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O SENTIDO DA CULTURA NO CAMPO DAS EXPOSIÇÕES

Ana Monique Moura*

 

Exposição MÁSCARAS – Rituais e Celebrações, Farsas e Transgressões – Curadoria de Cruzes Canhoto e da antropóloga Maria Manuela Restivo – 2016.

 

A cultura, na medida em que se põe em exposição (especifiquemos: ao entrar numa galeria ou museu), em seus devidos eixos curatoriais, deixa de ser, ela própria, uma cultura tal qual é vivenciada e expressa antes de entrar no espaço. A galeria ou o museu transfigura a expressividade desta cultura e, além disso, fornece ao expectador uma mensagem perpassada pelo posicionamento ativo do artista e eivada pelas reflexões possíveis, seja da crítica, seja da curadoria. Não há uma passividade da relação entre o artista e a cultura. O artista, ao invocar a cultura, intervém necessariamente nela.

A exposição de culturas possui o sentido daquilo que, de modo certeiro, Hans Belting cunhou por pós-cultural. Esse “pós-cultural” não deve ser abordado como negação da cultura, mas como o resultado da intervenção dos processos expositivos que buscam, eles próprios, afirmar a cultura de alguma maneira. Esse caso é importante para observamos o momento da estética decolonial na invocação das culturas não hegemônicas.

A arte estaria, assim, posta num âmbito de distanciamento necessário da cultura, tendo esse processo como único meio de abordá-la. Isso incorre problemáticas sociais e políticas, sabemos. Justifica ao mesmo tempo o espírito de seleção que a vivência da arte instaura e, nesse processo, de estranhamento dentro daquilo que se propõe, com algum fracasso, ser revelador. Me refiro especialmente ao estranhamento por parte daqueles elementos que compõem a cultura antes de sofrerem os processos artísticos de quem a captura. Dentro desses elementos estão as próprias pessoas que exprimem determinada cultura capturada ou capturável. No caso, não são necessariamente elas que estarão na exposição injetando o sentido ou mesmo buscando o sentido da relação da cultura exposta a partir do contexto delas próprias. Ora, a cultura delas dá-se por si a partir delas, não precisa que estejam numa sala de galeria ou museu para tal. Como disse Hans Belting, as culturas “são aquelas que geraram sua própria arte” (A exposição das culturas. Tradução de Arthur Morão in proymago.pt). A arte de exposição de cultura é outra coisa. A exposição de culturas será ainda uma “outridade” – para propositalmente não dizer alteridade – numa refração à cultura em sua “manifestação plena”.

O inevitável é que o estranhamento é também bem-vindo em matéria de arte. O fracasso da revelação é parte, portanto, de um certo sucesso da arte, especialmente da arte contemporânea.  É nesse aspecto que o pós-cultural é apenas uma etapa (como o próprio termo, munido do “pós”, se põe). Não se trata, insisto, de uma negação da cultura. O estranhamento provoca a soma, o convite ao olhar não acostumado. O inteiramente outro naquilo que é, ao mesmo tempo, próprio, se torna um elemento substancial para a experiência estética nesse caso.

Bem, até aqui foi mencionado uma perspectiva afirmativa, diria, e não negativizadora do processo do pós-cultural. Mas isso não implica, porém, numa contenção de sua problematização no âmbito da negatividade. É necessário entender que há outra via de processo – e esta, a negativa, é delicada. Aqui a antropologia crítica, ou ainda, filosófica, deve desempenhar um papel de destacar os riscos puristas da estética, ou mesmo, os riscos, diria, megalomaníacos, d’ela se apresentar como uma mediadora da experiência superior de mensagens do sensível no suposto âmbito da “cultura”.

A musealização das culturas é a rota inevitável dessa via.  Aqui o sentido ativo de identidade cultural também parece arrefecer-se, ao ser lançado ao mero universo de memória estética, somado ao colecionismo etnográfico,  expressão esta já atestada pelo antropólogo James Clifford.

A musealização implica no sentido de objetificação das culturas expostas, mas não no aspecto da reificação, ou seja, o de torna-las banais. A objetificação aqui resguarda um sentido de objeto de rara preciosidade, aspecto de algo perdido, cuja identidade ativa não mais existe e, portanto, a identidade passiva, ou seja, a identidade refletida e manipulada pelas constantes seletividades curatoriais e expositivas, é a única passível de referência quando se quer invocar as culturas nesse contexto.

Diante desse cenário, a pergunta sobre como nos posicionamos esteticamente diante das culturas expostas carrega um inquérito interno justo, se associado com a preocupação de como nós utilizamos o sentido de arte como reveladora das culturas expostas.

Com o espírito do pensamento decolonial tomando as vias das artes desde o século XX e, com mais força, no século XXI, é necessário indagarmos também sobre a posição da arte ocidental em seu ranço estético de promessa iluminista eurocentrada na confluência com seu pedido de redenção e perdão às chamadas “culturas periféricas”. Se o Ocidente busca expor as culturas como seu próprio espelho (e suas devidas refrações) ou como alteridade profunda que é capaz de lhe ensinar a partir do clichê da “soma”, isso parece questão de só menos importância, pois ele busca, geralmente, fazer as duas coisas ao mesmo tempo, em sua agilidade conhecida.

A medida mais importante, ao meu ver, é que não confundamos a relação da arte com a exposição das culturas como um convite a uma vivência originária do que pode ser o plenamente cultural. A arte de exposição, insisto, realiza seu sucesso por meio do fracasso em não ser ela própria uma cultura plena. É pós-cultura. A galeria e o museu são redutos cabais desse processo. Mas o sucesso da arte é inteiramente perigoso, quando, habitando o pós-cultural, não provoca eficácia da experiência estética nos processos de reflexão da cultura, mas faz repetir a “apropriação” por parte da cultura ocidental, tomada de seus ranços, remorsos e acrescidos do fetichismo cultural velado pela bandeira da afirmação das “outras culturas”.

Por outro lado, o sucesso (no sentido dialético) da arte é bem-vindo, quando, assumindo seu fracasso, se condena  a si própria no campo da crítica. E não há nada mais relevante para a arte, ao meu ver, do que a crítica dela própria, ao invés do limbo do não continuum. A arte no contexto do museu se lança, ao fim, como um por fazer. Enquanto a cultura no mundo se mostra, sempre, como aquilo que está se perfazendo. A musealização das culturas traz o seu perigo, mas é inevitável para nós, como também já reconheceu e cedeu Hans Belting, termos de assumir que o pós-cultural também convida à memória e ao reaparecimento e, assim, também, à afirmação, em outras possibilidades, daquilo que está aquém do pós.

Acrescentaria: há uma cultura de exposições que se inserem em algo para fora da própria cultura, e ela não pode ser confundida com aquilo que antecede a exposição, tampouco ser concebida como a cultura em sua mais alta revelação. Se pudéssemos ir mais em frente, se poderia dizer que, além da estética, uma fenomenologia da exposição de culturas não serviria, ademais, ao retorno às culturas expostas, mas a uma abertura de mundos culturais outros a partir da representação das culturas do mundo, apesar da, muitas vezes, lamentável musealização do mundo a partir da exposição de culturas. Porém, lançar tais mundos de culturas às unívocas esferas do colecionismo étnico, ou do fetichismo, é o problema ao qual só uma postura mais crítica, por parte de um olhar não acuado, pode propor mudança de viés, contra o imperativo da interpretação de culturas. A atitude estética, liberta de seu mito de atitude na reverência, mais que referência, do belo cultuado, como já propunha George Dicke na obra “O mito da atitude estética“, assim como a libertação do peso da interpretação, que sempre pode se mostrar tendenciosa, algo da qual Susan Sontag nos propõe nos libertarmos,* parece ser uma forma de estancar esses processos insistente e viciadamente ocidentais na exposição de culturas.

 

NOTAS:

* * “…a interpretação não é (como muitos supõem) um valor absoluto, um gesto da mente situado em quaisquer faculdades intemporais. A interpretação deve ela mesma ser avaliada no interior de uma perspectiva histórica da consciência humana. Em alguns contextos culturais, a interpretação é um ato libertador. É um modo de rever, trans-avaliar, de escapar a um passado morto. Em outros contextos culturais, ela é reacionária, despropositada, covarde, asfixiante” (SONTAG, Susan. Against Interpretation: And Other Essays, Picador USA, 2001, p. 7.)

 

* Professora na Universidade Federal da Paraíba. PhD (UFPB & HGB, Leipzig, Alemanha).

©

Revista Philipeia 

Ano VI 
ISSN: 2318-3101 

Primavera Latino-americana

Parahyba

Nordeste - Brasil
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