Home

DA HIPNOSE AO ENQUADRE: REFLEXÕES ANDARILHAS

                                                                            Fabiano Regenhaux

 

Buscar dissolver-se nos bulevares. Reabilitar o flâneur. Estar atento aos múltiplos evangelhos de afetos ao cruzar a esquina. Mergulhar nos entalhes da paisagem e receber golpes de vista. Esta proposta de reflexão retoma a temática ambulante que perpassa os escritos de Baudelaire revisitado por Walter Benjamin, as passagens deste sobre a atividade do flâneur na multidão e uma atualização antropológica sobre o caminhar pavimentado na urbe em Tim Ingold.

Como num transe em correntes urbanas, na imersão coletiva, o observar está instalado na câmera dinâmica, movente como num filme de Jean Rouch, numa sequência de rito. A postura do olhar e do caminhar enquanto atividades acopladas, ação, percepção e pensamento numa totalidade folhada e descontínua que se revela em camadas – o foco da análise aqui empreendida.

Além de uma atualização desse recorte deambulante, eu proponho uma defesa da lógica flâneur e contemplativa como uma forma de resistência à modalidade de vida mainstream vinculada à ética de trabalho puritana e protestante, ao estilo de vida consumista e maçante, incrustados na engrenagem da produção, cujo processamento envolve uma psicogênese do indivíduo focado na carreira, hipnotizado pelos horários de chegada e partida no trabalho, do tempo livre açambarcado pelo entretenimento útil, calculista com rendimento positivo para o lucro industrial que fabrica corpos dóceis que se movem entediados pela cidade, preocupados em ter estímulos agradáveis “pelo menos” nas happy hours do fim de semana,   na sensação de orgasmo em estar com as contas pagas. O anonimato nas cidades é preceito da reforma urbanista, segundo Ingold (2015), na medida em que o andar calçado e o percurso pavimentado não deixa rastros, e a proibição do pisar na grama, onde se deixam pegadas é proscrito, como uma evitação do contato com a selvageria do barro e não para poupar a vegetação ornamental e domesticada. As pessoas: “É como se elas nunca tivessem passado. Existe, aqui, o mesmo distanciamento entre as pessoas e o chão” e “as superfícies sobre as quais você pode andar são aquelas que permanecem intocadas e imaculadas pela sua presença” segundo o autor[1]. Os sujeitos inseridos numa “solidariedade orgânica” que os dispensa, pela própria consolidação da máquina industrial da metrópole, que é uma entidade autônoma que culminou no capitalismo especulativo e financeiro, cuja metafísica reside em domar e encantar as máquinas e os objetos com o fetichismo yuppie da balança comercial, o acúmulo prometeísta; lucro ou profit é proveito transcendente e externo ao sujeito, fazer valer a vida é aproveitar a vida contanto que movimente a tal da balança, nas viagens acondicionadas em veículos com roteiros por paraísos gourmet. A genealogia cristã e platônica estabelece que a verdade do sujeito está fora dele, no mundo prometido aos justos, no atendimento a uma vida comedida pela senda verdadeira, boa, moral do flagelo corporal. No pain no gain elevado à enésima potência. Desobedientes e glutões serão punidos pela ofensa ao libelo meritocrático; não se esforçaram o suficiente. Na dissipação do ócio e geração ou condução de energia “proveitosa” que não se gasta, mas se converte ou servidão (in)voluntária eterna ao social, que neste caso é a entidade transcendente, puritana que promete uma vida de augúrios luminosos de posição elevada na vida terrena imediata ou no futuro providente. “Compre seu túmulo”, “faça um seguro”, toda uma expertise mágico-monetária de manipulação oracular.

Do profit ao profeta, evoco o angelus novus Walter Benjamim, que em sua passagem portentosa pelo mundo terreno, deixou rastros que dialogam com minhas preocupações imanentes e nietzscheanas, no que toca a reflexão sobre a metrópole.  Nas Passagens, o profeta Benjamim, anunciou que existe a diferença entre o ócio, aquele gozado e monopolizado pela classe da Nobreza no regime monárquico e feudal, tratando-se de um dolce far niente que estimula a meditação contemplativa, e a ociosidade, uma condição posterior à Revolução Francesa e ao advento burguês, que se esforçou em negar o ócio da Nobreza e estimular uma produtividade puritana que se revela na inércia agora apropriada pelas classes dirigentes de empresários e negociantes que exploram a classe operária e comandam seu tempo de labuta e de lazer. O domínio da reflexão do mundo interior e do tempo biográfico do sujeito nas mãos dos oráculos do desencanto moderno; uma religiosidade camuflada ou que serve a estes abutres. Ociosidade, para Benjamin é agora uma postura crítica, política e de resistência ao ócio nobre e à inércia burguesa dos que detém os meios de produção, e cujos agentes são os estudantes, os filósofos, os dândis e os flâneurs, o poeta e o jogador. A defesa da ociosidade é o ponto de partida da resistência e de adoção de um estilo de vida e de um núcleo organizador da experiência que coloca o sujeito como agente capaz de pensar por si mesmo, do reconhecimento de sua liberdade e autonomia de ação. O flâneur, arauto da contemplação e da liberdade, é a figura mais transgressora que se coloca no mundo urbano. Se o sujeito é, tacitamente, induzido a andar motorizado em seus automóveis e a atividade pedestre é reduzida aos parques higienizados ou à ambiência envidraçada das academias em bicicletas ergométricas ou em shoppings centers monitorados por câmeras e vitrines, cujos reflexos do olhar são imantados por superfícies transparentes, ser flâneur é um imenso ultraje a esta configuração espacial e ideológica. Como assinala, Benjamin (2006): “A ociosidade do flâneur é um protesto contra a divisão do trabalho”[2]

Segundo Ingold (2015), o sujeito pedestre moderno nas cidades, se locomove sobre superfícies lisas e pavimentadas que minimizam o impacto com objetos ou evitam o atrito com possíveis empecilhos para o caminhar, como buracos ou fendas, e o contato com outros sujeitos; o caminhar na multidão é uma atividade mutuamente monitorada e sensível, onde as pessoas, atentas, mesclam indiferença e interesse uns relações aos outros.  Esta mistura é mantida num disfarce pela etiqueta, mas contraditoriamente conciliada na tarefa de observar o meio circundante, as falhas no caminho ou alerta de perigos iminentes. A forma de olhar conveniente ao pedestre moderno, invariável desde os primórdios da revolução urbana e industrial da era vitoriana, de acordo com Ingold (2015), citando, Erving Goffman, compreende uma varredura que examina o campo visual que está orientado para a frente e que consiste numa investigação em formato oval e alongado que emana dos dois olhos e que visa abarcar o máximo de detalhes da paisagem. Entretanto, Ingold (2015), que discerne as formas de olhar preconizadas aos indivíduos do sexo feminino e às crianças, que estão mais próximas do chão pela posição de subordinação, do ideal tipicamente urbano e masculino, adverte para a conjuntura contemporânea, na qual é mais provável que “o indivíduo do sexo masculino urbano, que olha firmemente para a frente, ande de carro, e o do sexo feminino nem tanto”[3]. Ou seja, o feminino e o infantil, curiosos e transgressores quando sobressaem a esfera doméstica que lhes é relegada, estão na rua e restauram essa condição “selvagem” e criativa do flâneur.

Na multidão, a criatividade selvagem do poeta-artista e do flâneur é afetada pelo encanto viscoso da musa, no Soneto “A uma Passante” de Baudelaire, analisado por Walter Benjamin (1989), ao perceber o fenômeno da aura que emana de certos detalhes da paisagem e das pessoas que apreendem o olhar. O flâneur é um curioso, um jornalista, um detetive a realizar estudos sérios sobre a aparência dos sujeitos na multidão, disfarçadamente sob sua indolência e mimetizados pelo distanciamento psíquico que o mundo urbano e a economia monetária infligem às pessoas, o que lhes confere uma legitimidade observacional e um rico material de coleta de dados. Entretanto, absortos na investigação impessoal e “objetiva” são surpreendidos por certos detalhes punctum, em detrimento do studium, na explanação fenomenológica e visual de Roland Barthes (1984) [4], que incidem em afecções subjetivas como a da Musa do Soneto “A uma passante”. Daí, advém, em Benjamin (2006), a diferenciação entre aura e rastro: “Rastro e Aura. O rastro é a aparição de uma proximidade, por mais longínquo esteja aquilo que o deixou. A aura é aparição de algo longínquo, por mais próximo esteja aquilo que o evoca. No rastro, apoderamo-nos da coisa; na aura, ela se apodera de nós”[5]. A impessoalidade do rastro na investigação dos tipos sociais pelo flâneur é próxima da do olhar distanciado da análise que toma os sujeitos como objeto de pesquisa sociológica, o pesquisador objetiva as relações sociais e a estrutura social, o roteiro que condiciona a ação (studium). Na aura, inversamente, o observador é cutucado pela singularidade que o afeta, a despeito da construção que o autor faz de uma imagem ou a que a sociedade na multidão quer conferir, e lhe traz sensações inóspitas, como o punctum na fotografia. Benjamin (1989): “Quem é visto, ou acredita estar sendo visto, revida o olhar. Perceber a aura de uma coisa significa investi-la do poder de revidar o olhar”[6].

O olhar “masculino, firmemente orientado para a frente” que não necessariamente observa atentamente os detalhes da paisagem, mas busca uma acomodação conveniente à passagem e para a evitação ou um excesso de distração, é uma imersão no mundo do business, ocupado em negar o ócio; é o olhar típico, tácito e recomendado ao sujeito no mundo monetário e da produção. O flâneur, o artista, o poeta e o estudante transgridem essa perspectiva pela indulgência da perda do foco unilinear, permitem-se transitar entre o studium dos processos sociais e o punctum da afecção particular. A reflexão do olhar da flânerie se aproxima da reflexão do olhar fotográfico. O olhar do mundo proletário ou do mundo business é um olhar hipnótico, hiperconcentrado numa monogamia ou num monoteísmo de detalhes, constantemente entorpecido para experiências paralelas ou dificilmente estimulado pelo inusitado ou o pitoresco que foge ao trivial e prosaico. O olhar contemplativo do flâneur e correlatos, é um olhar que transita e que trai o mundo privatizado e gentrificado. O olhar hipnótico é um olhar de predador. Do foco numa presa ou do investidor da bolsa de valores. Que se reverte num olhar indiferente, do sujeito absorto na rotina de trabalho e do fadiga na cidade, sendo o indiferente da mesma natureza que o hipnótico. Enquanto o primeiro foca apenas na resolução de detalhes interiores de seu curso biográfico, o segundo foca apenas num detalhe exterior. O contemplativo passeia em busca da aura e de ser afetado pelos detalhes da paisagem.

Enquadrar (observar a paisagem, focar certos detalhes, manifestar interesse mas sem insistir num detalhe) é diferente de encarar/fitar (perseguir insistentemente e fixamente um detalhe, uma pessoa). É olhar fotográfico. Diferente do olhar obsessivo. O olhar fotográfico é oscilante e centrífugo para a paisagem e o detalhe (enquadrante, passagem de ângulos para outros). O olhar hipnótico e obsessivo é centrípeto (foca só no detalhe e esquece o resto). O olhar contemplativo é um olhar de cenário: sempre se escolhem ângulos de vista para situar e deter certos detalhes. Não existe olhar amplo e neutro. A contemplação é fotográfica. A obsessão é hipnótica. E contemplação é dotar o outro com o estatuto do reconhecimento. É não se diluir num olhar indiferente que finge olhar o vácuo. Acaba sendo o outro extremo do olhar hipnótico: de focar só num detalhe externo para focar só no olhar indiferente à deriva dentro de si mesmo. O olhar equilibrado é aquele que passeia, divaga. Que é flâneur. Que procura detalhes ou se afeta por eles.

O mundo social é um mundo difuso de tensão erótica que o puritanismo da ética do trabalho tenta negar e que o flâneur, o poeta ou o observador devotado, que estudam a multidão e suas tipologias, assim como o ambiente, restauram numa consagração erótico-literária e sensível. É a negação da tarefa freudiana civilizacional do mal estar necessário pra impulsionar a produção e que  coloca o erotismo debaixo do tapete do inconsciente ou concentrado penianamente no prédio ereto que ricocheteia olhares curiosos; Freud, como um pária excêntrico do patriarcado hebreu, auxiliou a fixar a negação da “perversão polimórfica” na redução do erotismo ao impulso fálico colonizador e produtivo, a uma arquitetura gentrificada do erotismo contido na esfera privada e purificada; o falogocentrismo cunhado por Derrida.

A arquitetura studium do cenário urbano contemporâneo preconiza a superfície imaculada que reflete e anula tanto os traços, quanto as auras, busca uma indiferença, uma neutralidade de status social, para dignificar a lógica liberal da meritocracia, todos podem ter acesso a uma posição privilegiada de poder, desde que se esforcem e que estejam bem sucedidos no ranking do mercado ao habitar ou transitar por ambientes envidraçados. O sujeito que está no topo da hierarquia é o sujeito sem singularidade, cosmopolita e universal que engloba as diferenças e as dissipa. O mundo privado do sujeito homem heterossexual WASP (White anglosaxon and protestant) é um mundo disfarçado e discreto que absorve as intenções e diferenças dos outros numa caixinha de cristal polida. A arquitetura concebida para e por este indivíduo padrão é  esta caixinha. Segundo Benjamin (2006) e sua profecia: “é próprio das formas técnicas de produção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e êxito sejam proporcionais à transparência de seu conteúdo social (Daí a arquitetura em vidro)” [7].

Um exemplo é conformação cênica/ studium dos shoppings-centers. A luz estourada artificial e homogênea que hiperestimula o olhar a várias direções de consumo, compra e de observação inconveniente dos sujeitos que passam ou desfilam mas que não querem ser observados. Ou você olha para os objetos expostos nas vitrines ou para as pessoas, mas estas não querem ser observadas pelo fato de que o olhar no shopping ser hiperexposto; qualquer movimento seu é evidente sob holofotes de uma câmara de luz hermética e exagerada. Você é obrigado a olhar para as mercadorias. Pois a humanidade está suspensa nesse ambiente a partir do momento que perde-se a interface e a integração com o ambiente externo. Quando se instaura um totalitarismo cenográfico da luz do shopping, que te obriga a olhar para vidros, se se enquadra alguém é exposto a uma situação de constrangimento, como se estivesse julgando seu figurino. O olhar incontido é limitado, pois a paisagem é demais árida e não existe um desvio para evitar a exaustão do olhar para um certo foco. É uma hipnose obrigada para os reflexos do vidro. A claustrofobia é uma contradição pois é um ambiente amplo, entretanto encerrado em si, num bloco de vidro ou câmara de espelhos ou “pseudopraia” artificial; é uma claustrofobia pela excessiva exposição e nitidez do seu olhar que desumaniza a interação. Só se permite a paquera na praça de alimentação aos adolescentes que estão na inocência selvagem e imersos na permissividade de uma geração hipnotizada pelo ambiente hermético. É como se fosse uma demonstração do código digital da previsibilidade e do controle racional, do excessivo calculismo de meios e fins, incrustado espacialmente.

Retomando, à guisa de conclusão, o olhar “masculino firmemente orientado para a frente” transfigurado no olhar do sujeito curioso, feminino e infantil, ou na ociosidade observacional do flâneur diante da financeirização da vida, os olhos que observam e que caminham na cidade, partindo de uma investigação em formato oval e alongado, se equiparam a dois faróis que perambulam em todas as direções, iluminando o asfalto e as faces lívidas da multidão. Faróis/ cones/ tunéis procurando várias saídas de extroversão visual, conduzida por uma pesquisa interior, expedição para estímulos externos que possam lhe afetar, e que, ao mesmo tempo, também se satisfaz com a pesquisa impessoal dos status social e da fisionômica humana, animada, internamente, pelo ânimo e a poética do ser no mundo.  Existe um terceiro olho que enerva os dois olhos de implantação dos cones, faróis e tunéis; uma glândula pineal da intuição ou enraizamento ocular que se aloja no centro da face; é ele que permite aos outros dois olhos o mergulho na paisagem e a caça ao deslumbre.

*Fabiano Regenhaux é ensaísta, curador e doutorando em Antropologia pela UFPE.

 

 

Referências

 

BARTHES, Roland. A Câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

 

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.

 

____________________ Passagens. Belo Horizonte: Humanitas-UFMG, 2006.

 

INGOLD, Tim. Estar Vivo: Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petropólis: Vozes, 2015

 

[1] Ingold, 2015, p.86

[2] Benjamin, 206, p. 471.

[3] Ingold, 2015, p.  85.

[4] Barthes, 1984.

[5] Benjamin, 2006, p. 490.

[6] Benjamin,  1989, p. 140.

[7] Benjamin (2006), p. 507.

Revista Philipeia – Ano V – Edição 17 

Parahyba, Brasil – 2017

ISSN 2318-3101

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s