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O ARREBATAMENTO MACIO DE TCHAIKÓVSKY

Ana Monique Moura*

tchaik

Ao arrebatamento ou ao arroubo costumamos atrelar aquilo que se liga aos sentidos, sensações e sentimentos. O que define o romantismo musical é sobremaneira a capacidade, ou tentativa, de provocar arrebatamentos ou arroubos estéticos. E isto faz parte da forma romântica, muito antes de sua matéria. Na estética romântica, é possível fazer referência, de maneira arrebatadora, a algo singelo ou simplório, por exemplo.  A ideia de que o expressionismo musical guarda a tese da defesa das sensações musicais, depende disto. É por isso que, no meu ver, se torna impossível pensar o expressionismo musical moderno de Schönberg, este arauto das sensações, sem recorrermos a Beethoven ou Litzt, em suma, sem recorrermos àqueles que inauguraram a preponderância do sentimental na música. E não só isso, toda a música orquestral vindoura depois do Romantismo bebeu desta estética de arrebatamento, com exceção, talvez, dos simbolismos musicais atestados, por exemplo, em Debussy ou Eric Satie. Mas até em Arvo Pärt, este minimalista, enxergamos algo de romântico.

Em termos mais poéticos, contudo jamais ilógicos, o Romantismo musical é o ato de arroubar o espírito adormecido, não para despertar, mas para conduzi-lo ao sonho gigante da razão… aquela frase de Goya de que o sono da razão provoca ou produz monstros é real aqui. A razão serve no Romantismo para servir ludicamente aos arroubos sentimentais da música. O sonho da razão é sua abertura aos sentidos. No onirismo, os sentidos não tem limites impostos por uma razão sóbria e acordada. Ninguém o demonstrou melhor que Tchaikóvski, no meu ver. Bastaria citar sua sinfonia número 1 em sol menor, intitulada por“Sonhos de um Dia de Inverno”.

Há quem diga que as primeiras sinfonias de Tchaikóvski são alegres ou nacionalistas. Discordo de tamanha definição generalizadora, embora deva reconhecer sua posição nacionalista. Mas enxergo, por exemplo, sua primeira sinfonia como profundamente intimista. Também citaria o terceiro movimento (scherzo) da sinfonia nº2, O Pequeno Russo. Este movimento, comparado com toda a sinfonia nº 6, a conhecida Patética, é muito mais profunda e, assim se propõe, arrebatadora. Digo isto, porque julgam a Patética a obra mais profunda e arrebatadora, talvez apenas porque o próprio Tchaikóvski tenha declarado que nela estava todo o seu espírito. Eu opto pelo caminho de destituir, em alguma medida, o autor da obra, mas para reconhecer apenas lá no fim como esta depende daquele.

Eu diria, porém, que a Patética completa corresponde ao seu próprio nome, é pathos (paixão) e éthos (ética). Diria, ética musical romântica, da mais rudimentar. Aqui Tchaikóvski, no meu ver, é convencional, e nos fornece também um arrebatamento romântico padrão e até mesmo didático. Mas, se ele declara por todo seu espírito nesta sinfonia, ao mesmo tempo declara, nas entrelinhas da partitura, que ser expressivo plenamente quanto ao seu espírito corresponde em arrebatar menos, já que, o arrebatamento dentro de certas gaiolas de expressão é, acreditem, muito mais perceptível, do que o arrebatamento sem gaiolas. O que quero dizer com isso? Na medida em que Tchaikóvski considera ser possível se expressar mais na Patética, se perde aí o peso do mistério nas demais sinfonias, encobertas também por aquilo que não se exprime. Aquilo que, do sentimento musical não foi inteiramente catalisado, porque contido, e se converte, depois, e estranhamente, em peso sonoro expressivo. Em Patética, o Tchaikóvski está desnudo. Nisto se vê muita maciez. O lugar confortável de se deixar ser. Ou, parafraseando Píndaro, sentir como é tornar-se aquilo que se é.

Ademais, acredito que falar em arrebatamento preserva, inclusive, um pouco do mistério que permeia toda experiência nomeadamente estética com a música. E aí entra a relação inquebrantável entre autor e obra, bem ao fim. Isto alcança a excelência romântica, embebida até nossos dias. O mistério de Tchaikóvski, no geral, contudo, é sempre suave, um veludo sonoro macio… cujo arrebatamento nos abraça feito um convite irrecusável. Não quero me referir com isso apenas aos seus clássicos balés (o que seria óbvio), mas também, ou, principalmente (retornando) à sua sinfonia nª 1 em sol menor – a qual sugiro que se escute tocada por Marta Argerich. Escutá-la sob os dedos arrebatadores de Argerich seria o desfecho ideal para concluir o que eu aqui sozinha, apenas com um mero texto, não conseguiria concluir.

Imagem: Pyotr Ilyich Tchaikovsky, St. Petersburg, Russia, 1887.Fonte: Domínio público. 

* Doutoranda em filosofia pela UFPB, com pesquisa doutoral concluída na Alemanha (HGB, Leipzig).

 

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