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DO AMOR DEVOTADO À ARTE, AO ARTISTA; OU: UMA HERMENÊUTICA PARA O SUBLIME  

Patativa Moog*

 

1.

Como todo mundo sabe, Vinicius de Moraes foi um grande conquistador; um tipo de Don Juan brasileiro. Mas, conforme conta Ronaldo Bôscoli em Eles e Eu, livro-memória escrito por Luiz C. Maciel e Ângela Chaves: “Vinicius estava preocupado com sua vida amorosa. Não sabia se as namoradas o amavam como homem ou à sua fama como poeta”. E foi por isso que o Poetinha resolveu perguntar a Otto Lara Resende: “Otto, você é meu amigo, me diga sinceramente. Você daria pra mim, mesmo que não soubesse que sou o Vinicius de Moraes?” “Claro que daria!”, Otto respondeu.1

A dúvida do Vinícius tem fundamentos, e bem muitos.

O melhor deles nos mostra que as pessoas não amam exatamente o artista, mas aquilo que ele representa: a imagem, o símbolo, a ideia de transcendência, o divino. O exibicionismo do artista pop2 é carregado de magia contagiante, como a de um sacerdote carismático, em um rito litúrgico. Quanto maior o carisma (e a fama, naturalmente), tanto maior a sua proximidade com o divino, e, através dele, a nossa – por isso se ama a arte do/no artista. “Nas tradições alexandrinas e nas romanas, o status de celebridade prefigurativa foi afirmado e reafirmado na arena pública. Era associada com exibicionismo, drama, consumo conspícuo e louvor. O teatro da vida pública era o palco onde as representações eram feitas e desfeitas. Na sociedade antiga, ostentação, tributo e excesso eram traços proeminentes da cultura de celebridade. Portanto, o exibicionismo que é frequentemente associado com a celebridade contemporânea já existia na sociedade antiga. Poderíamos dizer que Britney Spears, Arnold Schwarzenegger, Robbie Williams, Bruce Willis ou Caprice, ao cultivarem a aclamações apresentando em público, afirmam que os deuses desceram à terra.”3

O artista, como o sacerdote, contra as dores do mundo, sugere escapes. A arte foi a saída que os gregos encontraram para o enfrentamento do trágico que perpassa o mundo – Nietzsche, a partir de Schopenhauer, nota-o bem4. O artista é amado porque as pessoas veem nele, como veem nalgum santo messiânico ou em um profeta iluminado, uma saída para o algo mais que “isto aqui”: o trágico no mundo. O artista, porém, como os santos messiânicos ou os profetas iluminados, é somente um portador da “palavra do Sagrado”, o mysterium. As pessoas não o amam, exatamente, mas ao Sagrado que habita nele – que pode ser qualquer um, conforme o credo, e que pareça transcender (não necessariamente) a materialidade fria da razão, do fenômeno sensível, da facticidade objetual no “mundo da vida” (Lebenswelt), como diria Husserl5. Chegar ao mysterium, ou estar a caminho, na sensação de “pertença” (ou de fazer parte de “algo maior”), parece vantajoso aos que procuram por essas vantagens – a experiência do numinoso é uma delas; como uma droga natural, psiconeural. As danças, os ritmos, as cores e as luzes não são senão acessórios, para que o artista brilhe ainda mais e, nisso, apareça o Sagrado… ainda que se esconda.

2.

A alma da vastíssima literatura romântica que entope livrarias, sebos e bancas de revistas – com os acessíveis pocket books e brochuras6 –, está na mesma linha vertical da ortodoxia teológica, que consigna a veracidade do amor à imediata experiência do numinoso, na subjetividade natural do sentimento de “sublime”, preso à ideia platônico-cristã de um Summum Bonum – mesmo que isso somente se dê no nível do inconsciente. O Sumo Bem seria o fim a que tudo se dirige, fonte originária de todo o bem, dos bons pensamentos aos nobres sentimentos das almas piedosas, etc.

“Nós o amamos porque ele nos amou primeiro”, São João evangelista escreve7. E Sócrates, repetindo o que teria escutado de Diotima de Mantinéia, afirma: “[…] Quando então alguém, subindo a partir do que aqui é belo, através do correto amor aos rapazes, começa a contemplar aquele belo, quase que estaria a atingir o ponto final. Eis, com efeito, em que consiste o proceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que se servindo de degraus, de um só para dois e de dois para todos os corpos belos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos belos ofícios para as belas ciências, até que das ciências acabe naquela ciência que nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si mesmo é belo.”8

Justino de Roma, depois de procurar um mestre pitagórico e ser rejeitado, procura outro, um platônico. E logo “julgava ter-me tornado um sábio”, ele diz, “um sábio em tão pouco tempo, e totalmente esperava em breve ver o próprio Deus – pois tal é o fim da filosofia platônica.9” O “belo em si mesmo”, na fala de Sócrates, transforma-se, com Justino, no próprio Deus, o Summum Bonum. Foi assim que a filosofia dos Padres se apoderou da filosofia pagã (e da teologia judaica) para recriar o mundo, rebaixando o Eros grego em favor do ágape cristão: “Quem ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.10” É São João, novamente. O amor, aí, somente será perfeito se estiver ligado ao ágape, que é perfeito, e por quem se mede.

Inventamos o sublime porque não desejamos a realidade tal qual é ela: nua, fria, insensível e… mortal. O suicídio seria um escape; mas nem todos os desesperados têm coragem, ou certeza. Sim, basta que Eu morra para que a realidade de tudo, inclusive de Deus e do seu Espírito, despareça. “Sei que sem mim Deus não pode viver um instante sequer / Se eu for aniquilado, também o seu espírito tem de necessariamente extinguir-se.11” O outro escape, que pode dar-se por uma infinidade de meios, é a religião. Não custa lembrar: “As coisa mudam de nomes, mas continuam sendo religiões.”

A sensação da finitude temporal nos apavora e, conhecedores que somos do tempo das coisas neste mundo, inventamos a eternidade de um mundo extramundano, com um novo destino post mortem, um glorioso porvir (não necessariamente).

– Como havê-lo, já?

– É outra questão.

– Ok. E para quem não acredita na permanência da alma post mortem?

– Morto, o que morre são as consciências da realidade experiencial, individual ou coletiva… O mundo continuará sem mim, e continuará muito bem. No mundo, porém, crendo ou não, se vivemos, é preciso vir-ver – que implica na ação ética (ou ações), no dever, que muda conforme o Zeitgeist: valores, preferências estéticas, ideias e/ou ideologias políticas, religiosas, étnico-raciais, de gênero, etc. Nada é estanque; inclusive as noções de verdade, de justiça, etc. Coisa que, claro, não agrada aos que zelam pelas tradições, pelos dogmas, principalmente aqueles de caráter religioso.

Para sobreviver e manter-se “interessante” contra as atrações que as minorias não-dogmáticas possam oferecer, a Igreja Católica (somente para ilustrar) também gerou e gera suas estrelas. No passado: Santa Teresinha, Padre Pio, Bernardette, etc. No presente: (me dou ao direito de não citá-las). A Igreja-Instituição (Papa, cardeais, bispos e padres) foi atingida em seu coração, naquilo que deveria ser sua missão: “guia e mestra da moral” para toda a humanidade. Se já não pode ameaçar os dissidentes (hereges) com a fogueira, que os reconquiste por algum carisma, alguma promessa de alguma felicidade e para depois. E que reconquiste, antes, sua antiga moral… ou engendre uma nova, que sirva. O método, porém, não deve mexer nos “antigos fundamentos”; em outras palavras: nos dogmas. Mas, como ser atual (e relevante) sem deixar de ser si mesma? Essa é a pergunta que Hans Küng faz em Ist die Kirche noch zu retten? (2011).12

O método teológico, aqui referido enquanto “ponte para o sublime” e, naturalmente, para a vaga noção romântico-ideal fundamental, funciona através de saltos: da fé pela fé à fé, somente – na argumentação (racionalmente absurda, logicamente paradoxal, escandalosa13, como nos mostra a grande crítica de Kant à metafísica clássica14) cosmológico-ontológica aplicada às (e nas) chamadas “provas da existência de Deus”, em especial. Em outro exemplo: o que a hermenêutica teológica aplicada à matéria de bibliologia, ensinada em academias teológicas, prova, por exemplo? Que a Bíblia é um livro antigo escrito por muitas mãos e em várias épocas, com estilos variados e em línguas diferentes; que alguns dos seus relatos têm fundamentação histórica comprovada; que alguns dos seus personagens foram pessoas que realmente viveram e sentiram o peso deste mundo, como qualquer ser humano comum, etc. É quando parte daí, do puramente horizontal – exigindo uma fé na fé que esses homens e mulheres antigos tinham –, que ocorre o salto: da horizontalidade histórica à verticalidade que a fé propõe.

Na palestra de Gianni Vattimo, A tentação do realismo (2001), esta frase de Nietzsche, no primeiro parágrafo (e depois por toda parte): “Não existem fatos, somente interpretações; e esta também é uma interpretação.15” E o próprio Vattimo revela a sua intenção ao utilizá-la: “Não estou […] pretendendo que a hermenêutica, sintetizada na frase de Nietzsche, seja a descrição mais adequada da cultura tardo-moderna”, ele diz. “Defendo, pelo contrário, que ela é a interpretação mais razoável.16” Acontece que toda interpretação parte de um universo particular, factual, ao qual o intérprete vê-se unido, e pertence: língua, história, geografia, existencialidade, situação psicológica, etc. É nesse sentido que “o argumento lógico contra o cético nunca convenceu alguém a abandonar as próprias ‘convicções’ céticas.17” De fato. Nas palavras de um desses, Paul Valéry:

Repugna-me a todos que querem me convencer – Um partido, uma religião em procura adeptos, que desejam o nome e a propagação, são cheios (para mim) de ignomínia. Uma doutrina deve, para ser nobre, em nada ceder ao desejo de ser compartilhada. Que ela seja como ela é, ou que ela não seja.

Eu não desejo fazer aos outros o que eu não quero que me façam.

[…] – Ter razão. Desejo de ter razão – Propagar. Desejar convencer

Isso conduz aos milagres… à “publicidade”.18

E:

“Toda emoção, todo sentimento é uma marca de defeito de adaptação.19” Ou: “Toda a vida afetiva não passa de besteira e circulo vicioso.20” Noutra parte, a sentença “Quem faz o bem por dever o faz mal, e o faz sem arte”21, depõe tanto contra a ética autônoma kantiana quanto a heterônoma, da filosofia/teologia clássica, e Antiga. Valéry chuta conceitos e explode consensos, anunciando que “Tudo o que é humano me é estranho.22” Mas, ainda assim, ah!, eis aí o homem; o homem que estranha.

Com Valéry, se o consideramos, mergulhamos em um fosso conceitual, sem escadas ou fendas às possamos nos agarrar na escalada para qualquer Ideal sublime, ou alguma Luz já anunciada, ou que se anuncie. As palavras, como o mundo o tempo e a nossa compreensão de mundo e tempo, estão também em movimento. Πάντα ῥεῖ (panta rei, ‘tudo flui’).23

O sentimento imediato, ante o objeto – real ou imaginário – fenomenologicamente dado, é a única realidade que disponho, sem outras garantias que não as sensuais. Por isso, no final, ainda é o Eu quem fala e aparece, se exibindo (show), ainda que por mim e em mim alter-ado: amando, odiando, desejando isso ou aquilo; ora inventando deuses por afecções sublimadas, ora destruindo os ídolos à base de marteladas. De um jeito ou de outro, é a realidade da vida (Weltschmerz) o que se vê, aí, lançada e desnuda na casa cheia de convivas famintos, vorazes. É o mundo da vida (Die Lebenswelt) que se mostra desde sempre (immer schon da), aqui, aí, lá, no passado, no presente24. No mais, é o escape delirante (através da arte, da religião, da esperança na esperança, da fé na fé, etc.) contra o concreto… Como na frase que vi em algum lugar: “Acreditamos na utopia, porque a realidade nos parece inacreditável.” É. É?

Inventamos o cotidiano e, com ele, nossas doses diárias de algum ópio que nos mantenha sedados contra a realidade da vida, que é dor, deserto e desolação. “Sentir”, como dizia o Alberto Caeiro de Fernando Pessoa, “é estar distraído.”18

NOTAS:

1 MACIEL, Luiz Carlos; CHAVES, Ângela. Eles e eu: memórias de Ronaldo Bôscoli. 4. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. p. 100.

2 No sentido de muito aceito pelas massas, seja na “alta cultura” ou “baixa cultura”, conforme as interpretações individuais. Sim, porque, em relação à música, por exemplo: “o mercado […] contemporâneo é muito homogêneo, diluindo as fronteiras entre ‘alta’ cultura e ‘baixa’ cultura, ou entre erudita e popular. Basta considerar, por exemplo, o marketing de Os Três Tenores, que atingiu o topo da parada de sucessos pop com músicas consideradas eruditas”. (SHUKER, Roy. Introdução. In: _____. Vocabulário de música pop. São Paulo: Hedra, 1999. p. 8-9).

3 ROJEK, Chris. Celebridade. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. p. 35. (Col. Idéias Contemporâneas).

4 “A mais bem-sucedida, a mais bela, a mais invejada espécie de gente até agora, a que mais seduziu para o viver, os gregos – como? Precisamente eles tiveram necessidade da tragédia? [a arte trágica, como ironia]. Mais ainda – da arte? Para que – arte grega?… Adivinha-se em que lugar era colocado, com isso, o grande ponto de interrogação sobre o valor da existência.” (NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 13-4 [§ 1]).

5 Introduzido em Krisis, o termo designava “o mundo em que vivemos intuitivamente, com suas realidades, do modo como se dão, primeiramente na experiência simples e depois também nos modos em que sua validade se torna oscilante (oscilante entre ser e aparência, etc.).” (Krises, § 44. HUSSERL, Edmund. Die Krisis der europäishen Wissenshaften und die transzendentale Phänomenologie. Eine Einleitung in die phänomenologische Philosophie. The Hague: Martinus Nijhoff, 1976. p. 379).

6 Agora (novembro de 2011), enquanto escrevo, mais um livro de Natalie Anderson, Brilho no olhar, compõe o volume 51 da Coleção Modern Sexy, da série Maverick Millionaires (Editora Harlequin). Na apresentação editorial: “Ela não deveria se aproximar de seu chefe mal-humorado… Os opostos se atraem? Rude e rebelde, Lorenzo Hall é um homem que construiu a própria fortuna começando do nada. E agora ele tem um novo objetivo na vida: descobrir se sua assistente pessoal é tão certinha e recatada quanto parece. É claro que Sophy deveria fazer de tudo para não deixá-lo se aproximar. Mas com aquele corpo e aquele brilho no olhar, seria muito difícil não ceder à tentação.” É o tema recorrente em tais romances, e os desmereço por isso. A questão, como a coloco, também diz respeito aos romances clássicos, vendidos em lojas chiques, sites e livrarias dos shoppings centers. Nas bancas, além das brochuras da série Maverick Millionaires, as séries Bianca, Julia, Super Julia, Sabrina (que apareceram no início dos anos sessenta) e Best-Sellers, sempre alcançaram tiragens enormes.

7 1 João, 4, 19.

8 PLATÃO. O banquete, 211c. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).

9 ROMA, Justino de. Diálogo com Trifão, 112; P.G. 6, 460-66. GOMES, C. Folch. Antologia dos Santos Padres: páginas seletas dos antigos escritores eclesiásticos. 2. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1979. p. 70.

10 1 João 4, 7b-8.

11 Citado em: SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 190. [II, § 25].

12 KÜNG, Hans. A Igreja tem salvação? São Paulo: Paulus, 2012.

13 Aqui, novamente, volto a Kierkegaad, na leitura de Camus: “O cristianismo é o escândalo, e o que Kierkegaard pede com simplicidade é o terceiro sacrifício exigido por Inácio de Loyola, aquele com o qual Deus mais se delicia: ‘o sacrifício do Intelecto.’ Esse efeito do ‘salto’ é bizarro, mas não deve nos surpreender mais. ele faz do absurdo o critério do outro mundo, enquanto não passa de um resíduo da experiência deste mundo. ‘Em seu fracasso’, diz Kierkegaard, “o crente encontra [como em Abraão] o seu triunfo’.” (CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 47). Paradoxo porque o movimento da fé, uma vez compreendido pelo intelecto, não pode mais efetivar o seu sacrifício: “Não posso realizar o movimento da fé, não posso cerrar os olhos e lançar-me de cabeça, pleno de confiança, no absurdo; tal coisa é impossível, mas não me vanglorio por isso.” (KIERKEGAARD, Sören. Temor e tremor. Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 47).

14 Os argumentos “cosmológicos”, reduzidos a ontológicos, segundo Kant (1724-1804) – na linha dos de Anselmo de Cantuária (c. 1033/1034-1109) e Tomás de Aquino (c. 1225-1274), entre os autores principais –, são argumentos do tipo a priori, e são falhos. Uma prova cosmológica, segundo Kant, “formula-se assim: se algo existe, deve existir, também, um ser absolutamente necessário. Ora, pelo menos existo eu próprio; logo, existe um ser absolutamente necessário… Mas a prova prossegue e conclui que o ser necessário só pode ser determinado de uma única maneira, isto é, somente mediante um dos predicados, de entre todos os predicados opostos possíveis, e, por conseguinte, deverá ser integralmente determinada pelo seu conceito. Ora, só pode haver um único conceito de coisa que determine a priori esta coisa, ou seja, o conceito de ens realissimum; portanto o conceito de ser soberanamente real é o único pelo qual pode ser pensado um ser necessário, isto é, existe necessariamente um Ser supremo.” Kant continua: “Neste argumento cosmológico reúnem-se tantos princípios sofísticos que, a razão especulativa, parece, aqui, ter desenvolvido a sua arte dialética, a fim de produzir a máxima aparência transcendental possível… Para bem, ao assegurar o seu fundamento, a prova estriba-se na experiência, dando assim a impressão de se distinguir da prova ontológica, que deposita toda a confiança em conceitos puros a priori. Mas a prova cosmológica só serve desta experiência para dar um único passo, a saber, para se elevar à existência de um ser necessário em geral. O fundamento empírico da prova nada nos pode ensinar acerca dos atributos deste ser; então a razão afasta-se dele, inteiramente, e por detrás de simples conceitos investiga os atributos que um ser absolutamente necessário em geral deve possuir… Mas, é claro, pressupõe-se, aqui, que um ser dotado da realidade suprema satisfaz plenamente o conceito de necessidade absoluta na existência… eis uma proposição sustentada pelo argumento ontológico, que assim se admite e dá por fundamento ao argumento cosmológico, o que se pretendera evitar.” (KANT, Immanuel. Kritik der reinen Vernunft. Leipzig: Felix Meiner, 1926. p. 576-78).

15 VATTIMO, Gianni. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed.: Instituto Italiano di Cultura, 2001. p. 17. (Col. Conferências Italianas, 1).

16 VATTIMO, 2001, p. 28.

17 VATTIMO, 2001, p. 21. Ou: “Como tentei mostrar em Oltre I’interpretazione, a hermenêutica se configura como puro e perigoso relativismo só se não se leva bastante a sério as próprias implicações niilistas. Posto que a ‘verdade da hermenêutica’ como teoria alternativa a outras (e antes de tudo ao conceito de verdade como ‘reflexo’ dos ‘fatos’) não pode se legitimar pretendendo valer como uma descrição adequada de um estado de coisas metafisicamente estabelecido (‘não existem fatos, somente interpretações’) mas deve reconhecer-se também como uma interpretação, a sua única possibilidade é a de argumentar-se como tal, quer dizer, como uma ‘descrição’ interna ou leitura sui generis da condição histórica na qual é lançada e que escolhe orientar numa direção determinada, pela qual não existem outros critérios a não ser os que herda, interpretando, desta mesma proveniência.” (VATTIMO, 2001, p. 29-30).

18 VALÉRY, Paul. Au sujet du ‘Cimetière Marin’. In: _____. Œuvres. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1973. p. 132-133. v. 1.

19 VALÉRY, 1997, p. 354. v. 2.

20 VALÉRY, 1997, p. 382. v. 2.

21 VALÉRY, 1973, p. 620. v. 1.

22 VALÉRY, 1997, p. 320. v. 2.

23 Como no pensamento de Heráclito de Éfeso, o Obscuro (c. 535-475 a.C.).

24 Cf. HABERMAS, Jurgen.  Consciência Moral e Agir Comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

18 PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio: 1914-1935. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 247.

 

* Patativa Moog é doutor em Teologia (PUC-RS) e doutor em Filosofia pela UFPB.

 

Revista Philipeia

Ano VI

Edição de Inverno

ISSN: 2318-3101

Parahyba, Brasil

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