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polu[i]ções felinas

 

Beano de Borbujas*

Para Ramon

 

Ele tem na silhueta a imago mundi. Possui uma beleza largada de homem que dissolve os ranços de identidade sexual. A beleza largada, logo espraiada, ampliada, dispensa as ancas e bíceps obtidos por fadiga, da disciplina dos intumescimentos e das fórmulas greco-romanas, que se destaca de tantos perfis lapidados. Sem retoques, sem prendas.

Rosto sisudo, olhar negro que se derrama na inquietude dos ramos alvoroçados do bigode e de sua mão delicada; seu corpo ostenta uma pequenez febril

Ele se projeta no seu gato. O gato, essa criatura liminar, apenas parcialmente doméstica. O gato é a própria imago mundi, ou a película que sustenta seu filme.

Homem selvagem e arisco sob a pele de um felino vulnerável, mas irascível. O gato busca asilo na sua axila. Absorve a quintessência dos seus feromônios atenuados pelos desodorantes. Nem dócil, nem inofensivo.

Observando-o num debate, contemplei sua ardente comoção interna, seu latente desejo de assassinato e carnificina lançado sobre uma audiência imune e sedenta por sangue. Imune à sua violência, por não absorvê-la da maneira adequada e íntima. Imune, devolvendo sua violência em ricocheteios.

E eu querendo o dardo, o projétil da sua violência. A multidão tem a vacina impessoal dos espetáculos, das curiosidades por acidentes grotescos.

Eu desejo o seu olhar de gato que navega os mistérios da morte em sua negritude alveolada. De um tom negro que digere e regurgita matizes de luz. Na sua ansiedade alimentada pelas perguntas e ataques da plateia, ele tenta se manter impassível, mas sua ferocidade, de bicho pequeno alçado pelas costas e incapaz de reagir, a mim é perceptível. Essa face de ave de rapina rapidamente se esfria para olhares desinteressados, mediante a sua carapaça de homem frágil e intelectual, convertendo-se em donzelice; as pernas cruzadas e a maneira como seus membros se agitam e a mão se deposita sobre a mesa, apanhando o celular para camuflar ligeiramente as impressões de fúria incontida.

Ele detém a fúria juvenil de roqueiro rebelde, de criança inflada, de artista insubordinado, de rapaz mimado. Mas amaciada pela vida intelectual, pela rotina e a busca de tato social, provocando uma seleção artificial, humana, do felino liminar que invade sorrateiramente o espaço da gente civilizada. O felino, nem da rua, nem da casa, nem masculino, nem feminino que te encara pela frente com olhar de indiferença e interesse. Sua bermuda jeans rasgada, seu bigode esparramado, seus movimentos delicados, arranjados em dedos e membros lépidos.

A silhueta dele é o atlas do meu mundo marginal e felino. Um globo agitado em múltiplas cadências. Uma represa que vaza continuamente seu conteúdo poluído sobre o mundo previsível e tacanho. O gato que você louva exatamente pela sua incomensurabilidade. A serenidade feminina diante do mistério da selva, por onde sai um gato. O arrebatamento masculino calculado no salto quântico do gato no piso.

Das poluções diárias, surge o arquétipo dele em soluções que minam o corpo. Lembranças despertas por ruídos de gato ronronando, que são a própria combustão da matéria e da imago mundi, rememoradas nos mantras que invadem cosmicamente o ambiente das casa.

 

* Beano de Borbujas é doutorando em Antropologia pela UFPE, escritor, curador e crítico de arte.

©


Revista Philipeia

Ano VI

Edição de Inverno

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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