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VARADOURO

PARAHYBA e SANHAUÁ, opus I – BRUNO STEINBACH SILVA

 

Luiz Augusto Crispim

Fim de semana de olhos voltados para os longes mais remotos da cidade.

É o Varadouro, atracado ao Porto do Capim.

Mas é também no Reino do Varadouro que o sol morre mais cedo.

A cidade já não cabe mais nos limites que herdou de Frutuoso Barbosa e do Índio Piragibe.

De costas para o mar, quando chega à fronteira molhada do Sanhauá, já chega faminta e arfante. Andou mil sertões até aqui essa Parahyba mal empregada, de sonhos encardidos sob a crosta de lama, a morrer mais cedo de solidão, morte súbita de fome em terras de Canaã.

Morre mais cedo e mais pobre, tisnada do pó que os bueiros da fábrica despejam sobre a pele Severina da vidas desempregadas.

Nesse lugar, a cidade ainda tem feição de aldeamento. Aldeia de Nossa Senhora das Neves, padroeira dos mangues nevados de mentira, das beiras molhadas de verdade e doa alagados sem nome e sem destino.

Bendita sois vós, Senhora das Neves escuras, onde se enterram os caranguejos e sobrevivem os homens insepultos junto com suas esperanças cadavéricas.

Deste lado da cidade, o Sol chega mais tarde. Quando consegue chegar…

Muito vez, finda se esquecendo de chegar. Retarda-se pelo caminho e quando se oferece ao varadouro do mundo, já é hora de deitar.

Por isso, os viventes desse lugar vivem de olhos eternamente apagados e só enxergam o mundo à meia-luz do sol morrente.

São os legítimos herdeiros do lixão.

Debaixo desse monturo fumegante em fogo brando, ardem todas as suas esperanças cremadas no forno da rejeição.

Mas quando o Sol chega atrasado, apenas tem tempo de servir de testemunha da morte dos sonhos que são os primeiros a morrer. Muito antes da luz derradeira.

Triste viagem esta do sol tardejante e melancólico ao Reino do Varadouro. Mal chega ao Porto do Capim, onde deviam estar fundeados todos os sonhos de brancas neves, já é hora de morrer mais cedo em estado de lama.

Até parece que esqueceram de avisar à Virgem da Neves, envolta no seu manto azul virginal e puro, que nunca mais nevou – nem de mentira – nos manguezais do Sanhauá.

Cuidado, bondosa senhora, Rainha do Roger, Virgem Santa dos Lixões.

Cuidai que vos não salpiqueis dos flocos da lama infeliz das neves que não nevaram no Reino crepuscular do Varadouro, onde reina o Sol morrente porque nesse reisado só reina quem chega por último ou então quem morre primeiro.

©

* Foi poeta, jornalista, escritor e filósofo paraibano.

 

 

Revista Philipeia

Ano VI

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

 

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