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RIMA, RITMO E CADÊNCIA: PRESENÇA DA AUTORIA FEMININA NA POESIA DO POVO (ANOTAÇÕES)

 

Aderaldo Luciano

Xilografura de Ciro Fernandes

 

 

Em 1929, Francisco das Chagas Batista, pai de Maria das Neves Batista Pimentel, a pioneira do cordel, publicou a antologia Cantadores e Poetas Populares, pela Popular Editora, de João Pessoa, Paraíba. A editora é citada por Mario de Andrade em seu livro de notas de viagem O Turista Aprendiz. Na abertura da antologia, o organizador tece críticas a Leonardo Motta, Gustavo Barroso e Rodrigues de Carvalho pela omissão do nome de excelentes poetas representantes da poesia do povo em seus livros sobre o cancioneiro nordestino. Essa antologia é importantíssima porque, pela primeira vez, um poeta se contrapõe aos pesquisadores mais respeitados da época, chamando a atenção para uma produção que ficara à margem e para as incongruências de suas obras. Mas nessa antologia não há nenhum poema de autoria feminina.

Em 1964, 35 anos depois da inauguração antológica de Francisco das Chagas Batista, a Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, apresenta sua primeira antologia, a Literatura Popular em Verso. O organizador, Manoel Cavalcanti Proença, lidando com o acervo da casa, apresenta a matriz de vários folhetos, romances em cordel, já devidamente imortalizados na memória do povo do nordeste, primeiro, e no seio do sudeste, visto que a editora Prelúdio, de São Paulo, já há dez anos, enriquecia seu catálogo com as “histórias do norte”. O Tomo II dessa antologia foi reservado aos Estudos, nele Sebastião Nunes Batista, filho de Chagas Batista e irmão de Maria das Neves, faz a célebre restituição de autoria aos títulos de Leandro Gomes de Barros. Mas nessa antologia não há nenhum poema de autoria feminina.

13 anos depois da antologia da Casa de Rui Barbosa, em 1977, a Fundação José Augusto, do Rio Grande do Norte, publica a Antologia de Literatura de Cordel. O nome “literatura de cordel” começa a se estabelecer na referência aquilo que chamou-se poesia popular em Chagas Batista e “literatura popular em verso” com Manoel Proença. O organizador é Sebastião Nunes Batista, o mesmo filho de Chagas Batista e irmão de Maria das Neves, autor da Restituição de Autoria dos folhetos de Leandro, citado no parágrafo anterior. O primeiro texto, em forma de apresentação, é de Manuel Diégues Júnior que apresenta nosso cordel como herdeiro da “literatura oral tradicional” cuja origem seria a Península Ibérica. O próprio organizador referenda esse viés, embora afirme que tratam-se de “estórias rimadas por poetas populares do Nordeste”. Mas nessa antologia não há nenhum poema de autoria feminina.

Em 1978, a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará produz, em dois volumes, sua Antologia de Literatura de Cordel. O nome “literatura de cordel” se estabelece na referência aos nossos folhetos e o Ceará consolida a vanguarda na produção cordelística. Com bons textos, testemunhos e biografias dos poetas participantes, a antologia traz uma boa bibliografia sobre a poesia do povo, mas ainda a vincula ao folclore, mesmo sabendo-a não anônima e muito bem datada. Boa iconografia, cita o diálogo do cordel com a xilogravura e apresenta pela primeira vez o nome de Pedro Bandeira, considerado o príncipe dos poetas populares. Bandeira inaugura a presença do poeta cantador que também produz cordel, cujos representantes, como João Melquíades, haviam nascido no séc. XIX e ele nascera em 1938, ano de aparecimento de Altino Alagoano (Maria das Neves Batista Pimentel).  Mas nessa antologia não há nenhum poema de autoria feminina.

Em 1982, o Banco do Nordeste, na comemoração dos seus 30 anos, promove sua antologia chamada Literatura de Cordel. Em sua Nota Prévia, Gilberto Freyre elege-se “o mais doutorado… que não ostenta seus títulos doutoralmente ou magistralmente acadêmicos”.  Ao que completa-se como aquele que enfileira-se ao lado dos que mais escutam, pensam, sentem e escrevem sobre “seus compatriotas rústicos e até analfabetos, através da chamada Literatura de Cordel”.  Inaugura-se a apresentação dos poetas como desprovidos de letras e atributos estéticos, mas que, mesmo assim são fundamentais à cultura do Nordeste. Ergue-se e eleva-se um muro entre o que é “popular” e o que é “erudito” em literatura e arte. Também pela primeira vez se apresenta o estudioso Raymond Cantel como definidor do que seja o cordel, citado por Veríssimo de Melo no importante artigo Literatura de Cordel, Visão Histórica e Aspectos Principais. Mas nessa antologia não há nenhum poema de autoria feminina.

Em 2017, as editoras Veloso e Nordestina Editora reuniram 53 poetas de cordel em sua antologia Cordelistas Contemporâneos. É o que há de mais representativo da produção atual no que se diz respeito ao universo cordelístico. Figuram nomes que abrangem boa parte do território brasileiro e é possível criar-se um mapa dessa produção. O idealizador Zeca Pereira convidou os poetas que bancaram, eles mesmos, os custos e os trabalhos de confecção. Também é possível observar-se o tipo de produção e o apuro técnico dos poetas, os temas e a presença da poesia. Nessa antologia aparece o nome de 6 (seis) mulheres contrapondo-se à supremacia de 47 autores. Podemos contá-las nos dedos Anne Karoline, de Campina Grande-PB; Auri Lopes, de Fortaleza-CE; Cleusa Santo, de Tarumã-SP; Jennifer Amorim, do Cabo de Santo Agostinho-PE; Madalena Castro, de Bom Jardim-PE e Rita Cruz, de Acaraú-CE. Mas saliente-se, não houve seleção nem trabalho de editoria, houve convite e cada um teve que pagar por sua participação.

Em 2018, a Academia Sergipana de Cordel reuniu 17 poetas mulheres em sua antologia Das Neves Às Nuvens – I Antologia das Mulheres do Cordel Sergipano. O título Das Neves às Nuvens remete claramente à pioneira do cordel brasileiro Marias das Neves. É um marco. Nenhuma delas constou em qualquer antologia anterior. Algumas delas militantes do cordel há vários anos. Outras recebendo o bastão e a responsabilidade da continuação. Isso é um emblema para o Cordel Brasileiro, uma revolução. O retrospecto dominado pela presença da autoria masculina é quebrado e a presença feminina se consolida. Necessário urgente que o Brasil reconheça esse trabalho, essa luta e essa conquista em tempos tão complexos. Pede-se a todos os poetas do cordel, a celebração, a festa e não, nunca, o embate, o boicote, o medo. As mulheres do cordel sergipano pedem passagem e gritam com sua voz firme e entoada, com cadência, ritmo e propriedade: NESSA ANTOLOGIA HÁ A PRESENÇA DAS MULHERES COMO PROTAGONISTAS DE SUAS VIDAS DE POETA. A Academia Sergipana de Cordel tenha vida longa. Às mulheres, VIDA.

©

* Escritor, poeta e doutor em Literatura.

 

Revista Philipeia

Ano VI

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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