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SANHAUÁ E O CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL*

Os anos 60 na Paraíba

 

[Selecta]

Hildeberto Barbosa Filho*

 

Foram de crise os anos 60. Crise no plano econômico, político e cultural. O Brasil passava por intensas modificações. O calor desenvolvimentista do governo Kubtschek pôs em ebulição a sanha do capitalismo monopolista, aumentando, assim, a dependência de nossa economia em relação a dos países desenvolvidos, especialmente, os Estados Unidos. Por outro lado, intensificava-se a crise do Populismo, na medida em que suas promessas políticas paulatinamente tornavam-se inviáveis à satisfação das expectativas populares que, a seu turno, eram cada vez mais crescentes. O debate cultural era amplo e plurifacetário, dado o espaço que se criou para a real participação das massas. E, se na órbita política, esta inclinação democrática da sociedade brasileira se viu, de repente, tolhida pela brutalidade do golpe de 64, o mesmo não aconteceu no plano cultural. Como se sabe, somente por ocasião do segundo golpe, o de 68, fecha-se o cerco sobre a criatividade de artistas e intelectuais, por mais quatro anos.

Como a palavra poética reagiu a tudo isso?

Em primeiro lugar, é preciso levar em conta duas características do período populista da história brasileira, em particular as décadas de 50 e 60: 1º a intensificação do processo de industrialização e 2º a efervescência do debate cultural. A estas exigências da realidade, o imaginário da palavra poética procura responder em diversos sentidos. As vanguardas (e aqui nos referimos à Poesia Concreta, à Poesia Praxis e ao movimento Poema Processo) aprofundam a discussão em torno à problemática da forma e da linguagem, postulando uma atitude crítica a ao mesmo tempo inventiva diante do passado. Em outros segmentos, o debate se volta para questão do engajamento e da eficácia revolucionária da palavra poética.

Neste momento, o discurso literário se reveste de uma “aura” poderosa de atuação e se pretende instrumento de tomada do poder. Ao mito da nova linguagem incorporado ao credo vanguardista, a poesia social e participante da década contrapõe o mito da palavra, enquanto marma de transformação da realidade e meio eficiente de interferência no mundo.

A efervescência política e o intenso clima de mobilização favorecem a adesão dos artistas e intelectuais ao projeto revolucionário. Tal projeto, ao lado das contradições desencadeadas pelo processo de modernização industrial do governo Juscelino Kubischek e da crise do populismo, que culmina na gestão de Jango, emerge como referente de uma poesia, ora contendística, a exemplo dos Violões de rua, ora experimental, como a praticada pelos poetas que se aglutinaram em torna da revista Noigrandes. Isso, sem esquecermos ainda que, em meio às disputas verbais da lírica populista e vanguardista, havia a presença de poetas independentes, contemporâneos de outras gerações, comprometidos com uma tradição de individualidade poética, a que Assis Brasil denominou de “tradição da imagem” e Heloísa Buarque de Holanda chamou de “poesia de permanência”.

Este quadro, pincelado a nível nacional, repercute em todos os estados da Federação, obviamente limitado em suas peculiaridades.

A Paraíba, particularmente João Pessoa, nos anos 60, tende a iniciar o que poderíamos nomear de processo de metropolização. Elastece-se a instalação de cursos universitário; acentua-se o crescimento do parque industrial; modifica-se a paisagem urbana com a pavimentação do asfalto e a construção dos viadutos; estende-se a área urbana pela periferia, em múltiplos conjuntos populares; começam a surgir os primeiros arranha-céu, tudo a espelhar a reviravolta de uma época, a mutação de hábitos e costumes, a necessidade de uma transformação, inclusive, no terreno cultural e artístico. Coincide justamente com este período os primeiros sinais de desmoronamento de uma época, marcada pelo símbolo da boêmia intelectual, resguardada pelo pontificado lítero-etílico-filosófico, de Virgínius da Gama e Melo, no quartel-general da Churrascaria Bambu (…).

Virgínius da Gama e Melo

É, portanto, dentro desta atmosfera de mudanças e de agitação intelectual, que, entre outros, origina-se o Sanhauá, no despontar da década de 60, precisamente em 1963, quando Marcos dos Anjos, lança seu livro Alguns Gestos, furando o cerco do ineditismo a que estava relegado o escritor paraibano. A Marcos Vinícius e Anco Márcio, formando-se, desse modo, o núcleo básico e inicial do grupo, mas tarde robustecido com os trabalhos de Ponce de Leon, A. Serafim Rêgo e Sérgio de Castro Pinto.

Além de reagir contra a burocracia da vida literária paraibana, clicherizada na retórica das tertúlias e dos grêmios literários, o Sanhauá surge como resposta às transformações econômicas e sociais da época, da mesma forma que se põe em sintonia com as experimentações poéticas em termos nacionais.

 

* Hildeberto Barbosa Filho é poeta, escritor e crítico literário paraibano.

 

Revista Philipeia 

Ano VI 
ISSN: 2318-3101 

Primavera Latino-americana

Parahyba

Nordeste - Brasil
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