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PARA LER LEANDRO GOMES DE BARROS ANTES DE MORRER

 

Aderaldo Luciano*

 

Há um ano, no dia 19 de setembro de 2018, o cordel brasileiro foi reconhecido pelo conselho deliberativo do IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial. No ano de 2018 celebrou-se, sem muita pompa, a passagem do centenário da passagem de Leandro Gomes de Barros, o Pai do Cordel, pela terra e pela cultura brasileira. Foi ele quem consolidou a forma e a aura cordelística. Foi ele quem plantou o marco divisório entre nossa poética e o modelo gráfico português chamado de “literatura de cordel”.

Quando Leandro criou a forma poética, estabeleceu a ruptura e a construção do novo. Foi ele, a partir da criação do cordel, quem originou a construção, com a dedicação dos seguidores, do paradigma poético do povo. O reconhecimento, cem anos depois, deve fecundar no seio dos poetas cordelistas, o conhecimento do processo histórico, autores e obras fundamentais, elementos sociológicos e antropológicos, nuanças de sua poética, sua filiação ao todo poético nacional, ao mesmo tempo que recomenda tratamento especial, projetos políticos de inclusão, de fomento, de proteção e zelo.

Nos mais de 100 anos em que firmou-se como arte poética e consolidou-se como a única forma poética genuinamente brasileira, viva e de vanguarda, o cordel brasileiro, como o chamamos, rompeu as barreiras do preconceito social, linguístico e de origem para escrever-se e inscrever-se como matéria literária inclusa no todo literário nacional. Mesmo assim, munido de potência e atuação, se viu, também, acuado, flechado por olhares enviesados oriundos da academia. Ainda pede, e estar a insistir, que lhe sejam aberta a porta, feito o convite, servida a mesa para que possa almoçar dignamente na sala de jantar da cultura literária.

Não é mistério o fato de sua importância no letramento de algumas gerações. O cordel ensinou  a ler e a pensar, a conhecer o mundo pela rigidez de suas sextilhas, pela doçura de suas rimas, pela carícia de seu ritmo, pelo valor de suas histórias, pela magia de sua linguagem. Nesse tempo, ainda, o Brasil viu o cordel ser descoberto pelas editoras do sudeste e virar livro, dialogando com as artes plásticas, com o cinema, com a arte sequencial dos quadrinhos, com o teatro, com a música. Quando muitos assinaram o fim do cordel, foram surpreendidos por ele surfando as ondas digitais da internet, ressignificando-se em bytes e códigos e algoritmos.

As antologias

As antologias de cordel nasceram em 1929 com a publicação de Cantadores e Poetas Populares, de Francisco das Chagas Batistas, um dos pioneiros do cordel, paraibano e fundador da Popular Editora de João Pessoa,  responsável por publicar diversos títulos de Leandro Gomes de Barros, o Pai do Cordel. Essa antologia é importantíssima porque, pela primeira vez, um poeta se contrapõe aos pesquisadores mais respeitados da época, chamando a atenção para uma produção que ficara à margem.

Seguiram-se as antologias Literatura Popular em Verso, da Fundação Casa de Rui Barbosa (1964); a Antologia de Literatura de Cordel, da Fundação José Augusto, de Natal-RN (1977); a Antologia de Literatura de Cordel, da Secretaria de Cultura do Ceará (1978); a Literatura de Cordel, do Banco do Nordeste (1982) e 100 Cordéis Históricos Segundo a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (2008). Só em 2017 é que se constrói nova antologia, a chamada Cordelistas Contemporâneos, pelas editoras Veloso e Nordestina.  Em 2018, a Academia de Cordel do Sergipe lançou uma coletânea só com textos de autoria feminina: Das Neves Às Nuvens – I Antologia das Mulheres do Cordel Sergipano

A produção dessas antologias tinha como objetivo apenas apresentar uma amostragem da produção cordelística, as primeiras elencando os principais nomes e suas obras e se repetindo, pelo menos até a da ABLC, com os mesmos nomes e obras, alguma novidade, mas pouco. No entanto, até 2008, essas antologias não traziam autoras de cordel. É necessário reunir os poetas da base fundadora (geração princesa), da base continuadora (geração regente), da base consolidadora (geração coroada) e da geração atual, que nomeamos de geração guardiã, para uma reflexão sobre as vicissitudes cordelísticas.

Leandro

Falávamos do centenário da morte de Leandro, passado em 2018. Voltemos ao movimento. Leandro Gomes de Barros, paraibano foi nascido no sertão, na cidade de Pombal, no sítio Melancia. Sua passagem pela Terra se dará, como ícone da poesia brasileira, na cidade do Recife e seu embarque para o rio da eternidade acontecerá nesse mesmo torrão.

Não nos resta dúvidas desse feito leandrino, dessa magnífica criação e sistematização chamado (erroneamente, mas chamado) de cordel. Porque o cordel não é apenas uma forma fixa da poesia universal, além da única forma poética genuinamente brasileira. O cordel é também um sistema literário, na concepção de Antonio Candido, nosso crítico e teórico da literatura mais respeitado, aquele que nos apresenta a literatura como um direito essencial da humanidade.

É esse sistema que nos mostrará a verdadeira face do criador do cordel brasileiro: a presença de um autor, de um editor, de um vendedor e de um leitor, visto que Leandro foi insistente nessas práticas, lendo e corrigindo seus próprios folhetos e opinando sobre outros. A codificação cordelística, a sistematização de sua produção, a observação na confecção gráfica dos folhetos, a estratégia de vendas e a atuação social como principal poeta de bancada de sua geração, transformaram-no, nos tempos em que não se chamava o cordel de cordel, em personificação da própria poesia do povo.

Leandro dialoga em sua importância com os fundadores da poesia nacional: conversa com os cronistas, quando se lança sobre as delícias e mazelas da terra; afina-se com Gregório de Matos em sua crítica de costumes e pena ferina na descrição da cidade do Recife; conluia-se com Gonçalves Dias, ao buscar liricamente a descrição telúrica de sua gente; abraça-se a Castro Alves na forma e na técnica; envereda por elementos dos estilos de época de nossa literatura.

Leandro desenvolveu o cordel brasileiro quando as correntes literárias nacionais eram regidas pelas diretrizes do Realismo, do Naturalismo e do Parnasianismo. E deles herdará vários elementos constitutivos. Do Realismo abraçará os temas e a reflexão sobre as turbulências sociais, as denúncias, os costumes, a notícia, as paródias, todos os embates entre as classes. Do Naturalismo trará o debate das ideias, a discussão entre personagens que simbolizam o aparecimento das novas tendências nacionais (temas religiosos, discussões esotéricas, observação cotidiana pautada pelo debate e pelas pelejas, sinais do fim do mundo, profecias).

O cordel leandrino, como a literatura brasileira da época, ambientará suas histórias sobre o tema regional, sobre a terra, sobre o sertão e seus viventes, mas também sobre a transição de uma vida rural para um tempo de fundação da urbanidade. Nota-se, nele, o aparecimento dos romances, mas também o vasto material de crítica aos costumes. O Parnasianismo ofertará ao cordel de Leandro sua forma fixa, a observação do verso de métrica perfeita, mas o poeta, o gênio, optará pelo verso de sete sílabas, o verso do povo, o verso da respiração.

O chamamento é para que não se deixe apagar, nem sofregar, a chama cordelística. Para que a unidade seja regida para o fortalecimento da causa, mesmo com as diferenças latentes no corpo. As vaidades serão virtudes quando servirem para melhorar as obras e serão venenosas quando ferramentas para a própria destruição do cordel. O debate é e será sempre uma pauta. O deboche será sempre uma fenda. Como se disse há anos: poetas cordelísticos de todo o Brasil a hora é agora. Uni-vos!

* Escritor e poeta paraibano. Dr. em Literatura pela UFRJ.

©

 

Revista Philipeia 

Ano VI 
ISSN: 2318-3101 

Primavera Latino-americana

Parahyba

Nordeste - Brasil
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