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O MUSEU HISTÓRICO DA QUINTA DA BOA VISTA E A URGÊNCIA DE UMA POLÍTICA NACIONAL DE MUSEUS

Tiago do Rosário Silva*

O incêndio do Museu Nacional, resultado do descaso e da falta de força de uma política de museus no país, tem partido de um roteiro imprevisível –  o que já poderia dar uma um bom roteiro do cinema! Este “acidente”, nos coloca diante da necessidade de refletir acerca de três questões fundamentais, a saber: 1. Valorização da memória;  2. Política nacional de preservação do patrimônio; 3. Identificação do público com os acervos.

Os currículos escolares não tem compromisso com a questão nacional, restando a professores que busquem na formação continuada ferramentas capazes de lhes permitir como ensaio, qualquer trabalho recuperação e valorização da memória coletiva; mas antes, é necessário explicar para a população que existe uma coisa chamada coletivo. Neste sentido, a educação tem uma relação de atravessamento do colonialismo das mentes que se submeteram a nível intravenoso em considerar que o padrão para qualquer análise não se encontra em território nacional, mas fora dele, o que torna a capacidade de compreensão de nossos problemas dependente da capacidade de compreensão de problemas alheios, que possuem variáveis suficientes para tornar dificultosa qualquer comparação. Assim, devemos pensar sobre como somos capazes, ou quais os caminhos que nos permitiram construir parâmetros de análise autônomos, quiçá autóctones, sem que se construa a ignorância absoluta de tudo o que está fora do campo analisado. Isto que dizer que a história e, por conseguinte, a memória, está associada majoritariamente às classes sociais e regiões específicas do globo. É preciso tomar consciência e ter projeto de recuperação e construção de uma memória da realidade. Rever a história e a memória nacional a partir de uma mudança de paradigma necessária, qual seja, a de que nossa história não começa em 1500, muito menos com a ocupação violenta e sangrenta do território nacional iniciado por caraveleiros errantes que chegam a esta “grande ilha” chamada por eles de “índia”, que promove e do qual decorre, não sem propósito, todo o erro histórico que repetimos em nossas escolas desde que a instrução se tornou possível na colônia, primeiro para poucos e privilegiados, e posteriormente, para muitos, mas ainda privilegiados.

O incêndio do Museu de História Natural da Quinta da Boa Vista escancara para o Brasil e para o Mundo a inexistência, na verdade atualmente configurada em ineficiência da política nacional de Museus, e mais, de uma política de museus não privatista. Por que dizemos “não privatista”? Porque sabemos que há em todos os lados o desejo de apossar-se da memória coletiva para fabricação de lucro naturalmente direcionado a concentração de renda de quem obtiver a concessão. Este intuito pode não ser condenável de partida, em quem deseja uma tal concessão; mas o é num governo, ou seja, um governo jamais deve permitir a privatização da gestão da memória para fins particulares[1]. Portanto, é necessário que os museus se mantenham  públicos, e em especial quando falamos de museus de História Natural e Antropologia, necessariamente associados aos centros de pesquisa, com apoio e fomento para que que de forma autônoma desenvolvam pesquisas que são necessárias ao desenvolvimento e desempobrecimento cultural do país. Digo isto porque, o que efetivamente temos, não é a inexistência de matéria prima para pesquisa ou mesmo para a cultura. Nos falta o real compromisso do poder público enquanto política de estado. Assim, a Memória não deve ser apenas política de governo, ela deve ser uma Política de Estado, e como tal poderá desempenhar o seu papel de salvaguardar o patrimônio que nos permitirá revisar a história.

O Brasil tem um problema radical de identidade. Há mini projetos imperialistas regionais que pretendem transformar o conceito de nação a partir de um ping-pong de valor, encarcerado no regionalismo Rio-São Paulo com ares de nacionalidade. Isto promove um desprezo radical por quase tudo aquilo que não está neste eixo, com raras exceções a acontecimentos que são impossíveis de negação, ainda que haja apropriação dos mesmos sob a ótica deste projeto. Tal modelo é um espelhamento do que ocorre a nível global, onde se decreta o que é “internacional” ou “de valor universal”, como se tal universalidade fosse possível, sobreponde-se e sobrepujando o que é de valor regional.

Diante do exposto, manifestamos a nossa solidariedade ao Museu de História Natural da Quinta da Boa Vista. Sabendo que é irrecuperável o que se perdeu, e sabendo que perdem não só o Rio de Janeiro, mas toda a nação, todo o povo brasileiro e o mundo. Apesar de ser uma perda irreparável, ela jamais poderia ser tomada como o fim do Museu, que literalmente terá de renascer das cinzas. Mas a sua importância deverá ser capaz de produzir o seu renascimento, como um novo museu, com projeto novo. Sobretudo, não poderá se privar de realizar o debate nacional assim como se pretende, para que se construa uma política nacional de museus séria, que jamais permita a repetição desta tragédia – ainda que saibamos que não foi o primeiro museu no Brasil a arder em chamas.

Neste sentido, deve-se apoiar o museu de História Natural para que renasça, e que com ele possa renascer, a certeza de que a memória histórica e natural do Brasil estará segura. Com a mesma força que o Museu pode renascer, acreditamos no seu compromisso de pautar uma séria política nacional em defesa de memória, que inquira a União os Estados e os Municípios a guardar, proteger, fomentar, divulgar o nosso patrimônio de modo a que todo brasileiro possa ter garantida a permanência de seus espaços de memória e museus com a participação do povo, dos profissionais ligados diretamente ao setor, como museólogos, arqueólogos, artistas e pesquisadores em geral nas decisões sobre a preservação. Assim, todos os povos brasileiros poderão ser representados na guarda da memória. Para isso, é preciso reconhecer que existe antes do futuro, o passado, que precisar ser preservado no nosso presente.

[1] Ainda que não concordemos em hipótese alguma com a privatização dos espaços de memória e investigação públicos, acreditamos e defendemos que iniciativas privadas devam existir, mas jamais como apropriação do que foi criado com interesse público e pelo poder público.

 

* Tiago do Rosário Silva é professor do Instituto Federal de Educação da Paraíba – IFPB e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

 

©

Revista Philipeia

Ano V

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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