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CONTINUIDADES ADVENTÍCIAS

Beano de Borbujas*

Cada vez que habito meu recinto ou me impregno dessa aura de lar, adquiro uma ampla convicção de que o espaço que me serve de aposento e de outras funções íntimas é diuturnamente abalado, recebendo o hálito dos vizinhos que me rodeiam e rasgam membranas finíssimas que constituem a real substância do concreto das paredes, como a aparente solidez da pele humana, recortada por malha porosa e anexos de defesa.

Deste modo, absorvo a natureza das camadas que encerram o real de um modo mais consistente. Isso remete àquela fala de Ingmar Bergman sobre a sua pulsão artística em interferir na membrana da realidade ou a sua percepção das almas nas membranas  de vermelho sangue, ou também uma evocação às ondas gravitacionais da física, que recebem abaulamentos das vibrações que emanam das coisas em campo e contracampo. Ao mesmo tempo que percebo a vulnerabilidade do meu espaço, minha imaginação antevê a estranheza adventícia desses lares paralelos, em busca de pistas que ocupam meus pensamentos, como o jovem indiferente d’o homem que dorme, descrito por Georges Perec.

Gostaria de prevenir ao leitor que isto só é possível em residências muito próximas, com vizinhos que habitam um mesmo cortiço ou comunidades de casas sem o reforço dos muros ou na observação das sacadas de edifícios que se encaram. Muros altos e armaduras da pele são como o enrijecimento dos elefantes que enjaulam rancores da memória.

Sinto uma sugestão erótica dos vidros foscos com sombras que se despem, como se solicitassem o tatear dos dedos na poeira dos automóveis. O quarto do vizinho à esquerda, que se revela a uma sala de jantar improvisada na minha casa, apresenta cotidianamente um teatro de sombras que se intrometem nesse vidro fosco de basculante. Algumas vezes se abre para hospedar a poeira e os insetos e visualizo as danças dos meus vizinhos ouvindo música brega mainstream ou jogando vídeogame. O dono do quarto é um sujeito branco, imberbe, relativamente franzino, com uma feição hooligan porém nerd, distante do brasileiro típico, sem muitos atrativos físicos. Porém há uma excitação automática ao ver suas sombras, que aparentam ser desconfiadas diante da opacidade da janela.

À direita, uma senhora robusta de olhos verdes berra louvores gospel e cuida do filho adulto, acometido por retardo mental, que acompanha a mãe em suas súplicas cantadas. Esses uivos e lamentos são também intercalados por multidões sibilantes de pássaros presos em gaiolas para distrair a demência do sujeito enclausurado, o qual é parecidíssimo com  o pai, um velho barbudo de voz grave porém mansa, com fisionomia de pirata e de papai noel ao mesmo tempo, aposentado que vive a imitar o arrulhar dos pombos alimentados por ele, os quais são os únicos pássaros que se aproximam da casa, longe dos outros de estimação do filho.

Fico a imaginar como seria a aparência desses lares, um mais calmo e o outro mais denso de situações pitorescas, observando a composição das roupas nos varais e o trepidar das portas, ou das gaiolas e da disposição dos eletrodomésticos, pelos sons que  furtam minha tranquilidade. Uma conclusão que me suscita, em meu hábitat rasgado em sua membrana, é a da luz reduzida ter a capacidade de realçar os contornos das residências vizinhas, inclusive os sons. Esta sinestesia é amparada pela serenidade mediante a qual as luzes fluorescentes perturbam. Como os insetos, meus sentidos se debatem com o excesso de luz que apaga as formas. A observação fleumática dessa continuidade, tão próxima, porém tão distante e pitoresca, me inscreve sensações em que estranho a mim mesmo e a naturalidade dos dias mais rotineiros e pacatos, longe de turvar a sensação de ficar à vontade diante destes estímulos.

 

Autoria da fotografia: Beano de Borbujas (2018).

 

*Beano de Borbujas é doutorando em Antropologia pela UFPE.

                                                                                                                         

©

 

 

Revista Philipeia

Ano V

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

      

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