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HETEROTOPIA DO SERTÃO E DISTOPIA DO MUNDO

Beano de Borba*

O longa* de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles revela de forma profunda e meticulosa uma experiência social de resistência e enfrentamento das hostilidades sistêmicas e naturais, algo que cabe ao sertão não como reduto de pobreza e miséria, mas como método e tradição. A enunciação, que funciona como máxima, de Ailton Krenak, em que ele constata e ensina que o homem branco irá sofrer com o bolsonarismo enquanto que o indígena já enfrenta o colonialismo brutal desde o tal descobrimento, também se aplica ao sertanejo. O sertão e a cultura indígena devem ser inspiração para nossa identidade, nosso projeto de mundo e nossa resistência ao modelo distópico que a necropolitica bolsonarista e o capitalismo financeiro impõem.

É desse sertão que os diretores extraem a poética da produção, a brutalidade que permeia o contexto atual e a maneira de reagir a ela. O povoado de Bacurau no Município fictício de Serra Verde (que corresponde na realidade ao povoado de Barra no Município de Parelhas- RN), enfrenta uma crise no abastecimento de água, convertida em um bem privado que é controlado por milícias sertanejas e usado eleitoralmente pelo prefeito como moeda clientelista em promessas homeopáticas.

Embora a crise hídrica e conflitos resultantes, a manipulação eleitoral e voto de cabresto sejam uma situação histórica do cotidiano sertanejo, o que torna Bacurau uma distopia tecnológica é justamente a inclusão digital e o acesso eficaz aos recursos da web 2.0, num povoado onde nunca falta sinal no celular e num país onde o culto às armas e o Estado policial-armamentista se consolida a ponto de anunciar na televisão execuções públicas no Vale do Anhangabaú e onde prefeitos trocam vidas inteiras de um povoado por um punhado de dólares para a diversão gamer de uns gringos incautos. Como Gabriel Mascaro em Divino Amor, Kleber e Juliano apresentam um quadro de Brasil terrívelmente possível, onde a tecnologia é instrumento do tráfico de influências, abuso de poder e da teologia capitalista da prosperidade e das armas.

Mas em que Bacurau ensina a resistir e exalta o sertão como tradição de resistência e manancial de sentido? Justamente por apresentar um povoado extremamente unido em sua consciência de classe e vínculos comunitários e ser uma heterotopia[1] letrada com biblioteca e museu fartos, ciberconectada, onde tradição popular e saber formal do professor são igualmente reverenciados. Em Bacurau, seus habitantes se orgulham do Museu histórico do povoado, das memórias do cangaço, onde a igreja é uma instituição afetiva, mas apenas facultativa, onde um puteiro container e uma mulher trans têm trânsito livre. Bacurau é um oásis de memória e cultura e uma heterotopia, um lugar de alteridade conectado à brutalidade do sertão e do mundo. O filme vai além da tradição alegórica do cinema de Glauber Rocha, cujos trabalhos reelaboram tradições do sertão e imagens arcaicas da cultura nordestina que coexistem, numa temporalidade mítica e montagem suspensas da história ordinária, com os conflitos políticos e agrários e a crise hídrica do sertão. Bacurau integra essa memória, essas referências alegóricas à vivência das pessoas: as armas, o cangaço e as recordações orgulhosas saem do Museu e invadem a praça. De Augusto Matraga a Antonio das Mortes e Lia de Itamaracá, Bacurau vai além do pássaro “brabo”, é um pássaro que herda tradições e carrega gente.

[1] Conceito de Michel Foucault proveniente da conferência “Des Espaces Autres” proferida em 14  de março de 1967. Refere-se a espaços que invertem, suspendem e questionam a lógica dominante, como uma utopia realizada espacialmente. Dos barcos aos espelhos, às instituições de controle, asilo e recolhimento, heterotopias são locais de alteridade e margem social.

* Bacurau possui um grande elenco formado por atores paraibanos e foi filmado entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba.

©

* Beano de Borba é doutorando em Antropologia pela UFPE, crítico e curador de arte. 

 

Revista Philipeia 

Ano VI 
ISSN: 2318-3101 

Primavera Latino-americana

Parahyba

Nordeste - Brasil

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