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REINAÇÕES DE MNEMOSYNE

Beano Regenhaux*

 

                          O atlas de Mnemosyne – Aby Warburg

Cada etapa da minha vida com um homem morto nas costas. Para depois triunfar invicto de si mesmo. O peso das lágrimas germinam as aragens do ser, privado de nutrientes que preenchem a substância de si. Quantas vezes me assustei com minhas próprias atitudes, não reconhecendo o homem, a criatura, o menino que jazia ali incauto na penumbra e na névoa soprada pelas vozes da multidão, que instruindo as minhas vontades, indicava por controle remoto minhas atividades? Quantas vezes apercebi-me que o censor comunitário é mais forte que um sentimento de pertença ou identificação com um senso de coletivo? Quantas vezes tive que inventar meus próprios mitos para guiar minhas veredas na relva tortuosa?

Sangra o reino de si, arauto da memória. Numa valsa arredia da psiquê, com múltiplos candidatos que desejam cortejar seu destino. Em todo reino é preciso inventar muralhas, que filtram a passagem dos estímulos: a primeira habitação e reconhecimento de terreno se dá internamente com seus próprios mitos, pilhando a linguagem dos outros.

Tornar-se senhor do censor, para protagonizar um sensor, uma novidade tecnológica a ser exposta no reino. Articular a percepção, desviando toda censura, mediante a força dos mitos e tragédias escondidas da memória, perdidas em aconchegantes cavernas, extraviadas do reino. O censor comunitário que se apodera de si, precisa ser domado e rearticulado como metafísica do desterro. Usado como munição para autodefesa, como estratégia de embate e providência. A descoberta dos próprios mitos demanda calma e cautela. Pilhar a linguagem alheia é a primeira e mais imediata permissão e transgressão que o mundo lhe concede para sua própria reinvenção e intervenção nos arredores. Apropriando-se desse censor e dessa linguagem, descobre-se um casulo túrgido, coberto de pele, que urge ser habitado. Cultivado. Com os suores onerosos da memória e a aragem das lágrimas.

O território precisa ser guarnecido pela memória e os mitos particulares. Território fundado e reconhecido num Museu, inscrito na visita ao álbum de família. Este atlas de sintomas consaguíneos, deve ser extrapolado e pilhado das referências íntimas, no qual o segredo se esvai na esperança da afinidades eletivas, distribuídas por zonas que transbordam as muralhas do reino. Vazamentos de substância doméstica, casamentos exogâmicos. É preciso dominar a pastagem, a planície da lassidão dos costumes e conselhos paternos, da reprodução ancestral sem rédeas.

Com melhoramentos e mutações do ser provocados por corrupções do filho pródigo. Os mitos, melhorados, mudados, formados pela revelação dos segredos parentais, da apropriação da linguagem dos povos inimigos e seu compartilhamento com aldeias parceiras. Mitos cruzados com a memória inscrita na pele agredida que recua ou se entrega ao toque. Meu ser, como todo terreno acidentado, invadido por correntezas de seixos e sentimentos, se insinua na multidão englobante, e contém dentro de si um rebanho de gente digerida pela memória.

Toda vida social é uma celebração efusiva e redundante dessa multidão interna, herança que se difunde para a população exterior, onde cada elemento recebe um mesmo tipo de amostra. São multidões e multidões que despencam de penhascos e se entrechocam. A mesma repetição enervante das agruras da terra infértil que aflige a população campesina, buscando soluções mágicas e cíclicas ao desespero da subsistência. Desembainhe a espada, corte a redundância dos exércitos de sujeitos imbuídos em lhe roubar os instantes mágicos de encontro com seu arcabouço mitico. A vida interior é um reino que sangra, que se recolhe, mas que arma terrenos peçonhentos.

Quantas vezes você não presenciou um próprio abismo de vozes que escorrem de casarões centenários e das pessoas oferecidas ao sacríficio de Prometeu? Quantas vezes não me reconheci por sugestão dessas vozes que me impeliram a certos atos? Quantas vezes não tive a consciência de mim, roubada pela tradição ou pela sua versão torpe, os acordos tácitos e contratos da modernidade industrial? Quanta poluição cabe no meu reino?

A poluição que se infiltra e desperta, essa é a que tem lugar cativo. Que estava numa posição de aparente degeneração, para as malditas vozes. A que você não percebeu, pois estava lá encolhida no canto ou pela sua condição imatura. O despertar ritual dos mitos internos da memória que acionam as poluições e restos de conselhos das vozes, matéria-prima das transgressões da linguagem, que dissolvem todo anacronismo, cruzando gerações e assassinando a parafernália ancestral. O pó de gente nas mobílias,  suspenso pela criança  que renasce no adulto como travessura da memória.

Beano Regenhaux é doutorando em Antropologia pela UFPE e curador independente de arte.

©

Revista Philipeia

Ano VI

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

 

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