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FRUTUOSO E BARBATANA: O POETA E O FILÓSOFO

Aderaldo Luciano*

bitcho9blog

“Josué Frutuoso foi um artista plástico cuja experiência vale a pena ser contada. Cenógrafo, em meados da década de 70, no Rio de Janeiro, entregou-se à festa comemorativa do final da bem sucedida temporada da peça O Lupanar Sensorial, de Nikolai Krukinski, um pouco conhecido autor russo do final do séc. XVIII. Frutuoso criou toda a ambientação reproduzindo fielmente as rubricas do dramaturgo, bem como auxiliou na confecção do figurino e maquiagem. Era um expert em história russa da época. Os trajes pesados, os ambientes escuros, as lareiras, utensílios, móveis, detalhes, minúcias do texto foram desenhados com tanto esmero que quem assistiu à montagem impressionou-se ao ponto de esquecer o século XX e suas trevas.

“Recepcionado em uma festa, Frutuoso emocionou-se com os mimos. Recebido como um deus pois creditou-se a ele mais da metade do sucesso da companhia. Paparicado aqui, louvado acolá, saudado por desconhecidos, abraçado por desafetos. Homens e mulheres pareciam querer entregarem-se aos seus toques e línguas. Bebeu de ayahuasca a poção de amanita muscaria. Fumou uma erva curtida no mel de abelhas africanas, os narguilés se multiplicavam pelos ambientes. Frutuoso já não andava, levitava, deslizando entre as fumaças e cortinados. À meia-noite todos foram chamados para fora da casa, ao centro de uma ampla área onde um casal iniciaria uma performance sexual, sobre um praticável adornado com tapeçaria hindu e várias almofadas.

“A performance consistia em reproduzir 91 posições sexuais do Kama Sutra. O casal apresentava o espetáculo em várias casas particulares de ricaços e novos-ricos cariocas. Frutuoso preferiu assistir ao episódio da varanda do segundo andar, de dentro de uma estufa na qual eram cultivadas espécies raras de plantas tóxicas utilizadas para vastas sessões psicodélicas. Havia especialmente uma planta carnívora nativa das selvas da Costa Rica, espécime raro, com alguma mutação genética que a fez crescer uns dois metros. Os donos desenvolveram a experiência de alimentá-la com pequenos roedores, gatos e cachorros vira-latas encontrados vagando. Mas o cenógrafo não dedicou nenhuma atenção especial à planta rainha da estufa. Sequer sentiu o odor de carne putrefacta impregnado no ar viciado.

“Seu olhar estava vidrado no casal performer, sobretudo no pênis gigantesco do homem que dançava ao som do sitar e penetrava a parceira sem qualquer delicadeza, embora ela não traduzisse desconforto algum. Frutuoso desejou ser penetrado por aquele pedaço de mármore negro. Mordeu o lábio anestesiado abrindo uma pequena fenda de onde um quase invisível veio de sangue formou-se. Atingira um capilar, mas possuído pelo torpor nada sentia. O sangue continuou a jorrar como de uma seringa pressionada por dedos sutis. A camisa embebeu-se no leite rubro, morno e farto. Pingou pelos braços, caiu sobre a planta, estimulando suas terminações nervosas, se assim pudermos dizer. A ‘boca’ vegetal abriu-se, o hálito conturbado pelas vidas de centenas de pequenos organismos, não afetou a prostração de Frutuoso. Parece fantasia, mas foi assim…”

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“Manoel Barbatana recebeu esse nome na adolescência. Não por herança de um pai e um avô que fossem Barbatana. Aos setenta anos, ninguém, no povoado, conhecia a origem do apelido em segundo nome. Celibatário convicto, talvez nunca tenha se despido diante de qualquer ser humano depois de adulto. Talvez nem diante do espelho. Soube-se de fonte apócrifa a origem da alcunha. Narro: conta-se que, quando nasceu, protuberava-se de sua coluna vertebral, tomando da base da nuca até o cóccix, uma barbatana, como um marlin. Dura e áspera, provocara severos danos no canal vaginal de sua genitora. Ficou conhecido em sua localidade de nascimento como o menino-peixe. Cresceu como elemento de curiosidade e visitação. Vinham pessoas de longe para vê-lo, professores, pesquisadores. Na inocência da primeira infância, corria pelas ruas com a barbatana aberta e atirava-se aos açudes de água clara, como só existiam naquele tempo.

“A infância, sabemos por vivê-la, passa rápido como um asteroide perdido nos espaços. Na adolescência, a vida não lhe foi agradável. Sofria com a perseguição dos outros adolescentes da cidade. Cultivou a solidão. Em certo tempo, resolveu vestir-se com trajes como se fossem camisas-de-força, espartilhos que lhe escondessem a deformação. As dores provenientes dessas intervenções eram-lhe um martírio. A barbatana não nascia da pele, vinha pontiaguda desde os ossos, cada vértebra lançava à superfície um espinho com uma cartilagem entre eles. Aos vinte e poucos anos mudou-se com os pais para uma vila de pescadores situada no delta do Parnaíba. À noite, em lua nova, na escuridão das águas e no calor do trópico, Manoel mergulhava discretamente no mar e nadava quilômetros mar adentro, oceano afora. No mar, confundia-se com os peixes e outros animais marinhos. Além da barbatana, desenvolvera a capacidade do longo fôlego.

“Onde o bicho homem habita, a tragédia é iminente. No mês de julho de algum ano esquecido, pescadores desorientados, tempo nublado, lua negra, desviaram-se de sua rota habitual. Seguiam os cardumes sem desconfiar de que os cardumes seguiam Manoel, cujo fôlego o fazia permanecer submerso por 20 ou 30 minutos. E delirava nas acrobacias subaquáticas, acompanhado por milhares de sardinhas, albacoras, bagres, papas-terra, serras-comuns e outros mais miúdos. Na brincadeira, não notou a aproximação do barco. Em determinada hora viu-se preso às redes, sendo arrastado no meio dos peixes. A força deslocada de sua barbatana afiada rompeu o emaranhado da rede, enquanto já estava na superfície. A visão daquele homem nu com uma imensa barbatana nas costas, no breu adormecido da noite, sob uma fraca luz de lampião, assustou a tripulação. A presença de um animal estranho no mar do delta, tornou-se história de pescador.

“Nunca mais Manoel ousou afastar-se da praia. Continuava a nadar, mas não aventurava-se como havia se acostumado. Com a morte dos pais passou a viver isolado, evitando contatos com qualquer humano. Até que, de uma hora para outra, a barbatana iniciou um processo de deterioração. Talvez a idade tenha anunciado o seu caducar. Aos sessenta anos caíra por completo, mas deixou como herança a cicatriz mais hedionda. Com se tivesse sido aberta por uma alavanca, suas costas concluíram-se em outra aberração. Agora, Manoel frequentava a comunidade, tornara-se religioso, ia à missa, participava das festas santas e dos novenários. Na noite de São João, sob o crepitar da fogueira, crianças, jovens e adultos sentavam ao seu redor para ouvir as histórias do estranho animal marinho que ele mesmo vira nadando nas águas sombrias das ilhas caiçaras.”

Imagem: Desenho a quatro mãos por Márcia Tiburi e Fernando Chuí. Fonte: Livro “Diálogos e Desenho” – Tiburi e Chuí; 2010:155.

* Escritor. Doutor em Literatura.

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