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DO AMOR QUE MUDA, OU: A NATUREZA DO AMOR

Patativa Moog*

 

A sabedoria popular é formada a partir das experiências coletivas com o cotidiano, sempre a posteriori. As suas verdades, no entanto, e geralmente, são aceitas a priori. Da sabedoria popular, pouca coisa é tão rica quanto os cordéis1 que são encontrados nas feiras-livres, bancas de revistas e livrarias em todo o Nordeste brasileiro, principalmente2. Em um desses cordéis, autoria de Manoel Monteiro, o desencontro amoroso é tratado e retratado com humor e maestria. Veja as duas primeiras estrofes de No vai e vem do amor:

Quando eu falava com ela

Ela não me respondia,

Quando ela percebia

Que eu vinha na rua dela

Sequer na porta ou janela

Ela nem aparecia,

Quando eu chorando pedia

Ela sorrindo não dava

Quando eu ia, ela voltava

Quando eu voltava, ela ia.

Muito difícil dar certo

Um namoro desse jeito

Quando um quer coxa e peito

E o outro nem chega perto;

Vender areia em deserto

Eu vi logo que não dava,

Quanto mais a procurava

Mas a peste escapulia

Quando eu voltava, ela ia

Quando eu ia, ela voltava.3

O amor romântico, para sobreviver enquanto vive equivalente ao “ser eterno enquanto dure”, do Vinicius –, precisa da mudança, ser/estar sempre devindo: não, e sempre; contrário a si, por si… (“Tão contrário a si é o mesmo amor”)4. Pois que, senão, aniquila-se já/ainda no nascedouro.

Também Alain de Botton, em A natureza do amor5, respirando os ares d’O banquete de Platão, no discurso de Sócrates (reproduzindo ideias de Diotima6), faz coro ao poeta popular – e respalda o dito simplificado em uma análise não tão simplificada. No miniconto, quem aparece é Ben, com as lembranças de suas primeiras aventuras amorosas, até às atuais – já sem o encanto inicial comum à juventude de toda relação amorosa: o tempo em que alimentava a certeza profunda de que aqui – entre as centenas de seres cuja presença no campus deixavam-no indiferente – estava uma criatura cuja existência, de várias formas, seria correspondente à sua própria, que compartilharia seus entusiasmos, notaria as comoventes vulnerabilidades e aliviaria sua solidão infindável.7

A mulher amada era Helen Veale. A mesma que ele perseguiria por todos os lugares, mendigando uma mísera centelha do seu olhar; a mesma a quem ele jamais possuiria, vendo-a fugir do seu mundo, de sua vida, e casar-se com outro – e ficar gorda, gerando filhos que não eram seus, exibindo-os em álbuns do Facebook, com aquele orgulho que algumas mulheres têm, triunfantes por “cumprirem a única função à qual foram colocadas neste mundo: parir.”8

Mas o amor, ao apaixonado Ben, “significava ansiedade, incapacidade de comer, uma doença, a contínua fantasia sexual e, acima de tudo, uma impressão da retidão única e da preciosidade da amada.9” E o fato de não ter coragem de se apresentar a Helen e declarar os seus sentimentos não o impedia de conhecê-la naquele que é o melhor lugar em que se pode conhecer a pessoa amada: na fantasia10. Mas haveria muitas outras, no início da sua vida adulta.

Uma dessas foi Clare, “uma violoncelista que morava no andar de baixo, a quem ouvia praticando concertos de Bach de manhã cedo”, e Beth, “que era operadora de caixa ao lado dele em um supermercado onde tinha trabalhado durante as férias de verão do segundo ano”, e Rachel, “a irmã mais nova de um amigo”, e uma mulher sem nome que carregava um saco de laranjas da Harolds Food Halls, que lhe sorriu com cálidos olhos castanhos, quando ele saía da estação de metrô Holborn. “Os maiores românticos”, Botton diz, “devem ser aqueles que não têm ninguém em particular com quem ser romântico.11” É platonismo puro, novamente. É a questão do amor como desejo e falta, e perspectiva. Para Ben, depois de outras tantas relações, “o amor parecia ser algo mais fácil de se experimentar se houvesse a certeza de que ninguém concreto ou presente retribuiria a emoção.12” Botton, aí, faz coro com André Comte-Sponville, interpretando a Diotima de Sócrates, conforme Platão, e associando-os a Schopenhauer13 e Proust, dentre outros: “Lembrem-se de Proust em Em busca do tempo perdido” – Comte-Sponville diz –:

“Albertine presente, Albertine desaparecida…” Quando ela não está presente, ele sofre atrozmente: está disposto a tudo para que ela volte. Quando ela está presente, ele se entedia: está disposto a tudo para que ela vá embora. Não há nada mais fácil do que amar quem não temos, quem nos falta: isso se chama estar apaixonado, e está ao alcance de qualquer um. Mas amar quem temos, aquele ou aquela com quem vivemos, é outra coisa!14

Ama-se a fantasia, que se alimenta no desejo, que é a falta… e a perspectiva (ou esperança, como alguns preferem). Mas amor romântico realizado é amor perdido, fadado à perdição.

Ben agora estava casado com Eloise, tinha dois filhos com ela: uma menina de seis anos, e um menino, com quatro. Morava em um subúrbio ao norte de Londres. A presença de Eloise, no entanto, em muitos momentos da sua vida, era igual a de um móvel imóvel depositado na sala, e ao qual somente se procura quando necessário.

Ele tinha, por vezes, um profundo sentimento por Eloise, mas, se analisasse o padrão de suas emoções, teria que admitir que seu desejo só aparecia em um contexto determinado. Apesar de quase uma década ter se passado, o epicentro do seu amor continuou sendo o tempo em que Eloise era quase uma estranha, logo depois do primeiro encontro em um bar em Notting Hill, quando conversaram sobre a tese que ela tinha acabado de entregar na universidade (rituais de parentesco em Bornéu); ela, brincando, o acusou de ignorar sua amiga, e ele imaginou como seria abrir os botões da blusa de algodão.15

O tempo em que ele mais a amou foi aquele em que a sua presença não era coisa vulgar, aí, dada à mão; como nos primeiros encontros, em que ela insistia que eles deveriam esperar mais um pouco, enquanto ele enfiava a mão dentro do seu jeans; ou como quando passaram um final de semana em Yorkshire, que foi onde transaram pela primeira vez. Depois, em suas lembranças, ele não sentia mais o amor, não sentia nada… Eloise, um móvel na sala.

Um dia ela caiu na rua, quando passeava com Hannah, a filha mais velha. Levada ao hospital, diagnosticou-se uma intoxicação aguda no sangue, e o médico lhe disse que ela chegou o mais próximo que se pode chegar da morte. Eloise estava na UTI do Hospital St Mary, respirando dolorosamente com uma máscara de oxigênio, tinha tubos enfiados em seus braços e um monitor cardíaco sob a camisola. Assim, e na iminência de perdê-la, Ben a amou, novamente. Como viveria sem ela, se ela morresse? Onde encontraria alegria? Foram tantos os momentos bons e ruins com ela, e isso, de certo modo, fazia com que ela fosse parte dele e… Daí pensou também que, se ela morresse, a amaria para sempre, definitivamente; mas, se se recuperasse, como tudo indicava que fosse ocorrer, voltaria a ser o que era antes: um móvel na sala16. Eloise presente; Eloise desaparecida.

Então, Ben sentiu a dificuldade peculiar de amar alguém que não está comprometido com outra pessoa, desinteressado, saindo da estação em direção a um destino desconhecido ou inexistente. Ele viu que o maior desafio para o amor poderia nascer da realização do surpreendente sonho inicial: que se pode viver e possuir o ser amado até o fim.17

O que não temos, o que não somos, o que nos falta… eis os objetos do nosso desejo, do nosso amor18. Parece que a saúde do nosso amor repousa no caminho do meio – mas, quem conhece/suporta tanto equilíbrio?

 

 

NOTAS:

1 “O cordel usa tudo, ou quase tudo, como motivo para criação dos folhetos dos poetas populares. Desde os romances tradicionais – Carlos Magno e os Doze Pares de França, a Imperatriz Porcina, João de Calais etc –, que nos chegaram da idade média, através do romanceiro ibérico, sendo aqui adaptado à ecologia e aos sentimentos nordestinos, até assuntos históricos brasileiros, fatos ligados à religiosidade, ao misticismo, à vida campestre, crimes, acontecimentos mais recentes da atualidade universal.” (MEDEIROS, Irani. Introdução. In: _____. [Org.]. BARROS, Leandro Gomes de. No reino da poesia sertaneja. João Pessoa: Idéia, 2002. p. 13. [Col. Boi Misterioso]).

2 Na introdução que faz à coleção Biblioteca de Cordel, da editora Hedra, Joseph M. Luyten afirma que, “embora a imensa maioria dos autores [de cordéis] seja de origem nordestina, não serão esquecidos outros polos produtores de poesia popular, como a região sul-riograndense e a antiga capitania de São Vicente, que hoje abrange o interior de São Paulo, Norte do Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais e Goiás.” (LUYTEN, Joseph M. Biblioteca de cordel. In: SILVA, Minelvino Francisco. Cordel. São Paulo: Hedra, 2000. p. 5-6. [Biblioteca de Cordel]).

3 MONTEIRO, Manoel. No vai e vem do amor. Campina Grande, PB, 2004. p. 1. Cordel.

4 Trecho de “Monte Castelo”, letra de Renato Russo (1960-1996), na 7ª faixa do álbum “As quatro estações” (EMI, 1989), da banda Legião Urbana. O trecho é uma referência ao soneto “O amor é um fogo que arde sem se ver…”, de Camões (1524?-1590), que plagia Petrarca (1304-1374). Cf. CAMÕES, Luís Vaz de. Camões: verso e prosa. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 32. (Col. Leitura).

5 BOTTON, Alain. A natureza do amor. In: Bravo!, São Paulo, ano 13, n. 171. p. 96-98. 2011.

6 Cf. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 1-53. (Col. Os Pensadores).

7 BOTTON, 2011, p. 96.

8 Cf. SCHOPENHAUER, Arthur. O instinto sexual. São Paulo: Edições INEDOS, 1951. p. 44-66.

9 BOTTON, 2011, p. 96.

10 “A falta de informação sobre Helen não fora um impedimento para os seus sentimentos – na verdade, possibilitou sua intensidade particular. Assim como podemos facilmente identificar um rosto com apenas alguns traços de lápis e construir a ideia de uma personagem fictícia com apenas algumas linhas, seu conhecimento fragmentado foi suficiente para construir o retrato de alguém que poderia passar umas férias com ele nas ilhas gregas, alguém com quem ele dividiria um sorriso cúmplice ao final de festas, com quem faria amor em trens e compartilharia o resto de sua vida.” (BOTTON, 2011, p. 96).

11 BOTTON, 2011, p. 96.

12 BOTTON, 2011, p. 96.

13 “Sua vida oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio.” (SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 402. [IV, 57]).

14 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 34. Mario Quintana também trata sobre a dinâmica da presente ausência do amor ao objeto amado, concreto: “É preciso a saudade para eu te sentir / como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida… / Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista / que nunca te pareces com o teu retrato… / E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!” (QUINTANA, Mario. Presença. In: _____. Quintana de bolso: Rua dos Cataventos e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 59. [Col. L&PM Pocket, 71]).

15 BOTTON, 2011, p. 97-8.

16 “Tinha entendido que nunca mais conheceria significado ou alegria sem Eloise ao seu lado – uma sensação que, no entanto, diminuía estranhamente quanto mais parecia que esse privilégio lhe seria de fato negado.” (BOTTON, 2011, p. 98).

17 BOTTON, 2011, p. 98. “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.” (Bernard Shaw, citado em: COMTE-SPONVILLE, 2001, p. 36).

18 PLATÃO. O banquete, 200 e.

 

IMAGEM: Cena do Filme “O Sacrifício” (1986), Tarkovsky.

 

* Patativa Moog é escritor e músico, doutor em Teologia (PUC-RS) e em Filosofia pelo Programa Integrado de Doutorado em Filosofia (UFPE-UFPB-UFRN).

 

©

 

Revista Philipeia

Ano V

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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