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MÚSICA, POLÍTICA E O TEMPO CINZA DA PRIMAVERA DE 2018

Ana Monique Moura *

 

Se formos buscar qualquer informação sobre o que seja a música, geralmente se dirá que é a arte de combinar ou expressar as sensações através de sons. Eu gosto muito dessa definição que, comprova-se na maioria dos compêndios, é carregada do sentido fornecido pelo Romantismo musical, e pode ser aplicado a qualquer música. Mas é bom lançar a ressalva: costumamos atrelar ao sentido de “visão romântica” das coisas um tom pejorativo, por muitas vezes ser algo fantasioso ou ingênuo. Porém, no caso da música, talvez a visão romântica não seja tão “romântica”, no sentido pejorativo, assim. É que o aspecto romântico da apreensão da música colocado aqui é o de ela fazer referência a uma “narratividade sonora das emoções”, capaz de encaixar-se em todas as sonoridades musicais.[1]

Esta arte de combinar sensações através da música reverbera não só a representação do nosso campo sensível, como também segue além da representação, indo até a vivência do que é representado em termos de sensações. Assim, uma melodia que se proponha triste, pode não só representar a tristeza como também provoca-la. Os exemplos podem ser incontáveis e bem óbvios, então não precisaria seguir a diante com isso. Nietzsche já detectara tal poder da música e, por isso, a defendia como sensação vivida, ou vontade mesmo, ao invés de vontade asceticamente apenas representada na música, como propunha Schopenhauer. Assim, já percebera Kant no § 53 de sua relevante obra sobre estética, Crítica da faculdade do Juízo, a música tem uma capacidade de representação subjetiva expandida, que a distingue das demais artes.

Como animais sensíveis que somos, como animais plurais em sociedade e, da mesma forma, como animais políticos que nos tornamos (para partilhar da interpretação do “ser político” de Hannah Arendt, ou seja, tomar a política como construção e não imanência ontológica), atribuir uma função política à música nos conduz ao tema da política dos afetos. Atesta-se: na música, estamos no campo do sensível auto-referente.

Mas por que não falar sensações, como antes, ao invés de afetos? O termo afeto é bem mais eficiente por esta palavra representar melhor o processo de “afecção” ou “afetação” diante da experiência. Assim, a música tem um papel exemplar de relacionar-se com as sensações enquanto campo dos afetos, seja mediante a representação delas, seja mediante sua provocação.

A política, desde muito, já procura utilizar esse tema da música e dos afetos para promover determinados afetos civis nas pessoas. Isto se mostra desde Platão, que, na obra A República, se refere à mousiké como forma de incentivar ou não incentivar – a depender de seu uso – a eficácia de certos setores sociais e suas respectivas funções.

O uso político da música pode ter vários fins, que podem ir desde um hino para enaltecer uma nação, como o próprio hino brasileiro, a uma sinfonia para enaltecer a condição humana e unifica-la nisso, como a enigmática Ode an die Freude de Beethoven (motivo, inclusive, de um belo estudo filosófico feito por Zizek, e que recomendo a busca), passando ao papel da exposição das vidas periféricas de uma cidade, a exemplo do samba em sua origem.

Puxando o tom dessa última consideração, vale dizer que o samba já foi proibido no Brasil. Me refiro ao real samba. E isso pode parecer inconcebível para um país democrático. O samba do operário, do trabalhador, da mulher periférica em suas condições tristes, heroicas e até – como não? – mal lidas pelos próprios sambistas dentro do clássico machismo, eram rechaçados pela indústria fonográfica.

Quando proibido o samba, o Brasil vivia a ditadura de Vargas. O samba engomado, correto, ponderado, que enaltecesse a nova classe média de trabalhadores conformados era permitido nas rádios. O samba de preta e preto das favelas e injustiçados não. Assim, outros fatores que não apenas os plenamente musicais entram nesse problema sobre a coibição da circulação do samba, como os de origem étnica, a repulsa à negritude e às artes de matrizes africanas.

O DIP (departamento de Imprensa e Propaganda) da ditadura de Vargas atuava como órgão de censura. O samba, como música de morro, de favela, representava um perigo estético e político para o ideal fascista de nação brasileira que só viera a ser derrotada com redemocratização, dentro de um processo longo e doloroso para um seguimento civilizatório que teve seu auge e triunfo com os tempos de Lula e agora sofre ameaça com novas sombras de fascismo.

Outubro de 2018: vivemos um tempo cinza, em que, após as conquistas do processo de redemocratização brasileira, uma ditadura é almejada pela massa em sua “servidão voluntária” – para usar um termo bem cunhado por La Boétie –, embora uma parcela considerável do povo ainda se esforce por manter um país democrático.

Não estamos em uma era Vargas, mas certamente vivemos uma ditadura maquiada, camuflada ou, se não isso, em vistas de nascer. É um ovo da serpente.

Vale antes a ressalva de que em tempos sombrios é necessário abandonar as teias indeterministas, em que o sim e o não se entrelaçam, o bem e o mal se confundem. Em tempos difíceis, se invoca soluções ou dissoluções. Por isso, acho válido invocarmos uma música de Nelson Cavaquinho, que representa essa urgência de separar, digamos, o joio do trigo, e achar a solução na dureza de um tempo cinza como o nosso. Me refiro ao samba “Juízo Final” que, apesar do nome, não precisa ser entendida como referência ao apocalipse. Em outros termos, não precisa ser reduzida ao sentido teológico do cristianismo. Enfim, não se fala em Deus, em cristianismo, em apocalipse. Se canta conceitos de bem, mal, amor e conceitos poéticos e metafóricos como o sol, o brilho, o coração.

Nelson Cavaquinho, década de 70.

Mas não se questiona ou analisa tais conceitos na música. Se faz ode ao “bem”, e não é qualquer bem, o bem privado ou singular, invisível, mas o bem em comum, público, real. Daí que a música tenha uma envergadura legitimamente política e, acrescento, urgente, para o tempo em que se anuncia o retorno da falta de sentido deste “bem” em comum. Nelson Cavaquinho nos fornece a possibilidade de um sentido em tempos nos quais o termo “sentido” é destruído com tiros e barbárie. Daí que não questiona os conceitos que invoca na música, apenas os lança e nos fala da função imanente deles, fora da teia da indeterminabilidade pós-moderna e dentro da clássica teia maniqueísta, metafísica, posta como solução e resposta. A música O juízo final é a melhor composição para se invocar o inverso da confusão e da barbárie. É um convite ao campo sensível dos afetos dos quais se carece o momento. Deixo-vos agora com esta música, sem analiticidade acadêmica, sem apego fetichista à dúvida e à ausência do sentido.

Espero que possam entoar, nesse tempo cinza, o samba enquanto uma tristeza que sorri, para termos forças de enfrentar o fascismo com música, outra vez. Venceremos? Pode tardar, mas sim, venceremos.

Escute “Juízo Final” de Nelson Cavaquinho clicando aqui.

 

[1] Essa narratividade não se refere à narratividade presa ao conceito da expressão da letra, mas ao sentido sonoro de uma narratividade imanente no próprio som musical. Na musicologia e na filosofia da música, fala-se muito em “música absoluta” quando o assunto é uma espécie de “música pura”, sem letra, tendo sua narratividade sonora própria e auto-refente. Não estamos de acordo, porém, que uma música é menos música quando avança para o plano das letras e se atrela a ele, como fizeram alguns autores como Schopenhauer. Inclusive, o que move esse texto é fazer referência conclusiva ao samba, carregado de letras e propor uma outra abordagem da narratividade sonora em sua cópula com a narratividade da letra.

©

* Ana Monique Moura é PhD pelo Programa de Doutorado Integrado em Filosofia (UFPE- UFPB-UFRN) e pela HGB (Leipzig, Alemanha).

 

Revista Philipeia

Ano V

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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