunir na historiografia as categorias de classe social e gênero.

 Os trabalhadores possuem condutas que foram forjadas ao longo do processo histórico, trazendo não só as vicissitudes do período em que passaram a se constituir mão de obra-livre, mas também costumes incrustados no inconsciente que remontam à época da escravidão, a exemplo do patriarcalismo, entendido como a organização familiar em que a vontade do homem sobressai à da mulher. Desse modo, a letra da música aponta para relações assimétricas entre o chefe da família e a dona de casa. Sair de casa “em busca de um salário” para sustentar a família pode ser uma justificativa baseada na necessidade, porque ele apresenta-se como o único provedor da família enquanto ela se responsabiliza das tarefas domésticas.

Podemos afirmar que Chico Buarque ao tematizar essas categorias, o faz sob a perspectiva do que poderíamos chamar do conceito sociológico de “compreensão”. Esta permite a emissão de um ponto de vista, ao colocar-se no lugar do outro, o operário, referenciado em sua realidade e representado na aventura protagonizada pelas personagens, a partir de situações comuns compartilhadas pelos homens e mulheres assalariados, emergidas na criação do poeta, transmitidas pela canção e interpretadas pelos ouvintes. A inter-relação proporcionada na veiculação de mensagens intenciona uma comoção através dos apelos a faculdade de gosto de quem as recebe, provocando sensibilização e conhecimento.

A canção assim cumpre o papel de socializar, por meio da estética de um segmento social, para um público mais amplo, que, em virtude disso, permite-se a apreensão do estilo de vida, no modo de sentir e fazer um rendilhado de emoções, conjugadas pelas diferenças. Desse modo, a música em referência não concebe o real do casamento proletário, mas retrata apenas a recriação pelo compositor do viver a dois e em família a respeito dessa relação.

Por outro lado, a música de Chico remonta a um período crítico da sociedade brasileira. Mais especificamente a repressão imposta pela ditadura civil militar. Nesse contexto, como todo período de exceção, exacerbaram-se os preconceitos de classe e recrudesceu a intolerância em relação às pessoas de baixa renda, identificadas pelo local de moradia, pertencimento étnico, modo de vestir-se.

Um relato trazido no livro de Eder Sader, “Quando novos personagens entraram em cena”, exemplifica a realidade enfrentada pelo trabalhador naquele período. Você diz que é operário / Sai em busca do salário / Pra poder me sustentar, qual o quê. Quando tinha emprego, o operário não tinha direito de reivindicar melhores condições de salário, pois havia a ameaça: “Quando a gente fez greve lá da hora extra, a primeira coisa que o gerente falou foi isso: ‘vou mandar o DOPS vir até aqui’”, dizia um trabalhador industrial.

No momento em que ele estava desempregado enfrentava outro problema: “Nos dias de hoje está desempregado significa correr perigo, pois se somos presos a polícia nos registra como marginais, vagabundos. A carteira registrada é sinal de boa conduta para a polícia”. A repressão atuava na esfera da produção, onde o trabalhador esfalfava-se para conseguir seus meios de sobrevivência, inibindo as ações que os levassem a qualquer tipo de emancipação através da organização sindical. Na fábrica estava sob a constantemente vigilância do encarregado.

Enquanto isso, na esfera da reprodução, o controle estava no âmbito da família. Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto / Pra você parar em casa, qual o quê. P. Torres, integrante da Ação Popular, afirma que ao pleitear um emprego, o candidato preenchia um formulário com informações sobre suas aptidões profissionais e familiares.

O barzinho, espaço de liberdade, onde se encontravam amigos, teciam-se confidências e contavam-se aventuras eivadas de fantasias, era um ponto de confluência dos que saem do trabalho massacrados pela alienação.  É também lugar procurado pelos desempregados, humilhados por não conseguirem prover os filhos e a mulher das necessidades básicas, “e alguns preferem ficar gastando os últimos cruzeiros em bares do que voltar para casa e sofrer a pressão da família”. Há um bar em cada esquina / pra você comemorar, sei lá o quê / Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto / Discutindo futebol.

E por falar em futebol, no final da década de 1970, os trabalhadores foram capazes de encher um estádio de futebol, em razão de uma greve por aumento salarial. Luís Inácio da Silva, presidente do sindicato dos metalúrgicos que recebera intervenção, assim se referia à organização dos operários: “conseguimos dar uma demonstração de que não somente futebol consegue trazer gente para um estádio, que não é só futebol que dá público”.

Embrincam-se nesta textura a ficção e a realidade, a arte e a política, o cantor popular e o trabalhador. Ambos, em condições diferentes, atribuindo sentidos à vida. Chico Buarque recriando a realidade em forma de poesia, o operário organizando-se  para recriar a vida. Cada qual à sua maneira, negando o que a construção da sociedade lhes impusera.

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* Professor do departamento de Filosofia e Ciências Sociais da UEPB.

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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