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O CICLO JUNINO*

 

Elvira D’Amorim & Dinalva Araújo*

 

A origem da Festa de São João que comemora o dia do profeta bíblico que batizou seu primo Jesus nas águas do rio Jordão, não se deve ao período do nascimento do santo. Conforme Cascudo, “coincide seu nascimento com o solstício de verão (de inverno na América Austral), quando as populações do campo festejavam a proximidade da colheita e faziam sacrifícios para afastar os demônios da esterilidade, pestes dos cereais, estiagens”.

Todo um conjunto de tradições que hoje preservamos, como pertencentes à festa junina, tem raízes nos cultos agrários celebrados pelos pagãos, que, crendo no animismo, reverenciava vários deuses que imaginavam existir na natureza. O sol era o “deus” responsável pelo sucesso da colheita, sendo alvo de admiração e de adoração pelo poder sobrenatural que imaginavam possuir. Daí o costume de “acender fogueiras nos lugares altos e mesmo nas planícies; as danças ao redor do fogo, os saltos sobre as chamas”.

A fogueira era, no pensamento primitivo, a representação material do sol na terra. Além disto, era acesa por seu grande poder utilitário, sendo usada para afugentar animais nocivos, assar ou cozer alimentos, iluminar a noite, como também seu clarão e fumaça serviam de meio de comunicação à longa distância. Ao redor da fogueira, civilizações já extintas, como os antigos povos celtas, primeiros habitantes da Europa setentrional, realizavam cultos aos seus mortos, aos seus deuses. Este fato contraria a lenda de que a festa em volta da fogueira tenha sido invenção de Isabel, mão do padroeiro deste ciclo que apenas acompanhou um costume da época e utilizou o principal meio de comunicação que dispunha para avisar aos parentes e amigos sobre o nascimento do filho.

Podemos citar, pelo menos, duas versões para o nome da festa. Antes do pensamento cristão dominar a Europa, as comemorações realizadas em junho cultuavam a deusa Juno, mulher de Júpiter, que fazia parte do panteão do Império Romano. Para diferenciar as festas de Juno da festa de São João, a Igreja Católica passou a chama-las de “joaninas”. Com o tempo, no Brasil, as festas joaninas comemoradas com fogueiras, rezas e muita alegria acabaram sendo mais conhecidas como juninas e se mostraram muito eficazes para atrair a atenção dos indígenas à atenção catequizadora dos padres jesuítas, especialmente porque coincidiam com o período em que os índios realizavam seus rituais de fertilidade.

 

Lendas do Milharal

O milho, que é a base para as comidas típicas dos festejos juninos, segundo Cascudo, teve seu melhor aproveitamento 100 anos após a colonização brasileira. Era cultivado e servia de alimento no Brasil para os ameríndio, “mas não constituía determinante como a poderosa mandioca e a macaxeira”. Gabriel Soares de Sousa  testemunhou, nas primeiras décadas do século XVII, o milho sendo comido assado pelos gentios e usado cozido na fabricação de seus vinhos, com os quais se embebedavam. O português utilizava-o, incialmente, como ração para cavalos, porcos, cabras, galinhas, ovelhas e como fruta para os negros de Guiné, denominação genérica dos africanos que foram trazidos para o Brasil. Os escravos demonstravam certa resistência em comê-lo, porque diferenciavam, no sabor, da espécie africana chamada sorgo.

O nome científico do milho é “Zea, que em grego quer dizer grão ou semente, Mays”. A espécie que conhecemos é originária das Américas Central e Sul, onde servia de alimento às civilizações Asteca, Inca, Chibcha e Maia, que espalhou pelos Estados Unidos e Antilhas antes de chegar à Europa, no século XVI, levada pelos colonizadores. O europeu já consumia sorgo ou milheto, espécie de milho de origem africana.

Civilizações antigas das Américas, como os Astecas e os Maias (México), os chibchas (Nova Granada) e os Incas (Peru), alimentavam-se do milho e cultuavam deuses responsáveis por sua existência. Os Chibchas cultuavam a deusa do milho, chamada de Tonacajohua, “a que nos sustenta”, tradução do vocábulo cujo sentido demonstra a importância do fruto na alimentação daquele povo; e os Incas adoravam o deus da agricultura, cuja escultura encontra-se num túmulo de Sechura e ostenta a haste de um milho como um cetro.

Os Incas realizavam, no mês de junho, festa agrária tradicional, preservada até hoje, pelos peruanos, denominada de “Páscoa do Sol” (Inti-Raymi), pelo sucesso da colheita do milho, predominante na alimentação. Do milho dissolvido, preparam-se bebidas diversas como a chicha, aguardente de grão fermentado, o pulque maiz, a cana de milho e o aluá de milho, de nome árabe ou africano, que se popularizou no Brasil.  Hoje é alimento apreciado em todo o mundo, tanto por homens como por animais, na Europa, Ásia, África, Oceania e Américas.

Um século após a colonização brasileira, o milho atingiu o terceiro lugar na escala dos mantimentos, o arroz, o segundo e a farinha de mandioca, o primeiro. A cozinha portuguesa foi responsável pela utilização mais ampla do milho na culinária, ao criar bolos, canjicas e pudins. Os africanos, que acreditavam no poder nutritivo do alimento dissolvido, inventaram as papas, os angus e os munguzás. Nossos ameríndios comiam os caroços assados, como passatempo mastigador.

O cuscuz, alimento dos mais populares no Brasil, é originário da cozinha moura na África Setentrional, do Egito ao Marrocos. O kuz-kuz ou alcuzcuz dos negros africanos, era feito com arroz, misturado à frainha de trigo ou com milheto ou sorgo. Desta receita, substituíram apenas o arroz pelo milho americano, resultando no hoje popular cuscuz. Comida típica dos berberes, povos nômades que habitam as regiões norte-africanas da antiga Barbária (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito) e do Saara, é servido ainda com caldo de carne e legumes. No nordeste brasileiro, o cuscuz é comido no café da manhã, com manteiga, ovos, leite de vaca ou de coco e açúcar ou no almoço, acompanhado de carne ou peixe.

No imaginário indígena, muitas estórias e lendas tentam explicar a origem do milho. Cascudo, ao narrar a lenda da tribo Pareci, hoje denominada de Ainotarê, conta que “um grande chefe, ao sentir aproximar-se o dia de sua morte chamou pelo filho, Kaleitôe, e ordenou-lhe que enterrasse seu corpo, em meio ao roçado, determinando ainda que ao se passar três dias fosse ao local, onde veria brotar uma planta nunca vista, recomendando porém que não a comesse de imediato, mas utilizasse seus grãos como semente para o replantio e só aí ter naquele fruto alimentação”. A nova espécie era o milho.

Outra lenda da tribo Guarani envolve o sacrifício humano. Contam que, após incansável procura por alimento, dois guerreiros viram aparecer um enviado de Nhandeiara (grande espírito), que, para resolver a questão, determinou luta entre os dois. O vencido seria sepultado no mesmo local da disputa, e de sua cova nasceria uma planta, que alimentaria e saciaria a sede de todos. Da luta, morreu Avati ou Abati, que no idioma tupi, significa milho.

* Elvira D’Amorim é professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba.

* Dinalva Araújo é especialista em Educação Artística, com pesquisa em Quadrilhas Juninas, pela Universidade federal da Paraíba.

* Mais em: D’AMORIM, Elvira. ARAÚJO, Dinalva. Do lundu ao samba: pelos caminhos do coco. João Pessoa: Editora Ideia, 2003.

 

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Revista Philipeia

Ano VI

Edição de Inverno

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil
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