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SAYAT NOVA (1968): UM FILME QUE TUDO MOSTRA

 

Ana Monique Moura*

Eu sou um homem cuja alma e vida são tortura.

Sayat Nova

 

Direção: Sergei Parajanov

Direção de fotografia: Suren Shakhbazian

Direção de arte: Stepan Adranikian

Música: Trigan Mansurian

INFORMAÇÕES ADICIONAIS:

É subdividido nas partes: Jovem poeta. Amor do poeta; A freira com o laço branco; O anjo da ressurreição; Pantomima. (Sofiko Chiaureli); Poeta quando criança: M. Alekian. Poeta no monastério: V. Galstian; Poeta quando idoso: Gegechkori; Príncipe: Minasian.

Inevitável empreender uma compreensão para aquém ou além das imagens. O que persiste aqui são elas, que são poucas, em planos fixos, por outro lado. Este filme exibe-nos a tese clara tão dita de que “cinema é imagem”. Diria, por isso, que esta obra é obrigatória referência para se entender o sentido do cinema. Para além de um filme cujo enredo segue de um ponto de vista, mais que meramente linear, contudo literário, o filme é uma verdadeira verossimilhança com o que tomamos por obras de vídeo-arte. É um filme que (sobre)vive sem narrativa linear. Não porque o sentido esteja limitado às imagens truncadas, mas porque as imagens conseguem transpor a narrativa, tornam a narrativa um mero instrumento de guia descartável, embora declaradamente operante num “para além”. É por esse motivo que o filme não trata de uma trajetória de “vida” do poeta Sayat Nova. Contudo, é um retrato da sua existência enquanto subjetividade carregada de empirias simbológicas.

Para além das impactantes locações e detalhes que, insisto, beiram o barroquismo (e não dou pejoratividade a isso, como se deu em outras críticas), destaco atenções: 1. O peso do saudosismo no filme, num tom (também) quase romântico. 2. O silêncio dos personagens e as comunicações, quando existentes, reveladas de maneira se não inteiramente, quase musical. 3. O tema do desejo sexual é exibido da maneira mais suntuosa e/ou sutil, dentro de uma teatralidade clara, e é guiada imageticamente por ações munidas da culpa cristã. 4. O poeta é um personagem inevitavelmente melancólico. E esta melancolia marca a expressividade dos silêncios do filme.

Sim, este filme é  efetivado não apenas pelo imagético intrigante, mas pela ausência do som em muitos aspectos deste imagético. Esta ausência, ao contrário de afastar o elemento musical, é composição própria da atmosfera musical. Aqui a tese do dodecafonismo de Schöenberg pode ser associado livremente por nós à tela e, até mesmo, às atmosferas semelhantes à musicalidade minimalista e sacramental de Arvo Pärt. É marcante também a presença do início ao fim dos sinos.

Por curiosidade, para quem assiste a este filme com alguma experiência visual já tida em obras de Jodorovsk, percebe-se que, por assim dizer, “tudo sobre tudo já está exibido”. Esta é uma das sensações possíveis diante do filme de Sergei. A diferença fica clara de que Sergei consegue ser mais puro, límpido, embora os sangues e sacrifícios como parte do enredo. Talvez porque nos filmes de Jodorovsk haja um certo peso do sexual, ou mesmo porque haja mais euforia, mais pathos. Além disso, trata-se de um filme que é dramatúrgico em seu esqueleto visual.

Um filme que não é propriamente um filme, uma narração que parece nada narrar, talvez porque deixe tudo “mostrado”! Silenciosamente, mostrado. Dentro disso ou fora, Sayat Nova, traduzido no Brasil por A cor da romã (por sinal, péssima tradução, pecando pelo excesso desnecessário de poesia) é, sem dúvida, o que podemos chamar, com certa tranquilidade, sem muitos rodeios, de uma das melhores obras da arte cinematográfica concebidas no leste europeu.

 

* Ana Monique Moura é PHD em Filosofia pela UFPB e HGB (Leipzig, Alemanha)

 

Revista Philipeia – Ano V – Edição 17 

Parahyba, Brasil – 2017

ISSN 2318-3101

 

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