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 A GALERIA CASARÃO 34 NA CAPITAL PARAIBANA:

SENTIDO, PROPOSTA E IMPORTÂNCIA

Ana Monique Moura*

 

Galeria Casarão 34 – por Kleide Teixeira

 

Inserida na bela e larga Praça Dom Adauto no centro da capital paraibana, a Galeria de Arte Casarão 34 abre suas grandes portas diariamente (da segunda à sexta) àquelas pessoas que desejam apontar o “olhar” para uma experiência que vá além do habitual modo de olhar. O Casarão 34 é um convite à experiência estética com a produção contemporânea das artes visuais. Uma experiência capaz de conduzir nossa percepção aonde o cotidiano é revisto por meio de outras abordagens: teoréticas, relacionais, pós-contemplativas, políticas. Tudo isso graças ao reconhecimento da potencialidade significativa do que pode ser a vivência de uma boa cultura visual.

Permita-me uma pequeno percurso filosófico: Aristóteles não estava errado quando promulgou à visão toda a potencialidade do pensamento e da reflexão, relacionando a esse sentido um afeto, ou mesmo amor, que nós costumamos nutrir para tal sentido. E a expressão do que significar visão vai muito além do uso dos olhos. Ele implica no recurso à imaginação, que não é outra coisa que ver desde dentro nós; é por isso que história da visão está ligada, também à sua relação tanto com a arte como com a religiosidade. Exemplo disso foi o da monja, filósofa e multi-artista Hildergard von Bingen, que refletia sobre a natureza e pintava suas iluminuras através do que chamava de “visões”. Daí que seja uma tarefa não nova, o de destacar as possibilidades significativas da visão.

Agora, vivemos um fenômeno mundial em que igrejas e seus espaços estão se transformando em centros culturais e galerias de arte, pondo aquela tarefa religiosa da visão no passado, dando espaço a outras perspectivas do que seja o “ver”. Historicamente, estamos inseridos em uma transição da urgência do religioso para a urgência do estético nos espaços.

O Casarão 34, como uma galeria que se assenta num espaço outrora destinado para as finalidades de uma Igreja (Nossa Senhora do Carmo), é a prova de que estamos inseridos nesse fenômeno de ressiginifcação dos lugares outrora dedicados ao religioso.  A relação da visão, nesses espaços, agora se dá muito mais com a criação artística livre no respeito às múltiplas individualidades do que daquelas visões místicas consagradas à fé, além do que exige-nos o pensamento a partir do qual a tarefa da crítica substitui a tarefa da crença e o exercício do gosto estético substitui a prática religiosa da devoção. 

Em tais espaços, como a Galeria de Arte Casarão 34, nos servimos da crítica do gosto, reforçando com isso que, sim, “gosto se discute” e não há uma verdade unívoca, nem sacrossanta para a arte. As obras expostas nesse espaço, dedicado à arte contemporânea visual, estão ali convidando-lhe para um gosto crítico, um gosto que vê e vislumbra, pensa e repensa, ou seja, que faz a reflexão ver.

O fundamental é que, em matéria de arte, a discussão é edificante para a própria arte. Ao invés da discussão reduzir a arte a algo sem sentido, dá, ao contrário, todo seu sentido, e a mantém viva e realizável. É nesse aspecto que a obra não sobrevive sem o olhar do outro. É o olhar do “outro” que faz a obra, e a/o artista depende dele para ser conhecido e reconhecido. Portanto, a galeria Casarão 34 permanece aberta como forma de reconhecer a necessidade do “outro” múltiplo para tornar vivaz o circuito da arte na capital.

Outras galerias existem e são citáveis na cidade, como a Galeria Achidy Picado, Galeria Lavanderia, Galeria Gamela, dentre outras… mas, em relação ao Casarão 34, é preciso mencionar o trabalho de gestão do espaço, por Valquíria Farias,  reconhecedora da necessidade de manter um espaço dedicado às artes visuais no coração da cidade.

A iniciativa de Valquíria Farias está em não só meramente gerir um espaço público dedicado à arte, mas o de descobrir novas produções artísticas, possibilitar formações ao público e promover trabalhos curatoriais dos artistas. Valquíria Farias exerce também a tarefa de curadoria e se coloca como, ao meu ver, uma curadora que encara a arte em seu porvir” e “devir”, ou seja, a arte não é  por ela encarada, nem investida, a partir do que se revela como estanque, já consagrada, renomada, “inteirada”, vulnerável às impressões sectaristas. Assim, alguns dos novos artistas que  atravessam o olhar curatorial de Valquíria, embora sejam atuais, não são artistas do “presente”, mas do que está por vir, do que está em seu devir artístico. Arte em potência, além do ato. Portanto, arte também “incerta”, embora prometedora. Esse solo de incertezas é rico de uma semente capaz de insuflar a necessidade da crítica no circuito, e do olhar cuidadoso sobre os artistas. Dessa forma, há uma investidura na ânsia do que se deseja ainda ver, mesmo quando se vê. Portanto, com Valquíria e o Casarão 34, a arte é, com justiça, acolhida como um movimento dinâmico, cheio de possibilidades e mudanças. Não é uma linha euclidiana, mas uma mistura de rumos côncavos, curvos e intricados. É por isso que Valquíria é curadora, como uma extensão das atividades do Casarão 34, do Projeto Movimento, que se realiza na Arapuca Residência Artística, do artista francês Serge Huot, em praia de Arapuca (PB), com novíssimos artistas paraibanos. Tudo isso representa a vontade de manter um grande dinamismo e alimentar um circuito de arte que necessita ser amadurecido a cada ganho, a cada triunfo, para que não se perca em si próprio e possa, assim, expandir-se. O solo é nosso e tem a semente. Um solo que não é apenas árido, mas produtivo e macio, porque é brejeiro e litorâneo também. É um solo múltiplo de “devires” e surpresas, por isso não é tarefa de tocar veludo manuseá-lo. Daí que seja importante ter um modo próprio de cultivo, sem se querer cair em cópias acríticas, comparativismos estéreis com outros lugares, circuitos e parâmetros – frutos de prévio condicionamento à autonegação cultural. A Paraíba tem a capacidade de fazer acontecer a arte não importa onde, seja no próprio solo ou fora dele. Não é em vão que o criador e idealizador do Museu de Arte de São Paulo – MASP tenha sido um paraibano, Assis Chateaubriand. Na Paraíba a semente de uma terra tripartite (macia, produtiva e árida) só pode ser múltipla. Claro que aqui sempre tem sido um tanto difícil pensar um circuito pleno e fervoroso de arte, principalmente por conjunturas políticas e econômicas que nem sempre favorecem o nosso solo artístico. Porém, não destacaria isso apenas como algo dentro de uma suposta “dificuldade”… mas como algo natural de um lugar que não é um centro ou pólo cultural num país… uma cidade que não chega nem mesmo a ser uma metrópole regional… Pois bem, seria ingênuo querer alçar como as metrópoles… e nem precisamos querer… Mas precisamos reivindicar melhorias e o fortalecimento do circuito da arte local, sempre. Uma galeria de arte tal qual o Casarão 34 é um espaço que pode agregar o reconhecimento de todos esses princípios. E emana desde sua existência a necessidade de ampliar e favorecer a abertura de outros espaços fundamentais, como museus importantes e urgentes para a cidade. Vale reforçar que o Casarão 34 não se restringe a divulgar tão só trabalhos de artistas paraibanos, o que é outra “valia” para o espaço e possibilita seu alcance.

Finalmente, em frente ao Casarão 34, não hesite de entrar e se dar o prazer de usufruir do privilégio que é poder ver e pensar através da arte contemporânea. Somado a isso, indo ao espaço, você estará reforçando a importância de manter o cultivo da nova arte na capital. Embora estejamos no quadro contemporâneo mundial de transformação de espaços religiosos em espaços de arte, onde a plurivocidade das experiências da visão é o que conta como urgente ao nosso convívio e conhecimento, é necessário lembrar que o Brasil enfrenta uma era fundamentalista e anti-arte. Contra isso, só uma postura aguerrida e ousada, típica daquelas mulheres valquírias mitológicas, o que faz jus ao nome da gestora do Casarão 34, para se fazer antinomia. Assim, ir à galeria  acaba se configurando também como um antídoto à sensação de que a resistência a essa era anti-arte no Brasil está fraca entre nós. Entenda o espaço como um convite constante a essa experiência. Se você ainda não foi lá, retire o Casarão 34 daquela expressão “não conheço, mas já ouvi falar”, pois, como diria o historiador grego Políbio: “os olhos são testemunhas mais exatas que os ouvidos”. Entre e veja!

 

* PhD (UFPB & HGB, Leipzig, Alemanha).

©

 


Revista Philipeia

Ano VI

Edição de Inverno

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

 

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