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NUNCA MAIS SAIRÁ DA MINHA RETINA

           Edson Costa Duarte*

Nunca mais sairá da minha retina. Imagens, como sonhos, como aromas, como sons, também podem se fixar eternas e imutáveis em nossa mente. Assim se constrói a memória dos dias entre o que se retém e o que se esquece. Simples contabilidade do susto. Nunca mais pode parecer excesso do instante, mas é assim mesmo breve e exato.

Daí, serão os nós do sentimento construindo, confabulando estórias, tramas tecidas ao sabor disso que em nós instaura medo e fúria. Daí, seremos nós confessando sentimentos abortados antes de virem à vida.

Então, só basta um nexo, uma palavra que ligue uma palavra à outra, nem emergente nem subemergente a essa matemática dos números. Estar-se em si pode nos dar muito mais que uma soma ou multiplicação dos afetos. Estar-se em si pode significar o produto zero.

Então, novamente, talvez se possa sair à noite sem tanto compromisso com o apresentar-se assim esférico e exato. Não é mais possível investir na coisa concreta, não é mais possível dilacerar-se tanto delicada coisa com prazo de validade vencido.

Então, terceira vez, é preciso ser mais explícito: odeio famílias intermináveis, gritarias de crianças e luzes explodindo, som no último, odeio tudo isso; acho que é insano. É preciso que eu seja claro, não quero me envolver, falou pouco, mas falou bonito, tira seu carro do estacionamento, eu lavo os pratos e você faz a comida, parece nome frio esse nome anônimo.

Sério e fugaz é o instante. Eu não entendo as armadilhas do destino. Tudo é branco por aqui e muito vasto. Não quero mais saber nada disso de me multiplicar, de me exceder, de me solidarizar com a sociedade dos infelizes cegos do instante. Não quero mais o repetir-me, refazer-me sempre o mesmo inútil e anódino, vicioso sono, mas habitável, não, não quero, não, não quero mais participar disso de ser um ser eleito.

Quero perder o jogo. Nada disso da obrigação da vitória. Quero exilar-me. Merda. Merda. Que susto.

 

* Edson Costa Duarte é poeta, escritor e pós-doutor em Literatura pela UNICAMP.

Fotografia: Domínio Público.

Revista Philipeia – Ano V – Edição 17 

Parahyba, Brasil – 2017

ISSN 2318-3101

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