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OS DESENHOS DE “OS INIMIGOS”,  DE GIL VICENTE, 10 ANOS DEPOIS

Valquiria Farias*

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Dez anos se passaram desde que escrevi O Energúmeno, texto para uma das séries de desenhos de conteúdo político que o artista pernambucano Gil Vicente me convidou a construir. Os desenhos, autorretratos de Gil, segundo alguns especialistas, são vistos como uma das séries em papel mais polêmicas até então surgidas na história recente da arte brasileira. Contudo, continuam sendo, no meu entender, autorretratos de apelo não panfletário, não caricato, do ponto de vista da Política escrita com “P” maiúsculo. A escritura do texto foi um desafio dos mais dolorosos que enfrentei… E para mim escrever é sempre isto: um desafio crítico, no sentido pleno da palavra.

O tema desse importante encontro: Arte Visuais em Pernambuco, promovido pelo Instituto Raul Córdula, com o apoio da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e da Caixa Cultural, reflete um momento propício para se discutirem novamente esses desenhos incríveis nos quais o artista Gil Vicente se desenha como um ativista de si mesmo, indignado e pronto a exterminar todo o mal que, para ele, representa o sistema político, social e econômico do mundo. Nos desenhos, Gil é a figura que “aciona” cenas violentas de morte de personalidades atuantes no mundo político globalizado.

É também um momento oportuno, dada a crise atual que atravessa o sistema político-econômico brasileiro, que avança em meio a toda sorte de mobilizações e protestos ganhando as ruas e que, sem sombra de dúvida, representa o retorno da luta política entre classes sociais no nosso país. A disputa pelo poder, na verdade, nunca deixou de existir, ela apenas mudou de lado e hoje se apresenta com uma força brutalmente conservadora. Em razão disso, estamos vivenciando todo um processo de esgotamento do modelo político implementado pelos governos de base social no Brasil, desde a primeira eleição do ex-presidente Lula. Parece que nem as conquistas sociais dos últimos anos são agora suficientes para dar sustentação e continuidade ao projeto do atual governo. O tema da corrupção se tornou emblemático e tomou conta do País, com escândalos envolvendo políticos, empresas públicas e privadas sendo veiculados 24 horas pelos meios de comunicação tradicionais, muitas vezes de forma seletiva, e pela Internet. As classes conservadoras parecem ter encontrado seu nicho para, enfim, retornar ao poder. Parece?

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Antes de continuar a leitura, gostaria de registrar meu agradecimento ao Raul Córdula, que, sem demora, me sugeriu esta pauta sobre os desenhos de Gil Vicente para apresentá-la e discuti-la com vocês.

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De um ponto de vista mais amplo, junte-se a todos esses problemas, claro, a crise econômica ocorrida em 2008, que afetou diretamente as potências mundiais — os Estados Unidos e os países europeus —, que resolveram reagir com grandes ações programadas de terror, violência e guerra para todos os lados e, assim, continuarem potências ocidentais economicamente.

Hoje, podemos assistir em tempo real, pela Internet, o resultado de toda essa desordem. Daí, então, basta uma pesquisa no Google para se ver o resultado de tanto terrorismo político e guerras sangrentas. Tudo pelo poderio econômico.

Cito aqui alguns exemplos: a crise financeira da Zona do Euro, desde 2010, com países como Portugal, Grécia, Espanha e Itália vivendo seus piores momentos de endividamento público e privado, com altas taxas de desemprego, problemas estruturais, baixa produção industrial e falta de alimentos; o fundamentalismo armado do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, e do Boko Haram, na Nigéria; o eterno conflito entre Israel e Palestina, que em 2014 provocou mais milhares de mortes na Faixa de Gaza, um verdadeiro genocídio comandado pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, com a interferência direta dos Estados Unidos e a omissão desmedida do Conselho de Segurança da ONU; a recente crise entre a Ucrânia e a Rússia, que está envolvendo a União Europeia e também os Estados Unidos, cuja intenção é desarticular estrategicamente o poder político e bélico do  Presidente russo Vladimir Putin naquela região; entre outros.

Relembrando que foi em 2008 que os Estados Unidos não puderam impedir o chamado estouro da bolha imobiliária, que abalou seu sistema financeiro, gerando ondas de impacto pelo mundo.

Na América Latina, países como Equador, Venezuela e Argentina têm sofrido constantes críticas e sanções do chamado imperialismo americano.

É possível que agora essa crise tenha se instalado no Brasil, segundo dizem alguns especialistas econômicos, o que compromete sobremaneira o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Isso explicaria as medidas de ajuste fiscal logo nos primeiros dias de seu governo.

Por outro lado, há quem afirme que a crise brasileira tem origem no próprio País, na medida em que o aumento das classes políticas conservadoras ocupando espaços de poder teve seu auge na última eleição. Tem-se, assim, uma crise política que cresce agora com grandes contingentes de pessoas, em sua maioria de classe média, saindo às ruas contra o governo, claramente pautadas por um discurso xenofóbico que pede volta da ditadura militar.

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Todos nós sabemos que o Recife, Pernambuco, se consolidou como um dos principais centros de arte contemporânea do País. As três últimas décadas foram cruciais para que isso pudesse ter acontecido. Sobretudo a partir de meados dos anos 1990, quando ocorreu todo um processo de reestruturação e revalorização do circuito cultural local e uma tentativa bem-sucedida de articulação com os centros culturais do sul do País, o que produziu debates acirrados sem que nenhuma forma de manifestação artística fosse desmerecida ou posta no canto. Para as artes visuais, o resultado foi o reconhecimento dos artistas pernambucanos — dentre eles o nosso querido Gil Vicente —, que passaram a ocupar espaços de relevância nos circuitos da arte nacional e internacional. Além de ter surgido uma inteligente produção crítica feita por profissionais comprometidos com a experiência estética, sem dúvida.

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Tive o privilégio de acompanhar de perto alguns passos do Gil Vicente na criação dos desenhos Inimigos. As conversas sobre política, as pesquisas na Internet, a preparação das cenas no seu ateliê, as fotografias e os estudos que iam sendo rabiscados no momento em que ele decidia qual “inimigo” iria “matar”. São experiências impossíveis de serem esquecidas.

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É interessante se fazer um breve percurso das exposições de “Inimigos”, os autorretratos de Gil Vicente matando Bush, Lula, Bento XVI, FHC, Eduardo Campos, Elizabeth II, Jarbas Vasconcelos, Fernando Henrique Cardoso, Kofi Annan, Ariel Sharon e Ahmadinejad, que primeiramente foram expostos ao público em 2005, aqui no Recife. O artista distribuiu a série pelos espaços da então recém-inaugurada Galeria Mariana Moura. E também espalhou cartazes pelas ruas do centro do Recife, para atrair a atenção dos passantes para a sua ação política e para a mostra.

Em seguida, os desenhos foram exibidos em outros centros culturais do País (na Casa da Ribeira, Natal; e no Atelier Subterrânea, Porto Alegre; e na Galeria Cilindro, Campina Grande, foram coladas reproduções para uma proposta de intervenção pública) até, finalmente, a série ser toda montada na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010, para a qual Gil Vicente produziu um novo desenho, que foi o autorretrato Matando Ahmadinejad, completando e encerrando assim o conjunto de dez desenhos. Com o título Há sempre um copo de mar para se navegar, a 29ª Bienal também tratou de afirmar o envolvimento direto da arte com a política, tendo à sua frente a experiente curadoria-geral do Moacir dos Anjos.

Era evidente que, em um evento de grande visibilidade como a Bienal de São Paulo, a simples exposição de Inimigos não passaria despercebida do público, desencadeando polêmicas. Houve repercussão a favor e contra, com a OAB de São Paulo polemizando ainda mais ao tentar impedir que os desenhos continuassem expostos durante o evento pelo fato de estarem supostamente fazendo apologia ao crime.

Por fim, tive a satisfação de agora saber que a série Inimigos foi contemplada com o Prêmio CNI Sesi Senai Marcantonio Vilaça de Artes Plásticas no ano passado, o que permitirá que os desenhos passem a compor o acervo do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, o Mamam, ficando aqui, bem perto de nós. É uma ótima notícia, pois sabia da intenção do Gil Vicente: de que o conjunto de autorretratos pertencesse a algum acervo público, de preferência; que não fossem adquiridos por colecionadores particulares apenas como meros desenhos isolados, porque, para Gil, isso iria de encontro ao que ele pretendia conceitualmente expressar quando resolveu produzi-los: ou seja, nada mais do que publicizar sua agonizante revolta com os desmandos do poder instituído.

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No meu texto, procurei de alguma maneira afirmar isso. Gil Vicente não é nenhum ser que se apresenta a favor da violência, tampouco a favor de sua pregação pelo mundo. O que quis o Gil, e acredito que ele tenha conseguido, foi através de sua arte “expurgar” e tornar pública toda sua revolta contra dez líderes, que, para ele, representavam uma ameaça à sua paz interior.

Do ponto de vista do sistema social ao qual pertence, sua ação crítica de matar o poder instituído, nos desenhos representado pelas figuras dos algozes, se torna ainda mais contundente. Com os autorretratos, Gil Vicente expõe, de uma maneira violenta mesmo, aguerrida, sua total descrença em quaisquer possibilidades de mudança das condições de sobrevivência dos indivíduos nas sociedades. É através dos traços duros e fortes a carvão, realisticamente riscados no papel, que ele expõe sua necessidade urgente de acabar com as diversas formas de governo no mundo, os sistemas políticos e econômicos de dominação, todas as formas de exploração do homem, das ideologias e crenças que os conduzem.

É como se Gil Vicente quisesse demonstrar, por meio da inversão do papel de vítima nas relações de dominação, o quão violentos são os modos de governar nas sociedades contemporâneas globalizadas.

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Cito o sentido da política em Hannah Arendt para dar vazão à complexidade que está expressa na relação violenta imposta pelas figuras da vítima e do algoz em Inimigos.

Para Arendt, o sentido da política se baseia na pluralidade e liberdade dos indivíduos vivendo em sociedade e em condições de igualdade (isonomia), sentindo-se livres, portanto, para comunicar e atuar nos seus diversos espaços de socialização.

Paradoxalmente, foi a partir dessa perspectiva arendtiana que pude, então, empreender uma linha de raciocínio a respeito dos desenhos de “Inimigos”. Isto é, com autorretratos, Gil Vicente não somente publiciza sua denúncia do “mal do mundo”, os poderes instituídos, como radicaliza seus atos em cenas de violência. O que se vê nos desenhos —entre as duas figuras, vítima e algoz— é, em si, uma espécie de força reativa que emerge como forma de defesa contra os sistemas de opressão combatidos por Gil.

Para a filósofa Arendt, há que se fazer uma importante distinção entre o que é poder e o que é violência nas sociedades, observando que a compreensão atual de equivalência entre essas categorias advém da ideia de formas tradicionais de governo como estruturas de domínio do homem sobre outro homem por meio de diversas formas violência. Sendo esse, portanto, o modelo de poder que vigora nas ditas sociedades modernas, sobretudo as capitalistas.

Com a série “Inimigos”, Gil Vicente nos traz à luz uma questão política importante nesses tempos de crise global: O que está por vir?

Vale lembrar que os autorretratos foram produzidos em 2005, à exceção de apenas um, portanto 3 anos antes de a crise americana acontecer e começar a repercutir no mundo. No Brasil, já estávamos em processo de abertura política, ascensão democrática e no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que dizia nos trazer um histórico de conquistas do lado oprimido e um novo projeto político para o País.

Encerro minha leitura com outra pergunta: hoje, em se tratando da realidade brasileira, houve de fato mudanças na forma de governar o País?

Imagem: Autorretrato Fernando Henrique Cardoso, 2005, carvão sobre papel, 200×150 cm. Da série “Os Inimigos” de Gil Vicente. Confira a série, bem como o texto “O energúmeno”, de Valquíria Farias, no seguinte site: http://www.gilvicente.com.br/inimigos.html

* Curadora e crítica de arte. Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte  (ABCA).

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