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CURADORIAS DA CASA DA PÓLVORA (PARAHYBA)

Sidney Azevêdo*

 

 

PERFORMANCES

 

 

YASMIN FORMIGA

Yasmin Formiga traduz por meio de obras polifônicas, emergindo de sua aparente fragilidade etérea, a resistência feminina em total ebulição semântica. Ela denuncia com veemente materialidade o descaso de alguns formadores de opinião no tangente aos abusos e às múltiplas formas de violência, sejam elas veladas, sofisticadas, físicas, psicológicas, explícitas ou vulgares, sofridas diariamente pelas mulheres nos mais diversos cenários e situações, muitas vezes ocultadas sob a égide da moral espúria e dos discursos machistas, dogmáticos, ou mesmo “culturais” que permeiam ideologicamente a sociedade patriarcal.

Neste contexto, nossa artista incorpora as forças de uma doce e sensível guerreira das micropolíticas avassaladoras que, como a cubana Ana Mendieta, elabora seus trabalhos a partir do sagrado feminino, bem como do arquétipo universal da fêmea em suas múltiplas manifestações sociais, numa abrangência cosmovisionária aglutinante de simbologias e atitudes embasadas em práticas oriundas de um certo xamanismo alquímico que ocorre no âmbito do sujeito profundo e reverbera em levantes revolucionários onde a hermenêutica dá espaço pertinente ao individuo político que declara: “…Esse grito não é só meu, mulheres, esse grito vem de todos nós!”

Desse modo, Yasmin vem explodindo barreiras e abrindo portas para as nossas percepções, propondo possibilidades de transmutarmos, tomando a arte como instrumento de desconstrução do establishment, a angustia e a inércia crônicas da sociedade estereotipada em respiração forte, fluida e criativa, em suma: libertária.

Suas pinturas, performances, fotografias, desenhos, objetos, impressões, postagens e todos os hibridismos que venham a surgir desse laboratório, são as faces visíveis e finitas de uma falante reflexiva que se sabe mais e que pode mais ainda. Tudo aqui está em processo de criação e simultaneamente maturado, tudo nela é ético e propositivo, visto que as materializações dessa tênue alma das matas e das urbes são de imensa potência transformadora e atualidade incontinentes.

 

 

STENIO SOARES

 

Transbordamento da performance

 

“Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito”.

Nietzsche

 

Presenciar a complexa performance do artista paraibano Stênio Soares me instigou, como nos primeiros anos de estudo de história, filosofia e crítica de arte na UFPB, a repensar acerca das inúmeras e significativas maneiras de acessar e fruir uma obra de arte ou experiência estética, considerando tanto a inevitável polifonia oriunda das inter-relações que se estabelecem entre os interlocutores quanto as peculiaridades do que é posto no tempo e no lugar dessa experiência multissensorial, sobretudo, em se tratando de uma linguagem polissêmica a priori, carregada de vivências intersubjetivas, de memórias e de intrínsecas especificidades tanto materiais quanto conceituais.

Intitulada Preto s/ preto (lê-se “preto sobre preto”), essa ação performática resulta das vivências da realidade social que o artista denuncia na hercúlea série de trabalhos que compõem seu Projeto Cálice! Ou Negras Memórias Construção n.3: um projeto-obra elaborado em três programas de trabalhos desenvolvidos como propostas integrativas. Os três programas de trabalho mergulham na questão do genocídio da população negra no Brasil e como esse problema afeta o próprio artista como homem negro com todas as implicações históricas (memórias), sensíveis e sociais que ele vivencia cotidianamente. Projeto Cálice! Ou Negras Memórias Construção n. 3 emergiu da interdisciplinaridade de linguagens que constitui o repertório expressivo do artista. O processo poético de Negras Memórias foi iniciado como expressão cênica, mas em sua fase atual, nessa construção n. 3, transbordou a problemática teatral, restou como pulsação interdiscursiva, reverberando num diálogo com as linguagens do objeto, da pintura, do vídeo, da intervenção urbana, da performance, do desenho e da escrita. Resultando, portanto, num rico transbordamento polifônico bem representado por meio da palavra Cálice!, cuja interjeição é signo daquilo que está jorrando para fora do receptáculo, daquilo que excede a pulsão artística enquanto forma polifônica e conteúdo interdiscursivo.

Ao modo ou inspiração dadaísta, em conformidade com o que pensa, fala e executa Stênio Soares, Cálice! é uma “brincadeira” com a polissemia da palavra, especialmente alusiva ao que Gilberto Gil e Chico Buarque já haviam prenunciado na canção homônima, ao problematizarem poeticamente as sutilezas da opressão social: “Como beber dessa bebida amarga / Tragar a dor, engolir a labuta / Mesmo calada a boca, resta o peito / Silêncio na cidade não se escuta”. Conclui nosso artista: “Não obstante, quando mergulho na coisa do genocídio da população negra (esse cálice de dor) estou também falando do silenciamento (do calar-se ou ser calado)”.

Projeto Cálice! Ou Negras Memórias Construção n. 3 integra, portanto, três programas de ações abertas, três trabalhos processuais imersos no fundamental conceito semiótico de “obra aberta” de Umberto Eco, considerando as formas de indeterminação ou transbordamento das poéticas contemporâneas. Um dos work in progress que constituem  o “programa” performático de Stênio Soares intitula-se “Marca-Dor”, que é uma intervenção urbana e performance de galeria, realizada como um dispositivo poético desencadeador de memórias e de tudo que suas imagens e sensações evocam. O segundo work in progress aberto foi o Cálice!, que é uma instalação performática. Neste trabalho o artista performa com uma espécie de ready-made (mais uma vez nos lembra Marcel Duchamp), uma pilha de pneus sobre a qual ele é dependurado de ponta cabeça, batizando o objeto e o próprio projeto-obra como um todo. O terceiro e último work in progress foi aberto no dia 12 de janeiro deste ano na Casa da Pólvora, o programa Preto s/ preto. As imagens relativas a esse work in progress podem ser acessadas livremente na internet, por meio do sítio www.projetocalice.com.

Em Preto s/ preto, o artista cria um jogo de construção de anagramas a partir das letras A, D, I, S. Stênio nos confidencia que a escolha arbitrária das letras é uma referência ao sobrenome do artista paraibano Antonio Dias, autor da obra Faça você mesmo. Território Liberdade (1968). O jogo com o anagrama formado abre a possibilidade de ações-performances, ou seja, são dezesseis possibilidades de anagramas que se revelam, decorrendo daí a possibilidade da realização de dezesseis performances correspondentes. Trata-se de um programa de ações poéticas através das quais ele explicita as condições existenciais difíceis, e por vezes insuportáveis, experimentadas pela população negra brasileira. Da experiência que vivemos na Casa da Pólvora, no último mês de Janeiro, a audiência de colaboradores escolheu o anagrama AIDS, em que o artista pinta os dados estatísticos denunciadores: 60% das mulheres e 55% dos homens infectados por HIV no Brasil são pessoas negras. (https://unaids.org.br/2017/11/dia-da-consciencia-negra-racismo-e-discriminacao-ainda-reforcam-vulnerabilidade-da-populacao-negra-ao-hiv/).   A performance revela um dos mais diversos panoramas vividos pelos cidadãos negros e cidadãs negras, ela se desenvolve por deliberação do exercício pleno da cidadania e da liberdade cultural, denunciando o acesso a serviços essenciais e o direito fundamental da saúde.

É interessante ressaltarmos contextualmente que o gênero artístico da performance tem uma ancestralidade nos ritos e mitos da humanidade, nas manifestações culturais e espirituais dos mais diversos povos e épocas. Como toda forma de linguagem artística, a performance tem seus precursores e pressupostos que como tais manifestaram elementos de sua sintaxe já no inicio do século passado, como por exemplo o icônico Marcel Duchamp, sendo o expoente máximo do dadaísmo, movimento artístico caracterizado por atitudes marcadamente político conceituais e de modo embrionário performáticas.

Stênio se insere densamente no panorama universal da performance, descendendo da genealogia de performers brasileiros como Flávio de Carvalho e Hélio Oiticica, dentre outros. Compondo com pertinência o panorama da nossa performance contemporânea, Stênio (um dos poucos performers paraibanos, visto que atualmente temos ainda uma carência local nesta linguagem especialmente híbrida) trata em suas Negras Memórias de assuntos entranhados na polimorfa e estratificada sociedade brasileira, posto que sua práxis e sua preocupação poético-estética e política (ética) permeia a problemática das relações socioeconômicas e culturais no âmbito dos discursos inter-raciais e de gênero, bem como do discurso crítico-artístico no cerne do hibridismo intersemiótico que constitui os múltiplos textos e interpretações que emergem da experiência performática.

Perece difícil compreender uma performance sem imergir nela junto ao artista, assimilando seus pressupostos teóricos e seu processo poético, tudo que a precede e a transcende, bem como ser permeado por sua fenomenologia; no entanto, há uma linguagem subjacente que de um modo intuitivo engloba nossa percepção multissensorial da experiência estética. É esta percepção apriorística do ser integral que magnetiza os sujeitos em torno da performance, algo de atávico é evocado por Stênio e bem trabalhado por ele em suas construções interativas. Há uma forte presença ritual e tautológica em Preto s/ preto, que nos conduz ao universo simultaneamente político e espiritual que metamodela a expressividade interdisciplinar do artista e recorre a ancestralidade da linguagem da performance.

Nessa ação que partilhamos, Stênio Soares desenha e escreve com seu próprio sangue diante do público, contando com a assistência de uma equipe especial e a interação dos presentes. Assim ele plasma com seu plasma os desígnios de seu discurso reverberante, e num posterior arroubo de síntese conceitual profetiza numa conversa coloquial comigo, testemunha multidimensional de sua performance: “o transbordamento do cálice continua… em encruzilhadas que a gente abre e deixa tomar vida.” 

©

* Sidney Azevedo: Artista. Curador. Mestre em Artes Visuais pela UFPB.

 

Revista Philipeia

Ano VI

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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