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APRESENTAÇÃO 

Valquíria Farias*

Pensar a criação de um caderno dedicado às artes visuais para a Philipeia é, sem sombra dúvida, um desafio que encaro com seriedade e satisfação. O respeito que nutro por cada um dos seus colaboradores e por sua editora Monique Moura, que de maneira persistente, todos esses anos, vem alimentando esta revista de conteúdos riquíssimos, informando e dando ao nosso círculo cultural a profundidade reflexiva que merece, me fez encarar a ideia deste caderno como projeto que já precisa nascer robusto em temos de intenções.

Abordar as artes visuais em sua amplitude, envolvendo teoria e prática, é o desafio que me proponho aqui. Com formato de caderno-dossier, neste espaço pretendo comentar a arte atual que se faz na Paraíba e fora dela, contemplando as exposições, os artistas, as instituições, o circuito de arte.

Embora pareça um tanto pretenciosa, a forma de escrita para este caderno é bastante simples. A intenção é construir um conjunto de relatos breves sobre assuntos caros à arte contemporânea. Estes textos curtos serão exercícios de escrita desafiadores para mim, pois há muito tempo não escrevo relatos. Dedicarei atenção especial aos artistas neste trabalho, convidando curadores, colecionadores, galeristas e dirigentes institucionais para compartilharem suas experiências e assim colaborar com ideias e ações para a arte.

À editora da Philipeia argumentei que o caderno de artes visuais seria inaugurado com declarações (statements) e obras de dois artistas que julgo fundamentais à compreensão que tenho do circuito de arte paraibano, que, a meu ver, tem se mostrado cada vez mais crítico e inclinado à experimentação e às trocas.

Inicio este Caderno com Serge Huot e Cris Peres, artistas de gerações diferentes, de lugares diferentes, e atuantes no nosso Estado. Serge é de origem francesa e declara que sua arte teve início no Brasil no final dos anos 1980, quando se instalou no Recife, capital pernambucana. Reside atualmente na cidade do Conde, litoral sul da Paraíba, precisamente na Praia de Arapuca, onde fundou uma residência artística como projeto-obra, a Arapuca Arte Residência. Cris é artista paraibana que detém um início de carreira considerado promissor entre os artistas com formação acadêmica em artes visuais.

A escolha de Serge Huot e Cris Peres foi pontual. Suas obras possuem aproximações conceituais que estão na esteira da arte e vida, que situa o fazer artístico como instrumento de transformação, algo que me despertou o interesse para a pesquisa das relações entre natureza e sociedade, assunto abrangente e atualíssimo nestes tempos de obscurantismo político. Ambos trabalham com materiais industrializados e descartados em suas proposições, como isopor, plástico e cimento. Em seu trabalho, Serge parte de referências filosóficas e antropológicas, especificamente do legado de Pierre Restany sobre a natureza da arte. Cris conecta o seu fazer ao problema da gravura como objeto tridimensional para discutir a noção de vazio vinculado ao consumo.

De alguma maneira, as falas destes artistas são reflexões a respeito do significado da arte e do ser artista. E, desejando ao leitor uma boa compreensão destes trabalhos, faria a sugestão da leitura de alguns livros, como, no caso do trabalho de Serge, “As Estruturas Antropológicas do Imaginário”, de Gilbert Durant, “A Doutrina Zen da Não Mente”, D.T Suzuki” e “O Livro Branco da Arte Total” de Pierre Restany. Do trabalho de Cris Peres, recomendaria a obra recente “A dobra e o Vazio”, de Sérgio Romagnolo, na referência às esculturas do vazio numa perspectiva filosófica necessária, na qual a ausência será a potencialidade presentificada.

 

 

SERGE HUOT, 1964. Saint-Vallier, França.

Série “Danger”

Fotos por Flávio Lamenha

 

 

 

 

 

 

Declaração. Por SERGE HUOT, 1964. Saint-Vallier, França.

Atribuir uma definição para a arte é algo complexo. Para mim, é evidente que a arte tem um papel fundamental na coesão do mundo. Eu vejo a arte como filosofia. Porém, a arte fornece uma coisa a mais: ela cria a imagem. Então, de repente, a arte cria a realidade. Daí a importância da arte como elemento de filosofia e como instrumento político. Porque ao criar realidades, a arte se entremete nos interstícios da sociedade de maneira totalmente livre, partindo de singularidades, criando visões de mundo. Ao questionar o mundo sempre, a arte se torna perigosa para o Sistema. Então, realmente, a arte é uma arma. Por isso que vejo meu trabalho como um engajamento para a vida. Eu sempre me reporto à velha história do homem das cavernas… Nos tornamos humanos quando nos reconhecemos no outro. Criamos a linguagem quando nos tornamos humano, e essa linguagem nasceu primeiro das imagens nas cavernas. Então, para mim, aí está chave do que é a arte. A arte permite questionar o mundo, nos questionar através da criação de imagens. E se a gente extrapola, faz uso da Ciência, da Física ou mesmo da Física Quântica, que determina a relatividade da realidade, isso é mais uma prova do perigo da arte para o Sistema. A arte é transgressora. E essa subversão surge através das experiências, das várias expressões, do uso das linguagens. São imensas as possibilidades da arte. Ela é ao mesmo tempo coletiva e individual. Do ponto de vista político, isso é muito importante. A política é exatamente a reivindicação da liberdade individual. E a liberdade de criar é para o coletivo. A arte surge do coletivo porque o ser humano está no mundo. A questão da universalidade da arte não parte de um ponto determinado pelo poder. Eu quero me referir ao etnocentrismo da cultura ocidental. Para mim, a arte explode tudo isso. Historicamente, arte é sempre para romper padrões. E é assim como a natureza, diversa na profusão, como as árvores que dão as folhas, milhões de folhas. A natureza cria e dar. Eu vejo a arte assim.”

BIO

Serge Huot, em 1982, então com 18 anos de idade, numa primeira tentativa de deixar seu país, embarca para o México, onde se instala por quase um ano, principalmente perto da fronteira americana. Retorna para a França, mas seu objetivo é se tornar artista e viver na América Latina. Em 1984, se desfaz de seus pertences e compra passagem para o Brasil e, depois de conhecer algumas cidades, se estabelece no Recife, Pernambuco, onde fixa residência, se casa e tem três filhas. Em 1989, frequenta o Curso de Arte ministrado pelo artista visual e crítico de arte Roberto da Silva. Participa do Coletivo “Realistas Urbanos” e integra o “Grupo de Pesquisa Artística sobre a Realidade Urbana”. Em 1991, realiza sua primeira exposição individual no Recife. No final de 1992, viaja para França onde passa a atuar como artista e educador até 2005. Faz de seu ateliê um “Ateliê Livre”, localizado no interior da França, perto da cidade de Lyon, e onde recebe inúmeras pessoas para discutir arte, história da arte e dinâmica criativa. Entre 1993 e 1996, cria o programa de rádio “Questões de Arte e Sociedade”, através do qual entrevista o crítico Pierre Restany, com quem mantém contato até seu falecimento, em 2003. De volta ao Brasil, monta a associação “Leão do Norte” e uma residência artística com objetivo de difundir a arte contemporânea produzida no Nordeste. De 1996 até 2007, entre várias idas e vindas ao Brasil, realiza várias exposições pela Europa. Em 2004 se instala Toulon e depois em Marselha. Em 2007, já de volta ao Brasil, funda a Arapuca Arte Residência”, no litoral sul paraibano, onde também reside até o dia de hoje.

 

 

CRIS PERES, 1988. João Pessoa, Paraíba

 

Série “Vocabulário do Vazio”

Fotos por Danilo Rufino

 

 

 

 

 

 

Declaração. Por CRIS PERES, 1988. João Pessoa, Paraíba

Desde que a arte dissipou questões miméticas e abriu caminho a reflexão, acredito que a posição do artista é a de pensar criticamente, de sublinhar o real de modo a estabelecer lugares de fala. Ser artista é um ato político e requer coragem. As razões políticas no meu trabalho estão atreladas às tensões entre o vazio existencial e o que nos foi inoculado como causalidade. Me recorto como mais uma peça desajustada do Sistema, e de maneira empírica compreendo o lugar dos esvaziamentos que está na ação do ter, do consumir e do esquecer-se, que são resultantes dos acúmulos vazios; um enfado pós-moderno.

Minha primeira individual aconteceu este ano, na Galeria Casarão 34, em João Pessoa, e um dos trabalhos que produzi nomeou essa mostra: Vocabulário do Vazio. Os trabalhos que apresentei metaforizavam através do plástico a seriação industrial e as repetições presentes na técnica da gravura. Como disse anteriormente, busco sublinhar o real e aproximar a linha de atenção do que está posto e o desapercebido: os meandros do acúmulo, do descarte, da postura contemporânea do consumo. Investigo a impressão de objetos cotidianos utilizando sedimentos industriais, como o concreto e o gesso, arriscando inseri-los no campo ampliado, o que considero uma gravura-objeto. Todo o percurso de construção caminha com a percepção da rotina que está no concreto do piso, no plástico do utensilio, no vazio retorcido e ocupado pelo esvanecimento matérico e relacional. Um repertório de quase nadas.

 

BIO

Cris Peres é artista visual, pesquisadora e graduanda do Curso de Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba. Tem o trabalho voltado para a experimentação, partindo do princípio da gravura no campo ampliado. Utiliza o produto industrial, principalmente o plástico, como plataforma de processo. Interessa-se pela inquietude do ser no meio em que ele se projeta, discutindo o liame produto/individuo. Participou de exposições coletivas na cidade e realizou sua primeira individual em julho de 2019, na Galeria Casarão 34, intitulada Vocabulário do Vazio.

©

 

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* Valquíria Farias é curadora e crítica de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Dirige a Galeria Casarão 34 na capital da Paraíba, é idealizadora do  Projeto Movimento na Residência Artística Arapuca (Paraíba), coordenadora do Laboratório de Curadoria na Galeria Casarão 34 e organizadora do Caderno de Artes Visuais da Revista Philipeia, na qual também tem textos de crítica e curadoria publicados.

 

Revista Philipeia 

Ano VI 
ISSN: 2318-3101 

Primavera Latino-americana

Parahyba

Nordeste – Brasil

 

 

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