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Poemata é um caderno de divulgação da poesia contemporânea paraibana.*

Nesta edição selecionamos dois poetas: Josafá de Óros e Joacyr Bezerra de Lima.

Boa Leitura!

 

 

 

 

LÁ VAI O POETA*

A Carlos Drummond de Andrade

 

 

I.
De pedra em pedra alicerço minha poesia

II.
De seixos silenciosos
Sob o mar aberto de toda aventura
Rasgo o desconhecido.

III.
Imito-me nos seixos
E sou, pequenos pães na paisagem da fome
Inscrições antigas do homem
Semeados lacunares, vazios
Na velha poeira do tempo
Na nuvem seca das tardes.

IV.
Esfumando veredas e estradas
As terras tostadas
Gritando involuntárias os repetidos ecos
Nas gargantas! Nos boqueirões largos! Nas serras… Serras!

V.
Lá vai o poeta
Com a vista larga, a voz frágil e distante
Os ombros estreitos
E o mundo.

VI.
Lá vai o poeta
Devagar, divagando
Olhando as borboletas, pensando o homem de ferro
Escondendo garranchos, escrevendo no barro
E no bolso (os minúsculos gafanhotos do tempo)
Os tantos nós e os nós cegos
Como pedras
No cordão da memória.
Lá vai o poeta!

VII.
Lá vai o poeta
No aceiro da esquerda
Com a boca seca (a alma lavada)
Brincando com as palavras.

VIII.
Lá vai o poeta
Entre troncos, galhos (encurvados como as palavras, quase sem fim)
No cerrado do mundo

IX.
Lá vai o poeta, lá longe (vai o poeta)
Se equilibrando na vida
Se esquivando da morte
No espinho de luz da poesia

X.
Lá vai o poeta
No vão do mundo
Tecendo segredos e dores

XI.
Lá vai o poeta
Catando besouros, sexos nas moitas, anotando sobre cores
Guardando olores em frascos, memórias
Presságios, passamentos.

XII.
Lá vai o poeta
Na estrada gauche da vida

XIII.
Lá vai o poeta
No plano exíguo do descaminho
Na luz terna do seu parto
Na fadiga dos olhos senis
Na força da pedra brilhante
No minério insone da vida.

XIV.
Lá vai o poeta
Achando a vida na vida
Na dureza de metal dos percalços
Na ferrugem do corpo.

XV.
Lá vai o poeta
Achando o mundo no mundo
A pedra de toque do mundo
Burilada em cuneiforme.

XVI.
Lá vai o poeta
Com seu discurso concreto
Tateando o largo do tempo

XVII.
Uma pedra (murmurou o poeta) é uma coisa só
E não tem nome uma pedra
É invólucro de si mesma, uma pedra
É invólucro aberto e não tem porta
Nem janela, nem rasgo, qualquer fresta
Por onde se entra, por onde se sai
Sem vestimenta a pedra, nua
Não tem casca
De miolo nada tem, nem idade
Nem círculos no cerne (tem cerne?)

XVIII.
Pedra, pedra mesmo que é pedra, é silêncio
Não tem cérebro, não tem voz
Pedra é interdito atroz
Da vez, de voz da voz
Voz dos passos, das pegadas, dos rastros
Pedra solta, solitária pedra
No meio do caminho.

XIX.
No meio do caminho havia uma pedra
Sob o signo cósmico das poeiras.

 

Josafá de Óros

 

Este poema venceu o Concurso Nacional de Poesia Carlos Drummond de Andrade (2018) em Itabira.

Josafá de Óros é poeta e xilógravo. Mora em Campina Grande – Paraíba.

©

 

EPIFANIA DA RATIO

E O FOGO SEMPRE VIVO

 

 

Roça o mundo uma nova forma

3 dedos tencionam o copo

 

Há um dizer, e este é a esfera fria

redonda que se impugna

 

Este é o lado da atual procura

o da esfera, sóbria e lisa

 

E aqui anuncia-se um erro, e um verdor…

̶  ali, quando há aresta há erro!

 

Aqui; quando o verdor age não encontra

no encontro, o não se dizer aresta…

 

Um fato é um logro quando não o há…

Há um tempo que o tardio logra…  (história)

 

É esta a sombra; ou se anuncia um nada

que nadifica, ou se anuncia o tempo que erra…

 

O tempo-esfera e o tempo-espera

Um desdizer, um desconsolo: onde

aparar-se?

 

A lontra, o asno, o leão

Quem ruge? Se vês só arroto?

 

Dedica-se, há um ar ali onde há ar

Soprou-lhe e nem o sabes, e expiras…

respiras…

aspiras…

Joacyr Bezerra de Lima

 

Joacyr Bezerra de Lima é poeta. Vive na Paraíba.

©

 

* Para enviar poemas ao Caderno Poemata para seleção e publicação, entrar em contato através do e-mail revistaphilipeia@gmail.com.

 

Revista Philipeia 

Ano VI 
ISSN: 2318-3101 

Primavera Latino-americana

Parahyba

Nordeste - Brasil
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