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RELIGIOSIDADE E POLÍTICA NA OBRA DE RENATO VALLE

Valquíria Farias*

 

 

A arte de Renato Valle, desde seu início, é feita de inúmeros desejos de transformação do corpo social no qual está inserida. Nela, sua vontade de potência se evidencia sobretudo no trato da figura humana e dos objetos que lhe são caros, pessoais e espirituais.  

Nos últimos anos, Renato Valle parece responder direta e emocionalmente ao que antes era representação de imagens e desejos ao mergulhar no campo da experimentação artística, explorando ainda mais sua subjetividade. Encontrando fôlego nas possibilidades íntimas e infinitas do desenho, dos objetos e das instalações, sua produção de 2003 até aqui se ocupa dos mesmos assuntos. Particularmente, dizem respeito à sua religiosidade. A diferença é que agora Renato Valle se expõe sem economia em diários e dialoga com públicos diversos, ora construindo esquemas com signos apropriados do cristianismo, ora ressignificando seu entorno. Seus trabalhos agora são feitos de gestos incontidos, repetição provocativa e exaustão emocional com que se debruça, expandindo-os. 

Não por acaso, seus embates pessoais sobre a recorrência de figuras religiosas nas obras — como os ex-votos; a simbologia da cruz, associada ao sofrimento humano; e a memória de personagens nos ambientes por onde circula — estão multiplicados, dimensionados em escala e realçados devido ao contexto político da sociedade. 

As obras reunidas nesta exposição desnudam a espiritualidade de Renato Valle. Algumas das quais trazidas de importantes coleções públicas e privadas, na intenção de aprofundar criticamente seus conteúdos no momento em que estão acessíveis à interação na Galeria Janete Costa. 

A religiosidade e a política problematizadas nessas obras trazem ao campo artístico sua pertinência para discutir a arte e as relações de convivência na contemporaneidade, sobretudo nesse período de intensa crise política. A espiritualidade do artista se liga à sua preocupação com a crescente desumanização das práticas cotidianas. Envolve seu desejo de agir no corpo coletivo ancorado no conceito de humanidade, numa perspectiva micropolítica (citando Félix Guattari e Suely Rolnik). 

Diários de Votos e Ex-votos pontua o sentido desta mostra. Obra emblemática, acumula em peso e valor a subjetividade do artista. Feita de cinco mil pequenos desenhos fabricados à exaustão, é um trabalho de penitência e libertação do artista, seja em relação à imagem-símbolo de ofertórios, seja em relação às suas inquietações políticas e artísticas. Os desenhos de crianças desaparecidas, acontecimento trágico que o toca sensivelmente, neste trabalho são retratos reais da desumanização social. 

Os desenhos Diálogos…, realizados sobre lonas de grandes formatos, sinalizam a atuação de Valle nos espaços de memória e trocas coletivas em sua vontade de unir acontecimentos históricos e verdades afetivas. Cada desenho constitui um corpo gigantesco de significados sobre assuntos conflitantes da vida real. Compõem esta exposição: A filha da MongaCriança sentada, sob o impacto de uma determinada programação televisiva infantilO cachorro mortoMMA baby; Metamorfose; e Canudos, Caneca, Diretas… e o Brasil não mais resiste. 

Os objetos e as instalações feitos em resina e cerâmica dão mostras do espiritualismo de Renato Valle em tom mais leve e realista. Ressignificam a imagem do Cristo crucificado, fora da cruz, em composições contrastantes e provocativas, porém não agressivas, como se revirassem o significado secular que representa pela reprodução e exploração comercial dos problemas sociais. 

Ironicamente, dois pequenos objetos em resina de apelo pop, intitulados Mealheiro e Cristos e  Anticristos Coca-cola 1, fazem o contraponto entre as obras do salão principal e o mezanino da galeria, convidando para refletir sobre como o sentimento de religiosidade toca o artista e as pessoas. 

Nesse sentido, as gravuras digitais do álbum Cristos Anônimos são fundamentais para se pensar o conteúdo político que esses objetos operam. Em um gesto sensível, Renato Valle reproduziu nove vezes o signo da cruz com desenhos de ex-votos de milhares de cidadãos comuns, os verdadeiramente afetados pelo Sistema. 

 

* Valquíria Farias é crítica e curadora de arte. Gestora da Galeria “Casarão 34” e memro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).

 

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