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UM PRELÚDIO À ALEGRIA EM NIETZCHE E ROSSET

Lindoaldo Campos*

                                                           E que eu não esqueça,

                                                            nessa minha fina luta travada,

                                                      que o mais difícil de se entender

 é a alegria.

(Clarice Lispector,

A descoberta do mundo)

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Assiste-se, hoje, a um paradoxo tão excêntrico quanto inquietante: enquanto há uma procura desesperada pela felicidade, o tema da alegria encontra-se ausente da filosofia[1].

Excêntrico porque, no âmbito da assim denominada modernidade, no mais das vezes a busca da felicidade expressa um projeto pessoal vincado por uma ferocidade cada vez mais autoagressiva. Daí o desespero, a significar uma sofreguidão lancinante.

Inquietante porque se é certo que a felicidade consiste em um tema assaz prestigiado na investigação filosófica[2], diametralmente oposta é a situação da alegria, malgrado esta tenha servido, “mais de que qualquer outro tema concernente às emoções – mais ainda do que o amor –, como uma articulação entre as emoções e a ética”[3]. Daí “encontrar-se ausente” da filosofia, a indicar uma presença quiçá indesejada, todavia ineludível.

Hoje, finalmente, porque é em nossa sociedade civilizada e produtiva que cada vez mais se faz visível uma desconfiança em relação à alegria, dantanho denunciada por Nietzsche:

Lazer e ócio. – Viver continuamente à caça de ganhos obriga a despender o espírito até a exaustão, sempre fingindo, fraudando, antecipando-se aos outros: a autêntica virtude, agora, é fazer algo em menos tempo que os demais. (…) Se ainda há prazer com a sociedade e as artes, é o prazer que arranjam para si os escravos exaustos de trabalho. Que lástima essa modesta ‘alegria’ de nossa gente culta ou inculta! Que lástima essa desconfiança crescente de toda alegria! Cada vez mais o trabalho tem a seu lado a boa consciência: a inclinação à alegria já chama a si mesma ‘necessidade de descanso’ e começa a ter vergonha de si. ‘Fazemos isso por nossa saúde’ – é o que dizem as pessoas quando são flagradas numa excursão ao campo. Sim, logo poderíamos chegar ao ponto de não mais ceder ao pendor à vita contemplativa (ou seja, a passeios com pensamentos e amigos) sem autodesprezo e má consciência.

E daí porque, se se faz necessário e premente refletir sobre as questões vinculadas à alegria, vale “pegar na deixa” das reflexões de Friedrich Nietzsche e Clément Rosset, tendo em mira, quanto àquele, que “o sonho antidialético e antirreligioso que perpassa toda a sua filosofia é uma lógica da pura afirmação e uma ética da alegria que lhe corresponde”[4] e, quanto a este, que compreende a alegria como “a questão mais séria que a filosofia teve que conhecer”[5].

Nietzsche e Rosset compreendem que, ao concebê-la como “felicidade” posta como ideal inalcançável, a filosofia dogmática moraliza a alegria e a despoja de sua força. assim é que, na contramão dessa perspectiva, inserem-na no cerne de suas reflexões, com o propósito de iluminar as principais questões (a) que seus pensamentos (nos) expõe(m), a exemplo do trágico e da criação de si. Nesta senda, propõem uma perspectiva em que a alegria é compreendida como elemento fulcral de um projeto de transvaloração dos valores, deixando de apontar para uma instância ultramundana para voltar-se à vida, à terra, ao trágico, ao homem.

É assim, pois, que estes filósofos rompem com a tradição filosófica ao relacionar a alegria e o trágico para concebê-lo como positividade vinculada ao sentimento de leveza que arrima a atividade do filósofo-artista que diz sim à vida em sua totalidade. Em sua perspectiva, para além das oposições de valores, a alegria e o sofrimento são então concebidos como elementos que não se excluem, antes se complementam como fundamentos de uma ciência gaia(ta), de que são expressões maiores o riso (exterminador e criador) e a amizade, locus éticos em que se descobre um impulso referível à vontade de potência, à vontade de viver, à própria vida. A alegria confunde-se, então, pura e não-simplesmente, com a ordinária-extraordinária e irrefletida alegria de viver.

Índice de uma sabedoria trágica que remete à experiência de uma incondicional fidelidade ao real (expressa nas fórmulas nietzscheana do amor fati e rosseteana da aprovação irrestrita da existência), a alegria é, por fim, entrevista como impulso vital, a força plástica que incita à sempiterna (embora nem sempre terna) criação artística de si.

E, por falar em arte, vale um adendo: existem várias maneiras de aproximar-se de Nietzsche e Rosset. Todavia, é possível e preferível compreender seu pensamento como “expressões circunscritas que têm o valor de fragmentos melódicos e harmônicos de uma música desconhecida”[6]. Sua opera deve, pois, ser escutada como uma sinfonia, em que – no presente caso – a alegria pode ser surpreendida como um tema musical condutor de seus pensamentos – donde vale a referência à Nona Sinfonia (in D minor, op. 125), de Ludwig van Beethoven, cujo último movimento se arrima na Ode à alegria, de Friedrich von Schiller:

Oh amigos, mudemos de tom!

Entoemos algo mais agradável

e cheio de alegria!

Alegria, mais belo fulgor divino,

filha de Elíseo,

Ébrios de fogo entramos

em teu santuário celeste!

Teus encantos unem novamente

o que o rigor da moda separou.[7]

No último movimento dessa orquestração, tem lugar o finale, advento-retorno de uma alegria aliada ao trágico, índice de uma sabedoria da imanência em seu sentido mais radical: de um pensamento intraterrestre. É o termo de um longo, demorado percurso de volta às coisas mais próximas, inclusive de si mesmo, em cuja vizinhança aprende-se a voejar e tornar leves mesmo os aspectos mais problemáticos da existência.

A alegria é concebida, então, como a força maior, o impulso primordial que torna possível à vontade libertar-se do julgo da culpa e da responsabilidade e, por fim, oferece-nos a plenitude da inocente criação artística de nós mesmos – e, portanto, de nosso mundo, nosso palco.

É lá, então, que Zaratustra desce sorrindo da montanha, enquanto, com máscaras de Dionísio, crianças entoam ditirambos em que se ouve: “Já houve instante melhor para estar alegre?”[8].

Essa é uma alegria desmedida, híbrica, e, no entanto – e por isso mesmo –, a que se pode dizer Sim.

Evoé!

Image: Fotografia por Pierre Verger. Fonte: Domínio Público.

NOTAS:

[1] A este respeito, é sintomático o título de uma obra de André Comte-Sponville: A felicidade, desesperadamente.

[2] “De fato, quem não deseja ser feliz?” (Platão, Eutidemo); “Todos os homens procuram ser felizes […], inclusive os que vão se enforcar.” (Pascal, Pensamentos); “Se o homem pode ser simultaneamente feliz e mortal: eis a grande questão que se põe.” (Santo Agostinho, A Cidade de Deus); “Há uma finalidade […] que todos os seres racionais perseguem […]: a felicidade.” (Kant, Fundamentação da metafísica dos costumes).

[3] Adam Potkay, A história da alegria, p. 10.

[4] Gilles Deleuze, Nietzsche e a filosofia, p. 29.

[5] Clément Rosset, Alegria: a força maior, p. 24.

[6] Giorgio Colli, Lo que dijo Nietzsche, p. 5.

[7] Trechos do libreto da coletânea Ludwig van Beethoven, 9 Symphonien, por Herbert von Karajan – Berliner Philharmoniker. Tradução livre.

[8] Nietzsche, A gaia ciência, 383.

 

* Escritor. Autor do ABC da Poesia e da Coleção Filosofia em Cordel.

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Revista Philipeia

CRÍTICA + INFORMAÇÃO + ARTE

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ISSN: 2318-3101

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