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PERCEPÇÃO E REMEMORAÇÃO DOS LUGARES NA CIDADE A PARTIR DAS SALAS DE CINEMA, EM PALMEIRA DOS ÍNDIOS-AL (1950-1960)

Maria Viviane de Melo Silva*

Ir ao cinema constitui-se numa prática social que ganhou novas configurações com o passar do tempo. Maynard (2016) enfatiza que desde o seu surgimento, os cinemas eram vistos como símbolo de modernidade nas cidades, levando cultura e lazer para a população. No Brasil, durante as décadas de 1920 a 1950, elas tinham um espaço comumente ligado a uma das principais maneiras de lazer urbano, gerando consigo novos meios de convívio social. Corroborando com Valim (2012, p. 285), entendemos que “O cinema não é apenas uma prática social, mas um gerador de práticas sociais”. E, nesse sentido, aferimos que, assim como ele, cada lugar na cidade desempenha um significado e por conseguinte, interfere nas suas relações sociais.

A interferência provocada pelo cinema, em seu início, gerava na cidade uma movimentação que acontecia naturalmente, tendo em vista as possibilidades de encontro com um novo mundo que se advinha por meio dele. Calvino (1999, p.14) nos coloca que a cidade é feita a partir das relações entre as medidas do espaço e os acontecimentos do passado. Se o cinema era um ponto de encontro na cidade, um local para assistir filmes ou admitia qualquer outro sentido, ele proporcionou um novo estilo de vida para uma sociedade que se ligava cada vez mais a ele, pois:

Os prazeres da noite não se esgotam com a experiência de assistir a um filme, no mais das vezes trata-se de uma atividade de grupo. Raramente as pessoas vão ao cinema sozinhas (…) O espectador do cinema observa porque a imagem em si mesma é sedutora, maior do que a vida, um objeto de desejo. (TURNER, 1997, p. 110-112).

Ver o filme era uma das competências do cinema, mas os encontros, os namoros e as próprias companhias, escolhidas ou não, para ir à exibição fazia parte desse universo. São histórias, memórias e um arcabouço de situações que vão sendo vistas por meio de olhares mais fixos e que representam também a importância que o cinema, enquanto lugar, possuía na sociedade. “A cidade sensível é aquela responsável pela atribuição de sentidos e significados ao espaço e ao tempo que se realizam na por causa da cidade. É por esse processo mental de abordagem que o espaço se transforma em lugar, ou seja, portador de um significado e de uma memória.” (PESAVENTO, 2007, p. 12).

Em consonância com o pensamento de Sandra Pesavento, nos remetemos às percepções que podemos ter ao desbravar nosso olhar sobre a cidade. Partindo de um prisma mais específico, remonta-se à Palmeira dos Índios, munícipio do interior de Alagoas.

Quem vivenciou a experiência das salas de cinema nesta cidade, ao passar pela Praça da Independência ou outros locais em que funcionavam os antigos cinemas, pode trazer a tona lembranças de outra época. Compreendendo “a memória como presença do passado” (ROUSSO, 2013, p.94), a configuração do prédio, mesmo sendo outra, pode possibilitar mecanismos de rememoração, assim como outros espaços da cidade que, como o cinema, foram modificados ou que não existem mais.[1]

Cine Moderno Década de 1960 Acervo da UNEAL

 

Fachada atual do antigo Cine Moderno- 2015 Acervo da autora

 

O Cine Moderno, antes chamado de Cine Ideal, era conhecido como Cine Tripinha, por ser cumprido e estreito, fazendo parte da vida citadina de Palmeira dos´Índios nos anos 50 e 60. Por se localizar na maior praça da cidade, era comum o grande fluxo de pessoas na porta do cinema. A existência de mais duas salas de exibições cinematográficas na cidade, o Cine Palácio inaugurado em 1956 e o Cine São Luiz, instalado na década de 1960[2], não impedia que o Cine Moderno também fizesse sucesso, pois ir ao cinema era uma das poucas diversões da época e no interior, era bastante comum a proliferação dessas salas como veículo de lazer para as pessoas.

Para além das salas de cinema, a cidade apresenta-se como um espaço múltiplo e rico de significados. Nos referimos ao cinema como um desses atributos que fazem ou fizeram parte das cidades, em momentos distintos, especialmente nos interiores, onde atualmente pouco se vê funcionando salas de cinema como na década de 1950, cujo espaços ganharam nova roupagem e destinaram-se ao funcionamento de outros estabelecimentos, sejam lojas, supermercados, entre outros.

 Os lugares da cidade revelam aspectos de suma importância para se entender as relações sociais no cotidano existente na mesma, uma vez que “A cidade sempre se dá a ver, (…) mas também se dá a ler, pela possibilidade de enxergar, nela, o passado de outras cidades, contidas na cidade do presente. Assim, o espaço construído se propõe como uma leitura no tempo, em uma ambivalência de dimensões que se cruzam e se entrelaçam”. (PESAVENTO, 2007, p.14). Desta feita, não apenas as salas de cinema, mas outros elementos como igrejas, coretos, praças ou qualquer outro local que tenha feito parte do convívio social, são passíveis de análises e reflexões, englobando as práticas sociais e por sua vez, novos imaginários dos espaços que se desenrolam a partir da percepção da cidade.

REFERÊNCIAS

BARROS, Ivan Bezerra de. Abrindo a Janela do Tempo: memória e história. Alagoas: Graciliano Ramos, 2006.

CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

MAYNARD, Andreza. Os usos das salas de cinema em Aracaju durante a Segunda Guerra. Anais eletrônicos do V Congresso Sergipano de História e V Encontro Estadual de História da ANPUH-SE. Disponível em http://www.encontro2016.se.anpuh.org/resources/anais/53/1473203693_ARQUIVO_AndrezaMaynard-VCongressoSergipano2016.pdf.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882007000100002. Acesso em 18/11/2017.

ROUSSO, Henry. A memória não é mais o que era. In: AMADO, Janaína. FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos e abusos da história oral. 8ª Ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

TURNER, Graeme. Cinema como prática social. São Paulo: Summus, 1997.

VALIM, Alexandre. História e Cinema. In: CARDOSO, Ciro Flamarion. VAINFAS, Ronaldo (ORGS). Novos Domínios da História. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

 

NOTAS

[1] Existem alguns trabalhos acadêmicos que fazem alusão as décadas de modernidade das cidades, sejam eles relacionados com as salas de cinema ou outros lugares que fizeram parte dela, demonstrando suas mudanças a partir das percepções do hoje em relação ao passado. Como exemplo, citamos: LUZ, Aylla Maria Caminha. Cine Spark: Memória, Lazer e Sociabilidade em Picos (PI) nas décadas de 1960 e 1970. 88F.  Monografia. Universidade Federal do Piauí: Picos, 2012. MAYNARD, Andreza. Um príncipe russo em Itabaiana: cotidiano e cinema na década de 1930. IN: Dilton Cândido Santos Maynard (ORG). Getempo: Memórias de uma coluna de internet. Macapá: EdUNIFAP, 2015. MOURA, Flávia Danielly de Siqueira Silva. Cenas de uma cidade sensível: O cine Bandeirante como espaço de lazer e sociabilidades em Santa Cruz do Capibaribe – PE. 139F. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Campina Grande: Campina Grande, 2014. SILVA. Cristiano Cézar Gomes da. Um Agreste moderno? Ecos da modernidade e instituição de signos modernos na cidade de Belo Jardim entre 1953- 1978. 169F. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Pernambuco: Recife, 2004.

[2] Sobre os cinemas em Palmeira dos Índios ver em BARROS, Ivan Bezerra de. Abrindo a Janela do Tempo: memória e história. Alagoas: Graciliano Ramos, 2006.

 

* Maria Viviane de Melo da Silva é mestranda em História pela Universidade Federal de Sergipe.

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