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PAISAGEM LIVRESCA DE COLETIVO ABARROTADO

Beano Regenhaux*

A despeito do ciclo fatalmente maçante que aflige o usuário dos coletivos, em sua rotina hercúlea onde se inscreve o percurso casa-trabalho, para os que desenvolveram a capacidade de imersão em livros, numa modalidade de quase ataraxia, de total imperturbabilidade do espírito, existe uma iluminação sui generis que organiza a observação dos sujeitos que se amontoam no interior do recinto e que irradia nas impressões obtidas da atividade de leitura.

A descrição do texto livresco transborda para o plano semipalpável das pessoas que circulam. É como uma experimentação de um estágio eminentemente contemplativo, em que se torna isento às atribulações prosaicas básicas ou se adquire um olhar da função autor-deus que absorve e cria sem maniqueísmos. O seio literário é um manto que cobre a patologia cotidiana e a reveste de uma camada de sublimação inflamável, etérea. A participação na catarse dos seres moventes dos coletivos, se dissipa não na indiferença aos sentimentos, mas na fusão deles. É uma promoção onde se ultrapassam as restrições e entidades individualizadas, mas uma ergonomia do sensível, das incidências plurais para além dos fardos e enunciados que impulsionam o tripalium, a prescrita tortura pós-edênica, a singela cobrança de uma habitual empatia.

Numa ocasião, lendo “A Mãe” de Máximo Gorki, as descrições da obra se difundiam para o testemunho das ações no coletivo. As matronas inchadas ou operárias castigadas se incorporaram em Pelágia, a figura materna que fundamenta o livro. Ou as paqueras juvenis e a algaravia da massa de debates acalorados sobre a atual conjuntura política nacional, se imiscuíam nos encontros furtivos dos protagonistas da luta operária no livro. A paisagem literária convergia para a paisagem do coletivo lotado, numa sintonia distorcida mas de encaixe barroco.

Bus

Num trajeto de longa duração há uma míriade de encontros efèmeros com figuras e personagens, cuja opacidade da vida interior é um convite para divagações romanescas. Na preocupação de apreender o máximo da experiência da eternidade enlatada em veículos de transporte é necessário escolher um assento onde lhe reserva uma posição privilegiada com vista panorâmica para o exame da tipologia dos sujeitos que ingressam no coletivo. Deve-se embarcar nos coletivos com disfarce flâneur, com ou sem destino específico, adotando uma postura de peça que sempre estivesse ali, na engrenagem do veículo, a se contaminar dos toques suados e encardidos dos passageiros. Embarque sempre próximo ao terminal.

No ônibus vazio é que se experimenta a voracidade da experiência de contágio difuso, entre tipos de sujeitos que despertam maior ou menor atenção. Quando a capacidade do veículo se entope de almas cintilantes, que mutuamente se ofuscam ao olhar apressado, é que o treinamento da visão e da atividade contemplativa pretende se acomodar, procurando enfoques na multidão amorfa.

No rumor das faces fluidas que integram a multidão, no interior dos ônibus ou no exterior observado da janela dos que estacionam ao lado, percebem-se os bebês que tossem com viscosidade retumbante e que preenchem completamente o espaço sonoro do interior, como redemoinhos carentes de atenção. E braços atormentados que se jogam das sacadas destas janelas. Uma paisagem intermitente, movediça. Nota-se ainda o modo como as pessoas se dispõem nos assentos, hesitantemente ou com firmeza imperativa, o que pode ser melhor constatado se estiverem presentes no mesmo assento que o do observador. A despeito desses rostos fluidos, existe a tonalidade ímpar de uns poucos que clamam para um exame mais acentuado ou que convidam a um flerte desinteressado ou mesmo com a languidez erótica. Estes semblantes mais ou menos convidativos são resultantes de uma aderência aurática que deriva da presença da alma que esculpe uma feição de traços que são indícios para inferir a pessoa interior, de forma especulativa. Proveniente dessa elucubração às feições aderentes, há o estágio do flerte esboçado em intensidades variáveis, cuja substância expressa uma cosmologia de sintomas que se desenvolve nos assentos dos coletivos. O roçar titubeante das coxas e pernas, um silêncio claustral de mosteiros se instala e a respiração torna-se exuberante, como que diagnosticada por um estetoscópio compartilhado pelos sujeitos. Há um reflexo de canções balbuciadas que se contornam nos lábios sibilantes, no intuito de estimular a fala com o outro, num esparramar dos corpos, mútuo e desastrado.

Quando se está lendo algum livro, esta capacidade de apreender detalhes, na situação inusitada de leitura conciliada à observação das tipologias humanas e ao percurso revelado pelas janelas, é acentuada. O livro se oferece como disfarce flâneur de fusão à engrenagem do coletivo. É um dispositivo que desperta atenção dos passageiras, mas uma atenção de reconhecer sobriamente uma coisa de atmosfera formal e um campo gravitacional que sempre estivera ali. Não é uma perturbação suficiente para influir nas viagens particulares. O livro transmite autoridade e confere o enquadramento que permite observar as pessoas. Se você estiver observando, numa gradação de suave à obscura discrição, os sujeitos que circulam no interior do coletivo, sem a imersão devida no livro, certamente, não poderá observar em profundidade, sem despertar a atenção dos primeiros e, simultaneamente, escapará ao poder sobrenatural de atração das descrições literárias que irão eleger os detalhes na paisagem que merecem sua atenção. Para além de uma justificada suspeita de superficialidade, tanto na leitura de uma obra específica, quanto na observação do entorno, o livro compreende um operador de recorte dimensional, exercendo a função de elaborar associações e sobreposição de planos. Em suma, numa leitura descompromissada com um estudo acadêmico e monacal, a dimensão livresca, enquanto grave injunção de presença pessoal, representa uma investigação lúdica do real errante e um operador de divagações líricas.

 

*Beano Regenhaux é doutorando em Antropologia pela UFPE.

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