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LEITURAS SOBRE A ARTE

Ana Monique Moura*

 

A arte e a realidade

Como a arte pode se relacionar com a realidade? Ou deve a arte ultrapassá-la? Por que a arte é abstrata ou surrealista quando não representa a realidade?

Parece tarefa inútil definir que haja regras para uma arte que se relacione com a realidade e a arte que não se relaciona. Antes, o próprio sentido de realidade se mostra aí um problema.

Ainda temos uma compreensão muito científica da realidade. E olhamos a arte com estes olhos no mais das vezes. Não que isso seja de inteiro ruim, mas é insuficiente no campo da arte. Como diria Merleau-Ponty em “O Olho e o espírito”: “a ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las”. E ela parece ter sido um recurso de valor para tentar apreender a arte. Não é à toa que artes clássicas ainda costumam nos impressionar muito mais na suas simetrias alcançadas e cálculos precisos das formas. Não à toa que a arte contemporânea tende a causar certo incômodo, por fugir de tais simetrias, de tais perfeições.

Fato é que a contemporaneidade da arte ainda nos assusta. E desafia nossa condição de meros herdeiros de Da Vinci, Caravaggio e da filosofia matemática de Descartes. Tudo isso contamina nossa apreensão da arte hoje, ainda. Não que olhamos a arte fazendo cálculos. Há uma matematicidade em sentido mais amplo.

A grande maioria, seja de leigos ou “bons entendedores de arte” (ainda não sei se isso pode existir, mas ousemos supor que exista, mas não faço parte desse grupo de pessoas), tende a exigir, em tais proporções, o que há de condição para o real e não do que há de fora disso.

O culto à arte advém no geral desse modo de nos curvarmos a esta força matemática da arte, que tende a garantir a condição de realidade ideal. É como se a matematicidade fosse capaz de dar o crivo de realidade da arte. Desse modo a arte é “levada à sério!”. O que encanta na Monalisa não é prioritariamente ou apenas o mistério do seu sorriso, mas também o significado do pintor que torna tal sorriso possível. O mito Da Vinci, o cientista, o matemático das artes.

Com o Impressionismo, a arte começa a sair um pouco desta suposta condição perfeita matemática. No Impressionismo a atenção estará muito mais destinada às cores. O jogo com as cores de qualquer maneira quase intuitiva. Não à toa é ainda hoje considerada por muitos como uma arte simplista, por mostrar-se como mera “cópia da realidade” na esfera de uma poética das cores. Aí a própria realidade é vista como desinteressante. Com o Expressionismo, o problema se sobreleva. E aqui Van Gogh se tornou por muito tempo um sinônimo de loucura.

A busca tende a ser pelo fundamento secreto e invisível da realidade, no caso a geometria perfeita das formas. É algo quase como uma busca pela partícula de Deus, por um atestado do divino. O sorriso ou não da Monalisa, não é o que marca o fascínio na obra de arte clássica, mas a sobreposição de uma ideia de arte que segue regras perfeitas no convívio com o mistério do seu sorriso.

E, mais à frente na história, no chamado Surrealismo, citaria a pintura intitulada “A traição das imagens”, por René Magritte, que guarda a frase “Isto não é um cachimbo”. Esta pintura nos desafia e nos revela que nós, como adoradores da condição oculta da verdade, tendemos a encarar o que a arte representa com a coisa em si. Nosso respeito pelas condições reais da arte nos conduz a esse preconceito.

Magritte naturalmente sabia que isso provocaria certo incômodo na alma contemporânea. A própria pintura se revela como uma tese. Esse incômodo realiza seu próprio julgamento. Nos diz que buscamos na arte, enfim, alguma realidade que não a arte mesma.

Por mais que a arte represente a realidade tangível, aquilo jamais será a realidade tangível, mas a realidade na arte e, ainda mais, tal realidade pode ser tão forte quanto qualquer outra realidade numa obra de Da Vinci ou Caravaggio. Na arte, qualquer realidade não é a realidade como a temos no cotidiano, já que qualquer realidade aí é figuração. E não adianta buscar clarezas matemáticas para alçar algo de real no irreal da arte. Tampouco chamar uma arte incompreensível, e exagerada ou desnecessariamente desproporcional, de arte abstrata. A arte se honra em ser algo para fora da certeza de realidades condicionadas. Me conforto sempre com a, mais que afirmação, imposição, de Clarice Lispector, quando disse: “Tantas vezes o que chamam de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu.” E isto valeria não apenas para a chamada arte abstrata, mas para qualquer outra arte que não estivesse nos parâmetros da arte perfeita, como se tende a muito mais que pensar, cultuar.

 

A arte e a política

Diz parte da tradição de um tipo de idealismo filosófico, precisamente o pensamento alemão inspirado no filósofo Kant, que a arte não abriga um caráter originariamente político, do mesmo modo não caberia à política qualquer sentido fundador da arte. Mas aos solavancos possíveis da experiência com a arte correspondem capacidades, ditas, subjetivas, como o gosto, que por seu turno pode passar por uma formação exterior, ou seja, uma educação estética, como propunha Schiller em sua obra Educação estética do homem (1795). Mas valeria perguntar à esta tradição: por que a experiência estética estaria desvinculada da política, se depende desta o próprio sentido de formação (educação) e direito (justiça)? Não é menos verdade, portanto, que esta linha de pensamento tenha favorecido à elite do pensamento declaradamente burguês (lembrem-se do apoio de Kant dado à revolução burguesa de 1879), na medida em que tratou de dispensar o sentido de diversidade possível de experiências estéticas válidas, e tratou de levar à cabo o sentido de uma cultura europeia superior e colonizadora sob a lei de ser injetada no que tomavam por “menoridade intelectual” das demais culturas.

Por outro lado, a saída desta perspectiva idealista e profundamente eurocêntrica da experiência estética ficou submergida às considerações materialistas, econômicas e ideológicas, como foi o caso da abordagem a partir de Marx e Engels. Neste seguimento, ou seja, na tentativa de sair do viés idealista dos iluministas e dos “românticos alemães” para finalmente habitar um campo mais orgânico, ainda assim Marx pisava em um terreno perigoso e minado: o problema de Marx foi tão só ter pensado que bastaria que esta educação estética limitada à esfera burguesa fosse expandida às classes minoritárias e a segregação seria substituída pelo socialismo estético. Vale pontuar que a educação estética do homem na tradição europeia, é a educação racional e patriarcal dada ao “gênio privilegiado” e quando não, ao “colonizado”, com a ideia da uniformização da cultura e não da sua expansão. Marx tentou recusar esta estrutura, mas juntou a isto, no seus Manuscritos econômico-filosóficos (1844), o seu ideal de modernidade glorificada em detrimento de um suposto passado ingênuo, que ainda mantinha por outro lado sérias doses de patriarcado, racionalismo e eurocentrismo cultural. Não considerou que a cultura do conhecimento moderno europeu não era a única benesse intelectual para compor o universo estético. Não é novidade que as posturas de Marx tenham sido em muitos aspectos de validades meramente regionais e que não poderíamos ingenuamente toma-lo como porta voz para compreender, neste caso, o problema a expansão social do sentido de experiência com a arte diante deste globo de continentes (entenda-se universos e códigos culturais distintos).

Mas valeria invocar que uma análise muito importante tem sobressaltado recentemente os estudos em artes. É o caso da obra Glittering Images (2013) de Camille Paglia. Seu livro analisa algumas das principais obras plásticas que ela considera de relevância clássica e obrigatória. Camille Paglia faz uma experiência de reflexão em que parte destas tradições, a idealista e a materialista, se coloca com elas e ao mesmo tempo para além delas. Em Glittering Images, a proposta da experiência com a arte segundo outras vozes como também passível de ser proposta segundo a ideia de formação de um povo, inaugurada no espírito iluminista europeu, mas reconfigurada, socializada para além de Marx. Outra perspectiva de Paglia é ter apontado o erro de Marx de que o caráter social de uma experiência estética real está preponderantemente nas suas relações econômicas e não naquilo que possa ser tomado como sagrado ou do mistério, a exemplo da arte egípcia. Ao contrário, é este algo de sagrado ou misterioso que dará o sentido do que seja também (e por que não?) política ou sociedade num povo, e sem estes elementos tão caros à arte, um povo perde de alguma maneira seu significado.

Ora, tanto no sentido de classe, como no sentido de gênero, ou do que quer que a experiência com a arte venha exprimir ou oprimir, esta experiência exige, desde o momento em que surge, um conceito político sem o qual perde qualquer sentido histórico do que guarda e do que está por vir. É certo, portanto, que uma experiência estética possa surgir sem intenções políticas, como já disse Kant, mas, ao meu ver, esta ausência de intenção política guarda já em si algo de político, melhor dito, ainda que seja algo de “misteriosamente político”. Como dizia Paulo Brusky: “não existe arte pela arte apenas. O artista é um ser social e só o fato de o ser é um ato político”.

©

*Doutora em Filosofia (Programa Integrado de Doutorado em Filosofia – UFPE/UFPB/UFRN) & (HGB, Alemanha)

 

Revista Philipeia

Ano VI

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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