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DOLORES DURAN: NEGRA, POBRE E SOCIALISTA

 

Jomar Ricardo Silva*

 

Nascida em uma família pobre, sempre recebeu apoio dos pais para seguir a vida artística. Aprendeu vários idiomas ouvindo músicas, o que muito contribuiu para divulgação do seu talento por entre um público seleto e abriu as portas que lhes deram acesso as gravadoras da época. Quando foi estudar inglês com uma americana, a professora telefonou para a mãe e disse que a moça “não precisava daquilo, que estava gastando dinheiro à toa, pois falava inglês tão bem quanto ela”.

Apesar de ser intelectualmente notável, a jovem cantora não deixou de sofrer, certa vez, a mágoa do preconceito, numa boate do Rio de Janeiro. Esse constrangimento foi o tema musicado por Billy Blanc, um dos rapazes que passou pela vida afetiva de Dolores, na canção “ banca do distinto”. A letra fala do habitus da classe burguesa e dos artifícios engendrados para enfatizar a distinção dela em face dos segmentos considerados desclassificados. A condição social e étnica é presentada pela distância que ela deve manter dos negros, pobres e iletrados, com o objetivo de conservar o status conseguido e garantir dominação, através de uma superioridade enquanto brancos, ricos e cultos. Desse modo, um pequeno-burguês tem uma série de regras que rege seu comportamento:

Não fala com pobre, não dá mão a preto

Não carrega embrulho

Para que tanta pose, doutor

Para que esse orgulho

(…)

A vaidade é assim, põe o bobo no alto

E retira a escada

Mas fica por perto esperando sentada

Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão

Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal

Todo mundo é igual quando a vida termina

Com terra em cima e na horizontal

O orgulho seria assim, apenas a forma arrogante de demarcas as diferenças, que se situam no cotidiano das relações de uma sociedade de classes, para reconhecimento de quem se considera superior de direito. Por sua vez, a morte, um elemento ontológico incrustado na realidade da vida, vem e afirma outro preceito. Com ela, as diferenças ficam na superfície, pois a retirada de cena dos atores, quando encerram as cordinhas do último ato, a morte diz que todos são iguais de fato.

Assim sendo, confessa-se no desfecho da canção, um ressentimento de origem judaico-cristã, presente em nossa cultura, que de modo concomitante, reconhece a superioridade que nega, pois, ao protestar contra o escandaloso charme da burguesia, afirma-o para negá-lo, sem aniquilá-lo, resvalando no niilismo.

Dolores Duran, todavia, como uma mulher oriunda das classes populares, insurgiu-se aos valores decadentes predominantes naquela sociedade, com suas atitudes. A primeira, escolhe a profissão de cantora, desenvolvendo desde criança suas aptidões vocais, contrariando o pensamento negativo em relação à reputação moral de quem seguia esse ofício; segundo, tinha relacionamentos amorosos que fugiam aos padrões enquadrados na instituição família; e por último, ainda jovem foi morar sozinha e segundo Rodrigo Faour, namorou fora do protocolo das mocinhas da época. Além do mais foi simpatizante do socialismo e chegou a visitar a URSS com apoio do presidente Juscelino Kubitschek.

Um aspecto fascinante de sua biografia foi a consciência étnica, constituída por suas vivências e duras penas, pelas discriminações, em razão de ser pobre e negra. Foi aluna de canto. No conservatório aprendeu harmonias no piano, mas desistiu porque “a gente não vê preto em ópera”. Uma mulher à frete de seu tempo, teve uma breve vida, morrendo em 1959, dormindo.

* Jomar Ricardo Silva é professor do departamento de Sociologia da Universidade Estadual da Paraíba.

 

©


Revista Philipeia

Ano VI

Edição de Inverno

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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